SAÚDE E BEM ESTAR

No mesmo dia em que deu à luz gêmeos, ela virou deputada e enlouqueceu

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Em “A História dos Vertebrados”, Mar García Puig une sua experiência pessoal de maternidade e política a uma pesquisa profunda sobre a loucura feminina. A obra desafia o patriarcado e a normalização de doenças pós-parto, revelando como a literatura pode ser refúgio e questionamento. Um convite à reflexão íntima e social.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

A primeira frase de A História dos Vertebrados provavelmente será incluída nas antologias de aberturas mais tocantes da literatura do século XXI. “No dia 20 de dezembro de 2015, me tornei mãe e enlouqueci”, crava na página a escritora catalã Mar García Puig, que, alguns parágrafos adiante, nos conta que “no mesmo dia do nascimento dos meus filhos, tornei-me deputada.”
Sim, esse é um relato parido com fatos reais. Mas também é muito mais do que isso. A espinha dorsal do romance é a vivência da autora com a maternidade e a política – experiências capazes de roubar a sanidade -, mas suas vértebras se apoiam numa profunda pesquisa sobre o imaginário e o passado da loucura feminina, articulando reflexões que instigam tudo, menos indiferença no leitor.

Mar García Puig deu à luz gêmeos e, no mesmíssimo dia que precisou correr ao hospital, elegeu-se deputada no parlamento espanhol. O turbilhão psíquico, fisiológico e social do momento alterou sua percepção do mundo, despertando receios e anseios incontroláveis.

A picada da anestesia vira um fantasma às suas costas. E o medo de perder os filhos, mal eles tenham chegado ao mundo, irá corroer seu equilíbrio mental, sua rotina e seus relacionamentos.
É assim que a depressão pós-parto, o transtorno obsessivo, o estresse pós-traumático e outros tantos diagnósticos psiquiátricos entram na trama, mas não basta nomeá-los ou remediá-los com pílulas para exorcizá-los. Afinal, os demônios não estão só dentro da gente.

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Puig parte dessa íntima odisseia – sem a certeza de onde irá chegar – e eviscera mitos e relatos históricos sobre a insanidade sofrida por ou atribuída a mulheres que se tornaram mães. Compartilha, com elas e conosco, momentos duríssimos, marcados pela solidão, pela falta de acolhimento, pelo repúdio do entorno.

A História dos Vertebrados

A História dos Vertebrados, que acaba de ser publicado pela Bazar do Tempo, é a história da única espécie que conseguiu transformar suas dores em prosa e poesia – talvez para poder processá-las e tentar mudar seu destino.

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Com a palavra, Mar García Puig.
Em um mundo que exige tanto das mulheres e ainda enfrenta rompantes de machismo, é possível não enlouquecer ao se tornar mãe? Acho que é exatamente essa a pergunta que A História dos Vertebrados tenta responder. A maternidade em si é um momento muito extremo. Não nasce apenas um bebê, mas também uma mãe. Mudanças expressivas ocorrem na vida de uma mulher. Mas também, como você disse, existe toda essa pressão de um mundo patriarcal que dita como uma mãe deve ser e que qualquer desvio é anormal. E isso é insustentável. De fato, normalizamos o que chamamos de “baby blues”, aquela tristeza que ocorre depois de se tornar mãe, e isso passou a ser aceito como algo absolutamente normal. Nem nos perguntamos por que acontece conosco, como se fosse apenas uma questão de hormônios e não também uma questão social. Além dessa melancolia pós-parto, existe toda uma gama de doenças que podem levar à loucura, uma série de problemas que foram historicamente invisíveis porque estão enraizados precisamente no machismo.
O que mais impressionou em sua pesquisa histórica sobre a loucura para o livro? Fiquei muito surpresa ao encontrar tantas evidências de como o medo materno foi usado historicamente, e continua sendo usado hoje, para subjugar as mulheres. A dor materna tem sido uma força histórica usada pelo patriarcado para manter o status quo e impedir que as mulheres se rebelem. Durante minha pesquisa, encontrei evidências disso nos mais diversos lugares: na mitologia grega, que explica a mudança das estações precisamente através da dor da mãe, com o mito de Deméter e Perséfone. Também na literatura, em manuais de psiquiatria e na própria lei. Estamos cercados por essas evidências e não nos damos conta disso.

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No livro, você observa que a política se esqueceu da maternidade. Você prevê uma mudança real nesse sentido? A política só se lembrou da maternidade para controlá-la. E é verdade que, graças à luta das mães e do feminismo, mudanças estão acontecendo, mas também é verdade que estamos vivendo um período de regressão, em que, por exemplo, alguns direitos que conquistamos como mulheres estão em perigo. E me refiro justamente a essas leis que foram usadas para controlar a maternidade, como as leis que proíbem o aborto. Neste momento, em vários países, algo que havíamos conquistado está sendo questionado.
Que respostas você encontrou ao elaborar o livro e confrontar seus “esqueletos no armário”? Não sei se encontrei respostas ou mais perguntas. O que encontrei foi companheirismo, um companheirismo literário. Este é um livro que se baseia em muitas outras histórias de mulheres, e escrevê-lo foi como caminhar ao lado delas novamente pela minha jornada de loucura e maternidade. Ao mesmo tempo, após sua publicação, o livro também me abriu as portas para uma comunidade de leitoras, outras escritoras e criadoras que ou já estiveram na mesma situação ou desejam compreender as experiências daquelas que enlouqueceram depois de se tornarem mães. Acredito que a literatura não oferece respostas, mas sim compaixão, a possibilidade de imaginar outros horizontes. E ela também nos convida a continuar nos questionando. Sinto que a loucura é uma questão constante, uma questão constante sobre o nosso mundo, e no caso da loucura ligada à maternidade, ela também questiona a relação da sociedade com a maternidade.
Você escreve que sofreu por não ter dado aos seus filhos o dom da imortalidade. Acredita que a literatura seja um meio de alcançar, mesmo que simbolicamente, esse dom? A verdade é que eu não havia pensado nisso, mas agora que me vem à cabeça, talvez inconscientemente, a força motriz por trás da escrita deste livro foi buscar a imortalidade, ainda que apenas literária, para os meus filhos. Na verdade, sua pergunta me deixou um pouco inquieta. No livro, conto a história do calcanhar de Aquiles. A mãe de Aquiles, Tétis, queria que seu filho fosse imortal, então o mergulhou nas águas do rio Estige, que lhe concederam o dom da imortalidade. Mas, ao mergulhá-lo, ela o segurou pelo calcanhar, e esse era o seu ponto vulnerável: ele morreu de um ferimento precisamente no calcanhar. Pensando nisso, talvez escrever A História dos Vertebrados tenha sido minha maneira de imergir meus filhos nas águas da imortalidade.

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