A insustentável proeza de um ser: no United de Amorim, Mbeumo voltou ao normal
Cinco golos em 11 jogos, superando o valor de golos esperados – mais um golo do que “era suposto”. É este o registo de Bryan Mbeumo no Manchester United, depois de mais um golo neste sábado, no empate (2-2) frente ao Tottenham. Estamos a falar de um registo elogiável? Em teoria, sim – não é fabuloso, mas é bastante razoável. O problema que este é o homem que, na temporada passada, prometeu outro tipo de coisa – e foi contratado pelos 65 milhões de euros que evidenciavam isso mesmo.Foi o segundo jogador dos cinco principais campeonatos que mais superou o seu valor de golos esperados (xG) – métrica que mede a probabilidade de sucesso de uma finalização. Melhor do que ele só Patrick Schick, na Alemanha, sendo que Mbeumo jogava, no contexto inglês, num Brentford bastante menos apetrechado do que o Leverkusen na Bundesliga.Estamos a falar de alguém que marcou 20 golos, mas “só deveria” ter marcado 13 – um valor tremendo de sobreprodução que atesta uma qualidade superlativa na finalização, mas que o fez experimentar, como nunca disse Milan Kundera, a insustentável proeza de um ser.Os valores de Mbeumo eram totais anomalias estatísticas. Por um lado, porque o jogador nunca teve números sequer parecidos com esses – média de dez golos por época até então. Por outro, porque muito poucos jogadores nos últimos anos de Liga inglesa superaram tanto o seu xG. É por isso que a contratação de Mbeumo significou uma expectativa inflacionada: futebolisticamente, com esperanças desmedidas, e financeiramente, com uma contratação de valores astronómicos por alguém que nunca tinha pisado um palco de Liga dos Campeões.E talvez Mbeumo seja um bom medidor daquilo que tem sido a temporada de Ruben Amorim e do Manchester United. O sétimo lugar é mau? Nem por isso, sobretudo pela curta distância pontual para o pódio. Mas é fantástico? Também não seria razoável dizê-lo, até pela expectativa criada pelas contratações e pelo tempo de trabalho de Ruben Amorim.E tudo isto se aplica ao United como se aplica a Mbeumo, alguém que não tem sido mau, de todo, mas também não tem cumprido as expectativas desmedidas que lhe foram colocadas aos ombros – e isso está longe de ser culpa do próprio.Toca piano e fala francêsBryan Mbeumo é uma figura curiosa. É um jogador cujo perfil não sugere especial dificuldade em ter holofotes – é driblador, criativo, lutador e finalizador, predicados que geram, habitualmente, mais atenções num ecrã de televisor.Mas tudo isto muda quando lhe colocam um piano à frente. Os dedos prodigiosos contrastam com a dificuldade em tocar com público à volta: “Não gosto de tocar para pessoas. Sou introvertido e o piano serve apenas para relaxar no meu tempo livre”.
E faz igual no xadrez. Gosta de jogar online, mas preferiu criar um nome de utilizador que não o identifique como o Bryan Mbeumo do Manchester United, mas sim como um qualquer cidadão do mundo com acesso à Internet.“Mesmo não sendo físico, há muito raciocínio no xadrez. No futebol também temos de pensar e, no xadrez, conseguimos ver movimentos mais à frente – é um jogo de estratégia, algo que também existe no futebol”, explicou também à BBC. E este fraco-camaronês garantiu que houve um período em que estava bastante motivado para o xadrez e a aprender muito no Youtube.Jogador PolivalenteBryan Mbeumo é alguém que joga xadrez, toca piano e fala francês, mas não é apenas nisso que nos leva à fantasia: as estatísticas da temporada passada criaram uma certa fantasia nas expectativas criadas. Mas ele tem tentado corresponder.No campo, tem oferecido a Ruben Amorim uma rara abnegação no plano defensivo, sobretudo para alguém cujo labor era o de criar e marcar golos – e foi nesse papel que chegou ao United.Mbeumo tem permitido à equipa estar mais “colada”, pela forma como fecha bem defensivamente como avançado-interior – está no top 10 de atacantes como mais bolas recuperadas no terço ofensivo.Mbeumo é alguém cujos predicados permitem esticar a equipa com ataque ao espaço, mas também desbloquear jogos no um contra um – usa o pé canhoto para movimentos interiores com bastante facilidade.Depois, tanto consegue ligar o jogo com os colegas como resolver por si próprio. Pode também actuar na posição mais avançada do ataque e, embora possa perder influência no jogo, acaba por estar ainda mais perto do labor no qual se destacou de forma tremenda: a finalização.O golo deste sábado é exemplo disso: esteve sagazmente à espera de um cruzamento, escondeu-se atrás do defensor e cabeceou com muita técnica – pelouro que teoricamente nem é o seu.Aos 26 anos, o jogador camaronês tem sido um dos mais consistentes da temporada no United e, pelo Sofascore, só Bruno Fernandes tem uma média de avaliações superior.










