Emigrar é muito mais do que atravessar fronteiras
Numa manhã de Verão, onde a chuva era mais presente do que no Inverno, recebi a notícia de que não teria a minha mãe por perto durante meses. O motivo? Ia emigrar. A minha mãe não era expert, nem fluente em outras línguas. Não foi a primeira, mas talvez tenha sido aquela que mais tenha impactado toda família.Nesse mesmo dia, algo em mim mudou, até hoje penso o que terá sido. Seria aquela sensação de um passarinho quando vê a mãe a ir em busca de alimento, podendo levar horas até retornar ao ninho? Seria apenas uma mudança radical na vida de um rapaz de sete anos, a poucos meses de entrar no segundo ano? Tenho as minhas dúvidas. Mas lembro-me que naquela noite dormi pouco, rodeado de pensamentos grandes demais para a minha idade e que o cheiro do travesseiro me parecia diferente, como se já faltasse ali o perfume da minha mãe.O tempo passou, mas de forma estranha. Lento nas horas em que sentia saudades, rápido nos momentos em que me distraía. A ausência dela não se resumia à falta física. Era o silêncio no café da manhã, o colo que já não tinha ao chegar da escola, o riso que parou de ecoar pela casa. Os dias tornaram-se uma sequência de rotinas cumpridas com esforço, e os domingos, antes cheios de cheiro de comida boa e conversa, passaram a ser monótonos.
Narrando uma parte daquilo que é a minha história, vejo ao meu redor rostos e feições que julgo não serem destas terras. Enquanto os observo, pergunto-me também sobre as suas histórias: de onde vieram, por que emigraram, se enfrentaram dores semelhantes às minhas. Perguntas que carrego no olhar, sem resposta, mas com empatia.
Um ano após o primeiro choque, chegou o segundo. Como numa festa surpresa, fui surpreendido com o retorno da minha mãe à nossa cidade, naquele momento, lembro-me de estar na rua a saltar à corda com os meus amigos. Assim que a vi, não pensei duas vezes, corri e pulei para os seus braços que me fizeram falta durante longos meses que pareciam anos. Foi um abraço que durou mais do que qualquer relógio poderia contar. Depois de tantos beijos e abraços, presentes e risos durante umas semanas, acabei por descobrir que, assim como minha mãe, também me tornaria um emigrante.Fiquei com o coração dividido. Por um lado, queria estar com ela novamente; por outro, sentia medo de deixar para trás o que me era familiar. Despedi-me dos meus amigos, da escola, dos avós, da casa onde cresci. Foi a minha primeira grande viagem, nem sequer sabia o que me esperava do outro lado do oceano. O avião parecia levar não só as malas, mas também a minha infância.Hoje, olhando para trás, vejo-me como uma personagem secundária nesta trama. Faço parte dela, mas o foco principal é noutra pessoa. É na minha mãe, que abdicou de tudo aquilo que era seguro, da terra firme, da vida estável, do sotaque brasileiro para se aventurar em terras lusas. Sozinha, provou ser aquilo que até hoje lhe chamo carinhosamente: a minha guerreira.Ela enfrentou invernos duros, transportes públicos confusos, dias de trabalho exaustivos. Teve de reaprender a viver noutro fuso, noutra lógica. Nunca a vi reclamar. Foi com ela que aprendi que coragem não é ausência de medo, e sim a decisão de avançar apesar dele. Hoje compreendo que aquele gesto de partir foi, mais do que tudo, um ato de amor. Graças a isso, cá estamos nós, reconstruídos, unidos e mais fortes do que nunca, não apesar da distância e mudança, mas por causa delas.Narrando uma parte daquilo que é a minha história, vejo ao meu redor rostos e feições que julgo não serem destas terras. Enquanto os observo, pergunto-me também sobre as suas histórias: de onde vieram, por que emigraram, se enfrentaram dores semelhantes às minhas. Perguntas que carrego no olhar, sem resposta, mas com empatia.Acredito que muitas pessoas, principalmente políticos e adeptos de propostas anti-imigração, estão desprovidas do conhecimento real sobre o que significa emigrar. Falta-lhes compreender a força que é necessária para abandonar o que se conhece, a dor de deixar para trás laços e raízes, a necessidade extrema que muitas vezes impulsiona esse passo. Se tivessem tal noção, talvez não criassem barreiras contra quem procura apenas uma vida digna.Ao invés disso, poderiam dedicar-se a construir pontes, a criar políticas de integração humanas eficazes, a descomplicar o processo burocrático que hoje torna a imigração num labirinto quase sem saída. Este “bicho de sete cabeças” só existe na cabeça daqueles que o criaram. Nós, que atravessámos fronteiras físicas e emocionais, sabemos que o verdadeiro desafio não está em nós, mas sim nas estruturas que teimam em fechar portas. Emigrar é muito mais do que comprar um bilhete de avião e sair, é tentar construir um lar e chamá-lo de casa num lugar que nos é desconhecido.










