O reforço do desinvestimento em Ciência
O Governo partilhou no Instagram que “Portugal lidera o reforço da Investigação e Inovação na Europa”.Alegam a subida de 160% no investimento de 2021-23 (que não foi este Governo que efetivou), mas nem em 2024 conseguimos ir além dos 0,29% do OE dedicados à I&D (5.º pior da Europa, a média europeia é de 0,71). Assim fica fácil liderar, pôr pouco em poucochinho é percentualmente maior do que pôr algum em muitochinho.Contudo, é muito difícil para o cientista comum saber como ou se este dinheiro está mesmo a ser investido, uma vez que são poucos aqueles que estando num centro de investigação têm contrato de trabalho. Adiciona-se também a permanente falta de condições — e estas referem-se mesmo a condições materiais, como falta de luvas e pontas nos laboratórios, equipamentos de segurança desatualizados, falta de computadores e até falta de espaços de trabalho e quando há não raras vezes estão decrépitos.Também é notória a adaptação de linguagem porque na verdade este Governo desistiu da Ciência e Tecnologia com a queda da FCT para dar lugar à AI2.Não falo em desistência por negativismo, digo-o porque esta é a linha de pensamento de aliar as empresas e a produção científica, que é bonito no papel, mas na prática significa o aumento dos doutoramentos em ambiente não académico, ou seja, doutoramentos feitos para facilitar a integração do doutorando em meio corporativo. Só que o reverso da medalha é que estas empresas se aproveitam da produção científica do doutorando, usam-no como trabalhador da própria empresa sem que no final dos quatro anos de doutoramento haja um contrato de trabalho. Isto perpetua a situação de precariedade pois as empresas aproveitam-se destas situações para que tenham trabalhadores pagos pelo estado sem que o trabalhador tenha qualquer tipo de direito laboral. Este tipo de bolsa de doutoramento já representa mais de um terço das bolsas atribuídas pela FCT.É preciso deixar de favorecer com o pouco dinheiro que temos quem não devolve esse investimento. E é também preciso que se compreenda que sem ciência fundamental (aquela que procura o conhecimento e não o lucro a curto prazo) não é possível o progresso científico e que esta também precisa de ser cuidada. E este reforço é um reforço do descuido da nossa ciência que caminha a passos largos para a sua mercantilização. São este tipo de políticas que impedem a conversão da nossa economia numa economia de valor acrescentado que por consequência leva a “geração mais bem formada de sempre” a fazer as malas em busca de uma vida melhor.O que é verdadeiramente investir em ciência é valorizar o trabalho de cada cientista, dando-lhe condições de estabilidade para poder viver em Portugal, uma vez que nem subsídio de férias, Natal ou mesmo refeição tem direito e nem um empréstimo ou um cartão de crédito consegue pedir.










