DESPORTO

Elly Nuga saiu da Indonésia para cuidar de outra floresta tropical, a Amazónia

Foi num dia de Santo António, a 13 de Junho de 2016, que o padre Elly Nuga chegou a Altamira, cidade do Pará banhada pelo rio Xingu. Integra o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e desde então acompanha a luta dos povos indígenas da Amazónia brasileira pela demarcação territorial.Encontramos Elly Nuga num dos barcos que integram a “Barqueata” que deu início à Cúpula dos Povos, um evento da sociedade civil que ocorre paralelamente à COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas que decorre em Belém do Pará, no Brasil, até 21 de Novembro. A pequena embarcação saiu do porto da Universidade Federal do Pará (UFPA) cerca das 10h da manhã, depois de uma fila atribulada em condições de calor e humidade que se traduzem numa sensação térmica de 36°C.Navegamos pela Baía do Guajará com a tranquilidade da brisa que corre sobre o rio Guamá.​ De câmara fotográfica na mão e um português marcado por um sotaque difícil de reconhecer, o missionário vai comentando com interesse as faixas dos barcos que acompanham esta “marcha fluvial” em defesa da justiça ambiental. A referência ao dia de Santo António, logo se descobre, não está na ponta da língua à toa: o missionário viveu em Portugal, onde aprendeu a falar português, antes de partir para a maior floresta tropical do mundo.Na região do Xingu, o Cimi trabalha com nove povos indígenas, assim como com as aldeias isoladas, que o padre Elly Nuga refere como “povos livres”.Para esta Cúpula dos Povos, evento paralelo à primeira COP que acontece na Amazónia, o Cimi trouxe cerca de 50 pessoas dos povos indígenas com quem trabalha. Para os povos Paracanã e Arara, em particular, é urgente a “desintrusão” das Terras Indígenas Cachoeira Seca, que tem enfrentado altos índices de desflorestação para exploração ilegal de madeira e criação de gado. A região do Xingu é uma das zonas mais ameaçadas por estas actividades, em grande parte devido à proximidade com a central hidroeléctrica de Belo Monte​.O foco do Cimi estará em dois temas principais: a situação dos povos isolados e a preocupação com as “falsas promessas” dos mercados de carbono, que se baseiam em projectos que trazem garantias de desenvolvimento local que não são cumpridas.


Barcos com activistas indígenas da América Latina que desfilaram em Belém, numa “barqueata”
Adriano Machado/REUTERS

É arriscado fazer o seu trabalho? “Muito. Quando a gente luta para tirar os invasores, a gente é marcado pelos fazendeiros e os madeireiros”, lamenta Elly Nuga. “Até os missionários são ameaçados de todo o lado”, acrescenta ainda, lembrando que a região do Xingu, onde fica Altamira, foi onde Dorothy Stang, conhecida como Irmã Dorothy, foi assassinada, em Fevereiro de 2005.Tríplice FronteiraEnquanto o padre circula pela pequena embarcação, a missionária salesiana Cláudia Matos permanece sentada no último banco do barco, à conversa. Natural aqui do Pará, reconhece a “grande importância de a COP ser realizada na Amazónia”, apontando a decisão de Lula da Silva de escolher Belém, em vez das grandes cidades do Sudoeste.A assistente social, que integra a equipa itinerante do Cimi, trabalha na Tríplice Fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru. Vive há dois anos em Cobija, na Bolívia, depois de quatro anos do lado do Peru. “Sendo fronteira e sendo Amazónia”, identifica desafios comuns na região, em particular “a ausência do Estado, que afecta muito a vida dos povos indígenas, seja na protecção dos territórios, seja na luta pela demarcação, seja na ausência na questão dos serviços públicos de saúde e educação”.


A missionária Cláudia Matos, natural do Pará, trabalha com povos indígenas na tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru
Hellen Loures / Cimi

Contudo, para “falar da Amazónia na Amazónia”, é essencial também que os povos que são directamente afectados possam participar na conversa – e serem ouvidos. “São os povos que sofrem com tudo aquilo que é causado pelos países ricos”, sublinha a missionária, recordando uma das grandes reivindicações da sociedade civil: justiça climática.Lutar pelo territórioO missionário indonésio reconhece a ligação directa entre os desafios enfrentados em duas das maiores florestas tropicais do mundo: a Amazónia brasileira, onde agora trabalha, e a sua terra natal, onde os povos indígenas da ilha de Papua também travam uma batalha pelo seu território.Na Indonésia, o maior exportador de óleo de palma do mundo, é o próprio Governo que protagoniza a apropriação de terras para produzir as árvores de onde é extraído o óleo de palma, destruindo a floresta tropical. “Os indígenas lutam contra os militares, lá o próprio Governo leva esse projecto a cabo”, descreve Elly Nuga, lamentando a conivência das grandes empresas internacionais que exportam os produtos para todo o mundo.Agora, surge um novo desafio: a nova capital da Indonésia, Nusantara, está a ser construída na ilha de Bornéu, na província de Kalimantan Oriental, para substituir Jacarta, que já é uma das cidades que mais afunda no mundo devido à pressão populacional.O desenvolvimento da cidade no meio de uma das maiores áreas de floresta tropical do país, contudo, já causou o deslocamento de populações indígenas que vivem na região, além das ameaças aos habitats de espécies ameaçadas, como orangotangos e macacos de nariz longo.O PÚBLICO viajou a convite do ministério do Ambiente e Energia

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