Estamos preparados para quando Cristiano Ronaldo for Presidente da República?
Há diplomatas que passam a vida inteira a tentar chegar ali; Ronaldo chegou porque o filho do Presidente Trump “é fã” (entre outra razões). E talvez por isso devêssemos começar a preocupar-nos a sério com a possibilidade de CR7 querer, um dia, ser Presidente da República.Ronaldo, que se chama assim em homenagem ao ex-Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, não joga só futebol. É investidor no grupo Medialivre (do Correio da Manhã, NOW, Sábado, etc), mecenas de podcasts como o podcast do jornalista britânico de tablóide Piers Morgan, amigo de líderes geopolíticos com arsenais mais pesados do que a nossa Marinha inteira e embaixador não oficial da Arábia Saudita, um papel que levanta mais questões éticas do que qualquer transferência milionária que já tenha feito.Uma estrela do futebol tornar-se político não seria inédito no mundo. O Presidente da Libéria George Weah foi jogador do Paris Saint-German, AC Milan, Chelsea e Marselha. O Presidente de Tiblíssi, capital da Geórgia, Kakha Kaladze jogou no Manchester City. A estrela do AC Milan Andriy Shevchenko teve uma curta carreira política falhada no partido social-democrata da Ucrânia. O ídolo do Galatasaray Hakan Sükür está proibido de voltar à Turquia por se ter envolvido em movimentos oposicionistas ao regime de Erdogan. Até Lito Vidigal foi candidato pelo Partido Socialista à Assembleia Municipal de Elvas nas últimas autárquicas.
A verdade é esta: não conhecemos uma única posição política consistente de Cristiano Ronaldo. Nada. Zero. Nem sobre economia, nem sobre direitos humanos, nem sobre o papel do Estado, nem sobre política externa. Ironicamente, o campo onde ele agora parece mais activo do que muitos diplomatas. A sua visão política existe, mas não se vê.
Os casos são inúmeros, mas nenhum deles chega à escala a que Cristiano Ronaldo, pela sua ambição desmedida e pela força da sua marca pessoal, podia chegar.A verdade é esta: não conhecemos uma única posição política consistente de Cristiano Ronaldo. Nada. Zero. Nem sobre economia, nem sobre direitos humanos, nem sobre o papel do Estado, nem sobre política externa. Ironicamente, o campo onde ele agora parece mais activo do que muitos diplomatas. A sua visão política existe, mas não se vê.Enquanto isso, Cristiano acumula influência global, capital mediático, redes de poder e a espécie de visibilidade internacional que qualquer político português mataria para ter. Mas o pior cenário não é Ronaldo querer ser Presidente. O pior cenário é não querer nada e ainda assim conseguir. E é exactamente isso que o torna perigoso: uma figura com poder político objectivo, mas sem responsabilidade política declarada. Uma celebridade transformada em embaixador de facto de regimes que investem mais em lavagem de imagem, neste caso sportswashing, do que em dignidade humana .E nós, distraídos, achamos normal que um jogador de futebol se sente numa mesa onde se decide a geopolítica global como se estivesse numa gala de entrega de prémios. Pergunto outra vez: estamos preparados?Num país onde há quem vote por simpatia, por memes ou por cansaço, imaginar Ronaldo numa eleição presidencial é menos ficção científica e mais aviso prévio. O eleitor português, esgotado de escândalos e de mediocridade, poderia perfeitamente escolher um símbolo em vez de uma proposta e Cristiano é o símbolo perfeito: vago, brilhante, apolítico, inquestionável.Em Portugal, a Presidência da República já foi ocupada por generais, professores, jurisconsultos e economistas. Porque não uma estrela do futebol cuja popularidade global faz de qualquer campanha um passeio à beira-mar? E nós? Faríamos aquilo que Portugal faz sempre: habituávamo-nos. Fingiríamos que sempre foi normal o Chefe de Estado ser apresentado por Trump como “um grande campeão” enquanto janta com um príncipe que manda assassinar jornalistas e opositores.Cristiano talvez nunca queira ser Presidente, a verdade é que já exerce uma forma de poder político simbólico que ultrapassa os limites formais do cargo. Mas se um dia acordar com vontade de ocupar Belém, o país, obediente como sempre, irá apenas responder: “Sim, capitão.”










