TECNOLOGIA

Plano estratégico para o desporto: o eterno ensaio geral?

Depois de sucessivos adiamentos, o Governo apresentou o Plano Nacional de Desenvolvimento do Desporto a 12 anos. Um documento que, com natural ambição declarada, chega envolto em mais interrogações do que certezas sobre a sua viabilidade, execução e sustentabilidade.Que garantias se apresentam de que a execução do plano assenta numa previsão financeira clara e realista para um horizonte tão longo? Que mecanismos de revisão orçamental estão previstos para ajustar metas e prioridades a eventuais mudanças conjunturais, a salvo dos ciclos políticos, num país onde a descontinuidade tem sido a regra? São conhecidos cenários de investimento ou referências financeiras faseadas — como é prática em planos de longo prazo — para a execução deste plano estratégico, tendo em conta que o histórico de investimento público no sector é substancialmente inferior à média europeia?Tratando-se de um plano transversal, como se assegurará a articulação entre as várias áreas governativas — Educação, Saúde, Coesão Territorial, Juventude, Igualdade e Ambiente —, de modo a que a estratégia nacional não se reduza a uma soma de intenções isoladas?Estas perguntas não são meramente técnicas — são estruturais. Em Portugal, planeia-se muito e concretiza-se pouco. Desde os Planos de Desenvolvimento Desportivo dos anos 70, impulsionados por Lopes Marques — para não recuar mais no tempo —, que o país acumula soluções adiadas e intenções por cumprir. O diagnóstico está feito há décadas: os riscos e vulnerabilidades são conhecidos, mas as políticas públicas continuam a não sair do papel.A verdade é que o desporto português sofre de uma forma particular daquilo que Zygmunt Bauman descreveu como modernidade líquida: uma época em que a identidade, os laços e as recordações se dissolvem na fluidez do consumo e da velocidade. A memória pública tornou-se mediática — vale o que é visível, partilhável e viral. O passado é reconstruído sob forma de entretenimento — efemérides, nostalgia, retórica política — mas sem densidade simbólica nem continuidade crítica.Também aqui, cada novo plano é tratado como um acontecimento, quando deveria ser o prolongamento de uma história e de um compromisso institucional.O Governo e as organizações de cúpula parecem estagnados. Até hoje, não se conhece uma proposta de reforma da organização e regulação do sector, nem uma agenda política que vá além da gestão corrente e dos “happenings” de circunstância. O que não é irrelevante quando se gere um envelope de 65 milhões de euros financiados por este mesmo Governo — um motivo adicional para exigir rigor, transparência, prestação de contas e resultados.Num sistema que se quer coeso e representativo, é igualmente significativo que, das três entidades de cúpula do desporto nacional, apenas a Confederação do Desporto de Portugal tenha produzido doutrina, sugerido medidas concretas e desenvolvido reflexão estruturada sobre políticas públicas, como se viu na discussão do Orçamento do Estado para 2026.Essa assimetria fragiliza a coesão e o alinhamento estratégico do sector, enfraquecendo a sua voz junto do poder político e tornando-o vulnerável a interesses conjunturais e capturado pelo mercadejar da política de bastidores.Importa ainda lembrar que a mesma equipa que agora elabora este plano foi responsável, a pedido daquelas entidades de cúpula em 2021, pelos estudos “Caracterização do Sector do Desporto e Impacto da COVID-19” e “Áreas Prioritárias e Recomendações Gerais para o Sector do Desporto em Portugal”. Ou seja, o diagnóstico não é novo — como não é nova a falta de compromisso político com os meios para o tornar realidade.São, pois, fundadas as razões para um militante nacional cepticismo sobre o risco de que este novo plano sirva menos para transformar e mais para adiar, mantendo o sistema confortavelmente adormecido sob o manto de promessas e ilusões várias. Para o obstar, importa que não se perca mais tempo e que as medidas que dele resultem tenham meios reais — humanos, materiais, legais e financeiros — para que não seja mais um projecto de intenções sem efeito.Se o futuro do desporto se quer estratégico, o primeiro passo é cumprir o básico: dizer quanto custa, quem paga e como se mede o que se faz. O resto será apenas mais um ensaio geral.

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