TECNOLOGIA

Prevenção da indisciplina: e se fosse necessário haver consequências?

Algo está errado quando uma criança olha para as regras de comportamento afixadas na parede da sala de aula e afirma que não quer saber das mesmas, porque está consciente de que, se não as cumprir, não lhe vai acontecer nada. Mas esta situação torna-se ainda mais interpelante quando se esclarece que essas regras foram discutidas em grupo e resultaram do consenso estabelecido entre todos os alunos, entre os quais a mencionada criança estava incluída.Saída da boca de uma criança de nove anos, esta declaração é tanto mais inquietante na medida em que a construção participada das regras de sala de aula pelos alunos constitui a primeira etapa de um caminho alicerçado no poder da palavra. Ao longo deste caminho, procura-se dotar as crianças dos instrumentos necessários para aprenderem a autorregular os seus comportamentos, tendo por base o sentido de responsabilidade.De uma forma consistente e continuada no tempo, disponibilizam-se momentos para abordar os acontecimentos positivos e negativos ocorridos durante a semana, aprendendo a escutar o ponto de vista dos colegas e a colocar-se no lugar do outro. Quando algo não corre bem, o objetivo consiste em propor soluções para alterar as atitudes, comprometendo-se interiormente com a mudança desejável.Como é lógico, sabemos que este caminho não é fácil, nem tão pouco rápido. Também não ignoramos que, ao longo do processo, pode haver avanços e retrocessos. Mas seria expectável que este caminho conduzisse a uma interiorização progressiva das regras de conduta, que se traduzisse, externamente, numa alteração visível dos comportamentos disruptivos.No entanto, as escolas começam a confrontar-se com um número crescente de casos em que, por mais que se fale, os comportamentos não se alteram. Ouve-se as crianças e procura-se compreendê-las. Promove-se o diálogo e a capacidade de reflexão. Explica-se e torna-se a explicar. Mas, apesar de tantas palavras, os comportamentos não só reincidem, como muitas vezes escalam.Quando se chega a este ponto, parece que se gastaram as palavras. E, quando se gastam as palavras, alguma coisa tem de acontecer. Se alguma dúvida restar, convém prestar atenção àquilo que nos dizem as crianças com uma atitude semelhante à do menino que não queria saber das regras da sala de aula. E aquilo que afirmam, de peito feito, é que podem fazer o que quiserem, por uma razão muito simples: porque estão conscientes de que os seus comportamentos não vão ter consequências.Esta consciência da falta de consequências dos seus atos é altamente preocupante, na medida em que dá origem de uma noção de impunidade que não pode nem deve prevalecer no crescimento de uma criança. Em primeiro lugar, porque esta noção não corresponde à verdade, já que no mundo dos adultos os atos têm consequências, estipuladas de acordo com a gravidade dos atos. Em segundo lugar, porque esta noção é contrária à construção de uma sociedade justa e, tão ou mais relevante, porque aliena os valores que escolhemos para a educação das nossas crianças.O problema é que, quando abordamos a necessidade de haver consequências, frequentemente enredamo-nos num debate do qual pretendemos banir a palavra “castigo”. E, enquanto nos perdemos nesta retórica, as crianças têm motivos para continuarem a vangloriar-se de que não lhes acontece nada: nem consequências, nem castigos.Para podermos dar às crianças os limites contentores de que necessitam para se estruturarem, temos de nos desenlear deste dilema em que se esgrimem os vocábulos, enquanto na prática tudo fica na mesma. Seja optando pela mais simpática palavra “consequências”, seja não excluindo o menos popular vocábulo “castigos”, a verdade é que temos de passar das palavras aos atos.Para terem um efeito educativo, as consequências — confesso que prefiro esta palavra ao vocábulo castigos — têm de estar relacionadas com a falta cometida e ser aplicadas pouco tempo depois do sucedido, para que a criança tenha bem presente o acontecimento. Sempre que possível, as consequências devem ter um efeito reparador, repondo a justiça e permitindo que o aluno em causa repare o dano causado, implicando-se na solução do problema.Nos primeiros anos de escolaridade, temos de evitar que as crianças cresçam com um sentimento de impunidade, que tende a aumentar ao longo do tempo. Se não forem contidos na infância, os comportamentos disruptivos escalam e, mais tarde, torna-se bem mais difícil controlar este crescendo, que conduz à indisciplina, nas suas formas mais ou menos graves. E esta não serve ninguém.Não serve os indisciplinados, porque os desvia da motivação para a aprendizagem e contamina a relação com os outros. Não serve os colegas, que se veem prejudicados no quotidiano escolar e são confrontados com modelos pouco inspiradores. E não serve os professores, que se esgotam na tarefa de tentar conter comportamentos diruptivos, consumindo uma energia que poderia ser mais bem aplicada em prol das atividades pedagógicas.Para conter esta escalada, a escola e as famílias necessitam de estar alinhadas. Se a escola determinar consequências para os comportamentos dos seus alunos que sejam ajustadas e proporcionais às faltas cometidas, é fundamental que os pais legitimem a autoridade dos professores, reforçando o respeito necessário pelo exercício da profissão. É que sem essa legitimação dificilmente se poderá fazer frente à indisciplina.

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