DESPORTO

A verdadeira história do carbonara

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Há revelações tardias que marcam toda uma vida. Bebês não nascem do repolho. Papai Noel não traz os presentes — ele sequer existe. A fada do dente é uma fraude. Influencer não é profissão. E o carbonara — sinto informar — não nasceu em Roma.Verdades assim são sempre traumáticas.Aquela mistura aparentemente eterna de ovos, bacon (ou guanciale, para os puristas) e queijo pecorino (nada de creme de leite!) está tão entranhada no imaginário culinário italiano — e, por extensão, na culinária mundial —, que causa espanto descobrir que sua origem é… norte-americana.Sim: o carbonara teria sido inventado para soldados dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, nas trincheiras da campanha da Itália. Entre um disparo de obus e outro, contra as tropas de Mussolini, os ianques improvisaram uma receita barata com os ovos e o bacon das fazendas locais.Uma iguaria antifascista, portanto?Talvez. As mitologias modernas funcionam assim: um grupo adota uma história, outro a repete e logo ela se torna uma tradição. Cultura é isso — crença organizada, memória disputada, invenção compartilhada, e guerra química, se formos pensar nas redes sociais.E assim chegamos à Oktoberfest.Não à original, de Munique, que data de dois séculos, mas à versão criada há quatro décadas, que acontece em Blumenau, Santa Catarina — essa Baviera tropical de chope, marchas, princesas loiras, toneladas de salsichas, moral de trabalho e orgulho comunitário.Lá estão os lederhosen (calças curtas de couro, usadas pelos homens), os dirndl (vestidos com corpete e avental, usados pelas mulheres), as meias até o joelho, os campeonatos de beijos e o hino da alegria germânica, Ein Prosit der Gemütlichkeit — cuja tradução literal é “um brinde ao conforto e à alegria de estarmos juntos” —, tudo regado a R$ 3,6 milhões em incentivos fiscais obtidos via Lei Rouanet.A festa se junta à constelação de projetos e artistas contemplados pela lei, que vai de Gilberto Gil a Claudia Raia, da reforma do Canecão, no Rio de Janeiro, a um álbum de figurinhas sobre a cidade de Amparo (SP): 8 mil exemplares, 90 cromos, e uma tentativa sincera de colar memória, identidade e pertencimento em papel adesivo.Cultura, porém, é sempre a nossa — a alheia é sempre desvio. A gritaria contra (e a favor) da Oktoberfest incentivada que tomou conta das redes é, assim, compreensível — mas injustificada. Desde a Grécia antiga, cultura é um tema sensível; quando não, uma questão de Estado.Os patriotas que antes demonizavam a Rouanet descobrem nela as virtudes da alemaneidade. Já os antigos defensores da lei agora a renegam, horrorizados com o suposto desvio moral dos campeonatos de chope em tulipas de metro.No fundo, todos queremos o mesmo: estar juntos, de preferência com alegria e conforto, para fundar uma tradição e esmagar a do outro. Foi assim com o carbonara — e é assim com a Oktoberfest. A diferença é que, se os americanos inventaram uma Itália para combater o fascismo, nós inventamos uma Alemanha para recriá-lo.
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