Isto de fazer bebés não mudou muito
Para onde foi o Zezinho é um livro infantil escrito e ilustrado pelo britânico Nicholas Allan. A primeira edição é de 2007 e não sei se foi logo publicado em Portugal, mas sei que, assim que o vimos numa livraria, o compramos para os nossos filhos pequenos. Basicamente, o Zezinho é um espermatozóide que todos os dias treina natação. Ele e os outros milhões de companheiros vão participar numa grande prova e, já se sabe, todos querem o grande prémio, o óvulo. Chega o dia e todos nadam, nadam… Como percebem, a história é simples, é sobre como se fazem os bebés. Outro livro que lhes lemos foi A Mamã pôs um Ovo, da britânica Babette Cole, a primeira edição é de 1993. Passaram 20 anos, desde que lemos estes livros, mas, há dias, estive a folheá-los, e continuam divertidos e actuais. Afinal, isto de fazer bebés não mudou muito com o tempo.Voltei, há dias (repito) a estes livros, porque uma professora me contou que fez algumas sugestões à bibliotecária da sua escola e o Para onde foi o Zezinho foi vetado pela profissional. Pareceu-lhe pouco adequado, além disso, os pais é que devem dar educação sexual em casa, não é responsabilidade da escola, argumentou a bibliotecária, mãe (e avó) de uma família numerosa, com a sua cruz ao pescoço. A senhora não podia estar mais errada, comentei com a docente que viu o título “cancelado”, e referi-lhe a notícia daquela criança de nove anos que só depois de uma acção de sensibilização na escola compreendeu que sofria de abusos sexuais por parte do padrasto, desde os seis. Se não fosse o trabalho da escola, quando compreenderia ela que era uma vítima?A jornalista Rita Caetano conversou com a professora norte-americana Kimberly King, autora do livro Crianças Seguras, para pais e educadores. King foi vítima de abusos em criança e, mais tarde, na faculdade, razão para dedicar a sua vida à investigação e à sensibilização dos pais para este tema. Neste livro, propõe algumas estratégias para prevenir, reduzir o risco de maus tratos e também para identificar sinais dos mesmos. Falar sobre o tema com os mais novos é protegê-los, é como ensiná-los a usar capacete quando andam de bicicleta ou a pôr o cinto de segurança, compara. Falar do tema com a criança, usando os termos correctos, pode mesmo contribuir para dissuadir o predador, defende.Contudo, King está preocupada com o aumento do abuso sexual entre as crianças, muito fruto do fácil acesso a pornografia online. A autora dá números: “Antes, representavam 40% dos casos, mas agora representam 68%. Os investigadores dizem que isto acontece, porque as crianças acedem a conteúdos online inadequados e a pornografia com muita facilidade. Mesmo que não entendam exactamente o que aconteceu, acabam por repetir.” Assustador, não é? Tirem-lhes os ecrãs da frente e leiam-lhes o Allan, a Cole e, actualmente, há novos autores e títulos sobre o corpo, o conhecer o corpo, o respeito pelo corpo, a auto-estima, a confiança, etc..A leitura é fundamental para compreender o mundo e não trabalhar a leitura em casa, desde que eles nascem, é condená-los à mediocridade. Nesta semana, soubemos que 25% — um quarto, reforço — dos meninos do 2.º ano fica abaixo do expectável na fluência de leitura. A sua “compreensão leitora” futura está em risco, assim como a sua compreensão do mundo. Perguntamo-nos como é que os portugueses vão na conversa da extrema-direita, é fácil responder: não sabem ler, assim como não compreendem aquilo que lêem, porque este não é um problema recente — cerca de 40% dos adultos que vivem em Portugal só conseguem compreender textos simples e resolver aritmética básica, segundo um estudo da OCDE, divulgado em Dezembro passado. Apenas os chilenos têm mais dificuldades do que os portugueses a interpretar textos ou a realizar operações matemáticas necessárias no seu dia-a-dia, acrescentava o mesmo.A verdade é que no mundo actual não é preciso saber ler nem pensar porque os vídeos entram-nos pelos olhos adentro, sem critério, e, em vez de combatermos isto com mais leitura, com mais livros em papel, com o cultivar e ensinar a gostar do cheiro dos livros, da tinta impregnada nas folhas, continuamos deslumbrados com ecrãs e com as novas tecnologias, de tal modo que o