Transtornos mentais ‘roubam’ até 8,7 milhões de anos de vida saudável no Brasil, diz pesquisa
Ansiedade, depressão, bipolaridade, esquizofrenia… Os transtornos mentais estão longe de ser um problema trivial no Brasil. Segundo um novo estudo publicado na revista científica The Lancet, cerca de 45 milhões de brasileiros convivem atualmente com algum tipo de condição de saúde mental. Na prática, isso significa que um em cada cinco vive com algum grau de sofrimento psíquico.
A pesquisa — liderada por pesquisadores do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), em colaboração com parceiros da University of Queensland — mostra que, no caso do Brasil, o maior peso dos transtornos mentais não está necessariamente nas mortes, mas nos anos vividos com essas condições. Os dados analisados se referem ao ano de 2023.
Para entender isso, os pesquisadores usam um indicador chamado DALY, sigla em inglês para “anos de vida perdidos ajustados por incapacidade”. Pode parecer complicado à primeira vista, mas a lógica é relativamente simples: a medida funciona como uma espécie de termômetro do quanto uma doença “rouba” anos saudáveis de vida.
Esse cálculo leva em conta os anos perdidos por morte precoce e os anos vividos com limitações causadas pela doença.
No Brasil, os transtornos mentais geram entre 6,5 e 8,7 milhões de anos de vida saudável perdidos. E quase toda essa carga, segundo o levantamento, vem justamente da convivência prolongada com sofrimento psíquico, perda de qualidade de vida e limitações no dia a dia e não da mortalidade em si.
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Para ter ideia, o impacto relacionado à morte prematura é muito menor: varia entre 194 e 429 anos perdidos.
Na prática, isso ajuda a explicar por que transtornos mentais aparecem cada vez mais ligados a afastamentos do trabalho, burnout, queda no rendimento escolar, isolamento social, dificuldade de manter relações pessoais e até aposentadoria precoce.
Ainda de acordo com o estudo, as mulheres concentram a maior carga de incapacidade associada aos transtornos mentais. Elas somaram entre 3,9 e 5,4 milhões de anos vividos com limitações relacionadas a essas condições. Entre os homens, o número variou entre 2,5 e 3,3 milhões.
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Cenário mundial
No mundo, cerca de 1,2 bilhão de pessoas vivem atualmente com algum transtorno mental. O valor é praticamente o dobro do registrado em 1990.
Segundo o levantamento, os transtornos mentais se tornaram hoje a principal causa de incapacidade no mundo, superando inclusive doenças cardiovasculares e o câncer.
Na primeira infância, por exemplo, o estudo inclui condições do neurodesenvolvimento, como transtorno do espectro autista (TEA), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e deficiência intelectual do desenvolvimento, além de transtornos ligados ao comportamento infantil. Nessa fase, os meninos aparecem com taxas mais elevadas do que as meninas.
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Já na adolescência, o cenário muda. Ansiedade e depressão passam a concentrar grande parte da carga global de sofrimento mental.
Os pesquisadores apontam que adolescentes entre 15 e 19 anos estão entre os grupos mais afetados. Segundo a coautora do estudo, Alize Ferrari, professora associada honorária do Centro de Pesquisa em Saúde Mental de Queensland e professora assistente afiliada do IHME, esse é um período particularmente delicado do desenvolvimento.
“Nossos resultados mostram que a incidência de transtornos mentais atinge o pico entre jovens de 15 a 19 anos, um período crítico do desenvolvimento que pode moldar trajetórias educacionais, profissionais e de relacionamento”, afirma a pesquisadora.
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E, assim como no Brasil, as mulheres também apresentam maior carga global de sofrimento mental, especialmente em quadros ligados à ansiedade e depressão.
“Essas tendências crescentes podem refletir fatores estruturais como pobreza, insegurança, abuso e violência”, avalia Damian Santomauro, professor associado do Centro de Pesquisa em Saúde Mental de Queensland e professor assistente afiliado do IHME.
A pandemia de covid-19 também é apontada como um fator importante nessa trajetória. Desde 2019, a prevalência global de depressão aumentou cerca de 24%, enquanto os transtornos de ansiedade cresceram mais de 47%.









