Casa das mães, na prisão de Tires, ganhou uma nova cor com projecto feito com reclusas
As portas das celas da casa das mães, na prisão de Tires, deixaram de ser cinzentas e o interior, onde dormem mães e filhos, ganhou uma nova cor com o projecto “As portas que a poesia abriu”, apresentado na sexta-feira.Nas várias salas, nas celas e nos corredores, além das cores, multiplicam-se palavras e frases escolhidas e pintadas pelas mulheres que aqui estão presas. “Eu prefiro rir, porque o riso também é resistência”, lê-se, em tinta verde, numa das paredes.Há, no entanto, uma palavra que não ficou esquecida por nenhuma destas mulheres, como foi contando, enquanto percorria casa das mães, Fernanda Fragateiro, a artista que trabalhou durante cerca de dois meses no projecto que nasceu do movimento artístico internacional “As Portas da Esperança – Jubileu 2025”, promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé: abraço.
Na cerimónia de apresentação, o cardeal José Tolentino de Mendonça considerou a escolha unânime interessante, porque esta é uma forma humana que acontece quando se aceita o apoio mútuo. “O abraço é uma coisa que estamos sempre a inventar, porque não há dois abraços iguais. E é muito interessante pensar na coreografia de um abraço: acontece quando dois corpos se inclinam, perdem o seu equilíbrio habitual e inventam uma forma que não existe na natureza”, disse o cardeal depois de visitar as celas agora pintadas pelas reclusas.Este projecto é internacional, Portugal foi o primeiro país onde aconteceu e seguirá em breve para Itália, onde serão desenvolvidas outras ideias artísticas dentro das prisões.Levar a esperança às prisõesO objectivo é “levar esta notícia da esperança ao interior dos estabelecimentos prisionais de vários pontos do mundo”, acrescentou o cardeal, em declarações aos jornalistas.Para já, ficam pelas paredes e portas das celas da prisão de Tires, além de abraço, palavras como livre, mar, espera – palavras que faziam parte de uma lista e de poemas levados às reclusas pela artista Fernanda Fragateiro.Mas havia uma palavra que não estava na lista e que foi escolhida por Beatriz, uma das mães que participou neste projecto. “Saudade não estava na lista”, admitiu a artista durante a visita de apresentação. Esta palavra foi escolhida por Beatriz, que pintou a sua cela, onde dorme com as duas filhas gémeas, com nuvens.À Lusa, Beatriz contou que este projecto, em que todas se juntaram para pintar e para coser almofadas, criou um espírito de partilha naquela ala da prisão. “O meu objectivo era pintar as portas e unir as reclusas. Foi um trabalho muito bom”, começou por dizer.Com a partilha surgiu também a confiança que sentiram com Fernanda Fragateiro. “Ela ouviu-me, ela acreditou nas outras meninas. Ela deu espaço, em nenhum momento ela ficou em cima de nós. Ela trouxe todo o material e a gente fez o que a gente queria. Quando ela chegou e viu as portas pintadas, ela teve um susto, porque não teve reacção”, disse Beatriz, que quer continuar a misturar cores, enquanto houver tinta.O objectivo era dar às reclusas liberdade para trabalhar com palavras e com tintas. Inicialmente, o projecto passava por pintar apenas as portas das celas, mas com o tempo e com o material que foi sobrando, estas mulheres pintaram também o interior das celas.Na apresentação estiveram as mulheres que deram vida ao projecto, algumas crianças que ali vivem e também a ministra da Justiça, que disse que “as portas da justiça não podem ser portas que fecham caminhos”. “Têm de ser portas que abrem novas oportunidades, devem ser portas de esperança”, acrescentou Rita Alarcão Júdice, sublinhando que a passagem pela prisão é transitória.À margem, a ministra da Justiça mostrou-se disponível para apoiar iniciativas semelhantes em contexto prisional, mas sublinhou, quando questionada sobre a possibilidade de ser a tutela a promover tais projectos, que “o Governo não vai, nem pode, nem tem a capacidade de fazer tudo”.”Eu não acredito que o Estado tenha de fazer tudo. Acredito que o Estado tem de fazer aquilo que é a sua obrigação básica, que é cuidar, tratar dos edifícios, cuidar das pessoas que aqui estão. E deve abrir as portas para iniciativas como esta”, acrescentou.










