CIÊNCIA

Sudão: organizações humanitárias denunciam massacres e desaparecimentos em El-Fasher

As organizações humanitárias Médicos Sem Fronteiras (MSF) e o Comité Internacional de Resgate (IRC, na sigla inglesa) alertaram para uma nova vaga de atrocidades e desaparecimentos em massa, em El-Fasher, na província de Darfur, no Norte do Sudão, depois da tomada da cidade pelas Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla original), a 26 de Outubro. Centenas de milhares de civis poderão estar encurralados ou mortos, e os poucos sobreviventes descrevem uma paisagem de fome, tortura e execuções sumárias.A organização MSF denunciou, num comunicado de imprensa lançado a 31 de Outubro, “assassinatos indiscriminados e com motivações étnicas” em El-Fasher e arredores, apelando à comunidade internacional para pressionar as RSF a permitir a fuga de civis. “Onde estão todas as pessoas desaparecidas que já sobreviveram a meses de fome e violência?”, questionou Michel Olivier Lacharité, responsável de emergências dos MSF, afirmando, ainda, que os números de chegadas não batem certo “enquanto se acumulam relatos de atrocidades em larga escala”.As equipas da organização em Tawila – cidade vizinha – afirmam ter recebido apenas cinco mil pessoas nos últimos cinco dias, apesar da ONU estimar em mais de 260 mil o número de habitantes de El-Fasher no final de Agosto. Entre os recém-chegados, predominam mulheres e crianças em estado crítico, muitas delas com “desnutrição aguda”.“A resposta mais provável, embora assustadora, é que estão a ser mortos, bloqueados e perseguidos quando tentam fugir”, acrescentou Lacharité, pedindo a “intervenção urgente” dos Estados Unidos, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Egipto – uma iniciativa geopolítica chamada “Quad”, formada para tentar mediar o conflito no Sudão – para travar “um banho de sangue”.De acordo com a organização, vários sobreviventes relataram cenas de horror: homens e rapazes separados por idade e etnia, reféns mantidos mediante resgates de até 43 mil euros e execuções com transportes militares. Um sobrevivente afirmou ter pago 24 milhões de libras sudanesas (34 mil euros) aos seus captores para salvar a sua vida e escapar.


Outro testemunho recolhido pelos MSF descreve “combatentes a esmagarem prisioneiros com os seus veículos”. Entre 26 e 29 de Outubro, as equipas médicas trataram 396 feridos – muitos com ferimentos de bala, fracturas e marcas de tortura – e mais de 700 pessoas deslocadas, vindas de El-Fasher.Os pacientes chegam com feridas infectadas ou com complicações de cirurgias improvisadas em El-Fasher, onde os hospitais “funcionavam sem acesso a medicamentos”, afirmou Livia Tampellini, vice-chefe de emergências dos MSF. A maioria dos profissionais de saúde sudaneses da organização perdeu familiares nos ataques. “Dado o estado das pessoas que escaparam e mal chegaram vivas a Tawila, é evidente que necessitam urgentemente de cuidados médicos e nutricionais, assistência psicossocial, abrigo, água e assistência humanitária”, sublinhou Tampellini.O IRC, que lançou um comunicado de imprensa a 29 de Outubro, confirmou relatos semelhantes e advertiu que “centenas de milhares de pessoas permanecem em grave perigo” em El-Fasher e arredores. As suas equipas, no terreno desde 2019, estimam que apenas uma fracção dos civis conseguiu fugir. “O facto de tão poucas pessoas estarem a chegar em segurança a Tawila deve alarmar toda a gente”, afirmou David Miliband, presidente e director executivo do IRC. “O mundo não pode virar as costas a mais um capítulo de horror em Darfur”, afirmou Miliband, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido entre 2007 e 2010.As equipas da organização continuam a prestar assistência humanitária em Tawila, incluindo serviços de saúde de emergência, abastecimento de água e assistência monetária às famílias recentemente deslocadas. “A passagem segura deve ser garantida e a ajuda humanitária precisa de ser financiada agora”, insistiu Miliband.Mais de um ano depois do início do cerco, El Fasher tornou-se o epicentro da guerra civil sudanesa e da catástrofe humanitária que atinge todo o país. As agências das Nações Unidas e organizações no terreno descrevem uma população reduzida à fome, sem acesso a água potável ou medicamentos. O bloqueio imposto pelas RSF impediu a entrada de ajuda durante meses, e os relatos de limpeza étnica multiplicam-se.OS MSF e o IRC pedem “acção imediata” da comunidade internacional para garantir corredores humanitários e proteger os civis. “Não há mais tempo a perder”, advertiu a médica Livia Tampellini.Texto editado por Paulo Narigão Reis

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