Ministério da Educação em vez de criar verdadeiros incentivos para os professores, acena com um tutor de inteligência artificial (IA) para cada aluno — porque ainda não estamos todos dormentes e passivos o suficiente.”Ainda não é tão bom como um Salazar para cada criança, mas podemos continuar a sonhar, e eventualmente chegar lá também”, escreve Madalena Sá Fernandes, que continua com ironia: “Devíamos dar graças por termos dirigentes atentos ao momento em que estamos, e sempre prontos para ajudar quem mais precisa: os multimilionários donos das empresas de IA. O que é a educação dos nossos filhos e o seu futuro, ao lado da possibilidade de contribuir para que duas pessoas se tornem os próximos trilionários? Sejamos menos egoístas.”A crónica de Sá Fernandes chama-se “Humanos, demasiado humanos”; e a de Ana Lázaro intitula-se “Há monstros debaixo da cama” e é sobre o trabalho que faz com jovens cujos pais ou eles próprios não nasceram em Portugal, é sobre as dificuldades por que passam. “O J. não percebe porque é que os miúdos o chateiam no autocarro ou na rua. A L. não tem quem a chateie porque é suficientemente invisível, minúscula e silenciosa para que alguém dê por ela”, descreve. O racismo. “No subsolo dos nossos afetos mais primitivos, atiçam-se medos, aceleram-se explicações, fabricam-se inimigos, inventam-se monstros. Levantam-se fronteiras entre nós e eles… ‘É um grande dia para os portugueses que têm sangue português nas veias’ ouviu-se no Parlamento, a propósito da votação da Lei da Nacionalidade. Advoga-se que é preciso ser um verdadeiro ‘português’, mas suspeito que estejamos a começar a falar monstruês…”, escreve Lázaro. Estamos efectivamente não só a falar “monstruês” como, com o incitamento ao ódio por parte da extrema-direita, que aparentemente nem as mais altas instâncias condenam, estamos a praticar actos monstros. Veja-se o caso do menino de 9 anos que viu as pontas de dois dedos amputadas por colegas. Não é uma brincadeira de garotos, é bullying com motivos raciais. É ir mais além do “simplesmente” andar atrás a chamar nomes ou a fazer perguntas e piadas parvas, é maldade pura, certificada pelos pais, pelos vizinhos, pelo que ouvem nas televisões e nas redes sociais sobre os estrangeiros.Se há uns anos, os racistas diziam que não eram racistas — lembro-me de um texto que escrevi onde recordava como eu tinha sido vítima de racismo enquanto crescia, e de um leitor, muito paternalista, ter escrito que eu estava confusa, que não sofrera de racismo, mas que tudo era uma brincadeira, uma curiosidade por parte de quem me incomodava. Ele sabia melhor do que eu porque os portugueses não são racistas. Hoje, provavelmente, se andasse na escola, não me puxariam as tranças, mas cortá-las-iam, como aos dedos do menino brasileiro.Mas, como dizia, se há anos, os racistas diziam que não o eram, hoje dizem abertamente que são e actuam da mesma maneira porque estão protegidos. Se no Parlamento, um deputado pode dizer a outra deputada “vai para a tua terra”, sem consequências, porque não pode um qualquer português de bem dizer o mesmo na paragem do autocarro, na escola, no trabalho, no supermercado?… Se um Governo propõe uma lei de nacionalidade tão pouco humana, como se espera que os portugueses sejam empáticos, solidários e, acima de tudo, humanos?Rita Pimenta sugere a história, verdadeira e contada por Marina Colasanti sobre o escritor angolano Luandino Vieira e a sua amizade com um pardal enquanto esteve preso pela PIDE no Tarrafal. A ilustração é do brasileiro Guazelli que lembra que o seu pai foi advogado de defesa de muitos presos políticos brasileiros, por isso, conhece essa realidade, a de Luandino Vieira, que lutou pela liberdade de Angola (que celebrou esta semana 50 anos de independência), e, por isso, foi condenado a 14 anos de prisão. E declara: “Aprendi a amar a liberdade e aqueles que lutam por ela, pessoas que não precisam de monumentos porque são maiores que eles.” Em vez de tutores de IA desprovidos de humanidade, voltemo-nos para os livros, voltemo-nos para o sermos humanos. Ler é compreender que há muitos mundos, muitas vidas, muitos sonhos, mas uma só humanidade.Boa semana!PS: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.










