Scott McTominay, um médio de contenção que já não se contém
O Nápoles venceu o Inter por 3-1, neste sábado, no jogo grande da Liga italiana, e é líder do campeonato. E Scott McTominay voltou a fazer das suas – mas estas, convenhamos, não eram “as dele”. Há uns anos, este golo seria notícia. Hoje, já é um mero detalhe sobre um homem que parece ter adormecido em Manchester e acordado em Nápoles alguns anos depois – e, como num bom filme de ficção científica, fizeram-lhe algo enquanto ele dormia, mudando-lhe a personalidade.Sejamos práticos, embora duros: McTominay foi, durante anos, um jogador pouco mais do que banal. Foi lançado por José Mourinho numa estratégia que não é incomum no agora treinador do Benfica: pegar num jogador pouco renomado (muitas vezes um jovem) e usar o perfil trabalhador para lhe dar relevância na equipa – como um exemplo para os demais, mesmo sendo alguém abaixo do nível dos colegas.E McTominay era esse jogador – um médio-defensivo forte nos duelos, duro, intenso e com virtudes que não passavam por ter a bola nos pés. Mourinho chegou até a inventar um prémio interno numa gala do United só para poder destacar o seu jogador preferido: era o prémio de jogador do ano no clube votado pelo… treinador.Hoje, com 28 anos, McTominay não é nada do que Mourinho via nele – e o mesmo podemos dizer de Solskjaer, Rangnick e Ten Hag. É um goleador no Nápoles e um dos médios-ofensivos mais perigosos da Europa, mesmo não sendo um portento técnico. Como? Não é fácil de explicar. Mas o próprio escocês tem pistas para isso.Chegou a dizer ao The Athletic que não foi bem analisado no United: “Quando cheguei à primeira equipa fui bastante mal analisado. As minhas virtudes sempre foram chegar à área, marcar golos e ser um problema nessa zona. Mas sempre fui utilizado como médio-defensivo ou defesa – e isso nunca foi o meu jogo”. O jogador diz que isso “não é culpa dos treinadores”, possivelmente para tentar não ser deselegante, mas é preciso muito talento diplomático para não culpar os homens que olharam para um piano e acharam que servia para pendurar roupa.E isso leva-nos a algo curioso. Alex Ferguson chegou a dizer que o jogador chegou ao clube com oito anos como um avançado, mas que se tornou um recuperador de bolas. E McTominay já disse, anos depois, que isso sempre foi um mito criado à sua volta.“É um mito total. É engraçado ouvir isso. Acho que joguei como avançado um par de vezes quando estava a crescer. Foi para ajudar a equipa nessa altura. Isso não faz de mim um avançado, tal como jogador a central duas vezes não faz de mim um defesa”, disse à Four Four Two.Temos aqui um problema. O jogador sente que o seu perfil é mal interpretado e ainda acrescenta que existe um mito urbano propagado pelo próprio treinador que o viu crescer. Isto sugere que McTominay era um dos segredos mais bem guardados do futebol mundial.Na temporada passada, como médio com chegada à área, marcou 13 golos pelo Nápoles, ajudando a equipa a ser campeã – foi considerado o melhor jogador do campeonato, conjugando força física, capacidade no transporte, algum requinte técnico (mesmo não sendo um fantasista) e, sobretudo, boa capacidade de definição no último terço.Nesta temporada, Antonio Conte até tem sido criticado este ano por estar a tirá-lo desse labor – quem diria que, um dia, alguém seria criticado por tirar McTominay de uma função ofensiva?Para encaixar Kevin de Bruyne, Conte tem utilizado McTominay como ala-esquerdo com alguma frequência – não sempre – e diz que “em alguns momentos da vida talvez seja necessário enfrentar um desafio diferente e acho que, para ele, foi bom sair da sua zona de conforto e provar que é um jogador fantástico”.Parece que Conte considera que está a tirar McTominay da zona de conforto. Mal sabe o italiano como tem sido a vida deste escocês.










