CIÊNCIA

Perder um animal de estimação: um luto legítimo

Quando um animal de estimação entra na nossa vida e é acolhido com afeto, facilmente cria-se um vínculo emocional, não raras as vezes, profundo, que pode ser comparado às relações humanas.Desde 2017, a lei portuguesa reconhece os animais como seres vivos dotados de sensibilidade, deixando de os considerar “coisas”. Este reconhecimento permite conferir uma proteção jurídica mais coerente com a sua natureza.Apesar deste avanço, ainda há muito a fazer, sobretudo, no que toca à disponibilização de informação fidedigna sobre os benefícios emocionais, para adultos e crianças, do convívio com um animal de estimação e sobre a promoção de práticas que reconheçam o papel significativo que estes cumprem na vida das pessoas.Estudos demonstram que a presença de um animal de estimação representa suporte emocional, transmite tranquilidade e diminui o sentimento de solidão. Cuidar, brincar, passear ou interagir com os animais ajuda a relaxar e a aliviar o stress, sem contar no carinho que eles são capazes de dar. Desta forma, a relação estabelecida ajuda a satisfazer algumas necessidades humanas, como sejam, cuidar, dar e receber afeto, além do sentimento de segurança relacional e de aceitação.Neste contínuo, a perda deste companheiro pode ser sofrida com grande intensidade, despertando emoções difíceis de expressar e de integrar, que resultam num luto cujo impacto emocional e social se assemelha à morte de uma pessoa significativa. Para muitos, torna-se efetivamente doloroso lidar com a ausência daquele companheiro que, incondicionalmente, se alegrava com a nossa chegada a casa e com quem partilhamos bons momentos.Ainda que o luto pela perda de um animal de estimação se constitua como um processo natural e legítimo, muitas pessoas optam por esconder o que sentem, temendo o julgamento de uma sociedade que, frequentemente, considera este lamento ridículo ou exagerado. Como consequência, esta dor acaba por se tornar silenciosa, solitária e incompreendida.Contrariamente a este tipo de atitude, é importante reconhecer este sofrimento como natural e válido, sem se preocupar se é ou não adequado. Ninguém deve ter vergonha do sofrimento, e deve, sim, procurar conforto junto das pessoas mais próximas ou daquelas que perderam um animal de estimação, porque a semelhança da experiência pode promover o sentimento de aceitação, sem receio de julgamento.Tal como em qualquer outro processo de luto, contribui para a recuperação, permitir-se sentir as emoções que surgem em diferentes momentos, como a tristeza, a saudade ou mesmo a culpa — muitas vezes sem sentido, mas que teima em aparecer cobrando algo que não foi feito ou pensado para salvar o animal. Estes sentimentos são esperados perante situações difíceis da vida e este acontecimento é, para muitas pessoas, tão ou mais impactante quanto outros. Considere o amor incondicional do seu animal como um presente e a dor da perda como uma experiência profundamente pessoal e válida.Pequenos gestos de homenagem, como, por exemplo, apoiar uma instituição que acolhe animais, expor em casa uma fotografia de um bom momento com o seu patudo ou guardar um objeto especial que o represente, ajuda a processar as emoções, ao mesmo tempo que facilita a reposição do equilíbrio após a perda.Lembre-se que em qualquer situação de luto não temos de dizer adeus, como se nunca mais pudéssemos falar ou pensar nos bons momentos vividos juntos. A ligação antes estabelecida pode transformar-se e permanecer através das memórias e do significado atribuído àquela relação.O luto, mesmo de um animal de estimação, é um processo gradual que, com o tempo, tende a transformar-se numa recordação suave, marcada pela nostalgia e gratidão dos momentos vividos.Após algum tempo de reflexão, poderá surgir a vontade de adotar outro animal. Este passo deve ser ponderado, tendo em conta as condições emocionais em que se encontra. Importa sublinhar que não se trata de uma substituição daquele que faleceu: cada animal tem a sua personalidade e cada relação é, naturalmente, única.Se sentir que o sofrimento é demasiado intenso ou prolongado, e que está a interferir significativamente com a sua vida diária, procure apoio psicológico de modo a poder compreender e dar sentido às emoções envolvidas.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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