Um ano após morte de Preta Gil, brasileiros desconhecem exame para diagnóstico precoce de câncer colorretal
Pequenas quantidades de sangue oculto, invisíveis a olho nu, podem ser detectadas por um exame de fezes utilizado no rastreamento do câncer colorretal, capaz de identificar sinais da doença antes mesmo do surgimento dos sintomas. O teste é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas ainda é desconhecido pela maior parte da população brasileira.
É o que mostra uma pesquisa inédita do Hospital A.C. Camargo, de São Paulo, e da Nexus, divulgada nesta segunda-feira, 20. Segundo o levantamento, dois em cada três brasileiros (67%) nunca ouviram falar do exame de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (PSO), indicado para homens e mulheres de 50 a 75 anos que não apresentam nenhum sintoma da doença.
Apenas 11% dos entrevistados afirmaram já ter realizado o teste, enquanto 21% disseram conhecer o procedimento, mas nunca o fizeram. O desconhecimento sobre a ferramenta de rastreamento é maior entre os mais jovens: chega a 85% entre brasileiros de 16 a 24 anos. Também está acima da média entre homens (76%), pessoas com menor renda (73%) e aqueles que estudaram até o ensino fundamental (72%).
O câncer colorretal é hoje o segundo tumor de maior incidência no Brasil. Em fevereiro deste ano, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou 53.810 novos casos por ano no país no triênio de 2026 a 2028.
A pesquisa também mostra que, apesar da falta de informação sobre o exame, a maioria da população reconhece os principais sinais de alerta da doença. Oito em cada dez brasileiros consideram grave a presença de sangue nas fezes ou uma alteração persistente no funcionamento do intestino por mais de um mês, dois dos sintomas mais comuns do câncer colorretal.
Continua após a publicidade
Desse grupo, 42% classificam esses sinais como “muito graves”. Entre pessoas que já conviveram de perto com a doença, esse percentual sobe para 44%.
Ainda assim, reconhecer os sintomas nem sempre significa agir rapidamente. O levantamento mostra que 9% dos entrevistados já perceberam sangue nas fezes em algum momento. Desses, 59% procuraram atendimento médico imediatamente, mas 40% demoraram ou deixaram de buscar ajuda.
Quase um em cada cinco (19%) preferiu esperar o sintoma desaparecer sem fazer nada, enquanto 10% aguardaram dias ou semanas antes de procurar um profissional de saúde. Outros 7% recorreram a remédios caseiros ou mudanças na alimentação, 3% buscaram medicamentos por conta própria em farmácias e 1% pesquisou na internet antes de consultar um médico.
Continua após a publicidade
O comportamento varia conforme o perfil da população. A procura imediata por atendimento é mais frequente entre pessoas com maior renda (86%), idosos com mais de 60 anos (72%) e moradores da região Sudeste (72%). As mulheres também tendem a buscar assistência mais rapidamente do que os homens (63% contra 54%). Já entre moradores das regiões Norte e Centro-Oeste, 43% disseram que apenas esperaram o sintoma passar.
O levantamento também indica que o câncer colorretal ainda parece distante da realidade de boa parte da população, apesar de casos que ganharam visibilidade nos últimos anos, como o da cantora Preta Gil, que morreu em julho de 2025 em decorrência da doença. Apenas 21% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que teve câncer colorretal, sendo 15% um parente próximo e 6% um amigo ou conhecido. Outros 75% dizem nunca ter convivido com um paciente diagnosticado com esse tipo de câncer.
Esse contato, no entanto, parece influenciar o conhecimento sobre o rastreamento. Entre pessoas que tiveram a doença ou conhecem alguém com o diagnóstico, o desconhecimento sobre o exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes cai de 67% para 56%. Nesse grupo, a proporção de entrevistados que já realizaram o teste quase triplica: passa de 8% entre quem nunca teve contato com pacientes para 21% entre aqueles que já conviveram com a doença.










