DESPORTO

O mundo está a falhar em todos os indicadores da acção climática

A humanidade está atrasada na corrida para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius — a meta ambiciosa do Acordo de Paris —, sendo que nenhum dos 45 indicadores avaliados no relatório State of Climate Action 2025 mostra que o mundo está alinhado com os objectivos climáticos de 2030. Há, contudo, sinais encorajadores: o financiamento climático privado aumentou e tecnologias emergentes como o hidrogénio verde têm tido progressos.“Uma década de atraso estreitou perigosamente o caminho para 1,5 graus Celsius. Já não basta avançar de forma constante — cada ano sem aceleração alarga o fosso e torna a subida mais íngreme”, afirma a co-autora Clea Schumer, investigadora do World Resources Institute (WRI). Esta organização internacional elaborou o relatório em parceria com a Bezos Earth Fund — uma fundação ligada à Amazon, cujo fundador é Jeff Bezos.Embora a maioria dos indicadores (35) revele avanços na direcção certa, o ritmo e a magnitude da mudança são “preocupantemente inadequados”. Desse total, seis estão no bom caminho, mas apresentam um progresso insuficiente, e 29 avançam devagar demais.Indústria do aço entre retrocessosCinco dos 45 indicadores estão mesmo a regredir – é o caso da indústria do aço, por exemplo, que tem produzido cada vez mais dióxido de carbono (CO2) por tonelada ao longo dos últimos cinco anos.O sector do aço é muito poluente sobretudo devido aos processos industriais: o material é largamente produzido em fornos com temperaturas que podem ir até aos 1500 graus Celsius, onde o minério de ferro é reduzido com um tipo de carvão processado chamado “carvão coque” (um combustível fóssil como o gás e o petróleo). Este método requer grandes quantidades de energia e liberta para a atmosfera demasiado CO2, o principal gás com efeito de estufa.
A descarbonização da indústria do aço é possível, mas exige uma aposta forte em soluções como o aumento da reciclagem de aço em fornos eléctricos com recurso a energia renovável. O hidrogénio verde é outra alternativa considerada para substituir o carvão na redução de minério de ferro. Mas os esforços mundiais nesse sentido têm sido incipientes, refere o relatório.“Não estamos apenas a ficar para trás — estamos a reprovar nas disciplinas mais importantes”, sublinha Sophie Boehm, também investigadora do WRI. “A eliminação do carvão, o fim da desflorestação e o corte no financiamento aos fósseis não são opcionais — são o mínimo necessário para enfrentar a crise climática e proteger a humanidade.”Os indicadores mais críticos continuam estagnados ou em retrocesso. O financiamento público aos combustíveis fósseis aumentou em média 75 mil milhões de dólares (65 mil milhões de euros) por ano desde 2014, atingindo 1,5 biliões de dólares (1,3 biliões de euros) em 2023. A desflorestação, que tinha diminuído, voltou a crescer, e o carvão mantém-se como uma fonte significativa de electricidade, sem conseguir acompanhar a procura crescente.Já os veículos eléctricos, que representaram 22% das vendas globais de automóveis ligeiros em 2024, perderam o estatuto de “em linha com os objectivos” devido à desaceleração do crescimento em mercados como os EUA e a Europa.O que precisa de ser de feito?O relatório divulgado esta quarta-feira tem como objectivo oferecer o roteiro “mais abrangente até à data” para colmatar as lacunas actuais na acção climática global. O documento traduz os compromissos do Acordo de Paris em metas concretas para 2030, 2035 e 2050, avaliando o progresso nos sectores mais intensos em carbono: energia, edifícios, indústria, transportes, florestas e uso da terra, alimentação e agricultura. Os autores do documento também analisam o desenvolvimento de tecnologias de remoção de carbono e o financiamento climático.Para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius, o mundo precisa de acelerar drasticamente a acção climática em múltiplas frentes associadas aos 45 indicadores analisadas no relatório.A receita até 2030 é exigente e começa por eliminar o carvão mais de dez vezes mais rápido, o que equivale a desactivar cerca de 360 centrais termoeléctricas por ano e cancelar todos os projectos em curso, bem como reduzir a desflorestação nove vezes mais depressa, travando a perda de 22 campos de futebol de floresta por minuto, e expandir redes de transporte público cinco vezes mais rapidamente, com a construção anual de pelo menos 1400 quilómetros de metro, comboio ligeiro e faixas de autocarro.As medidas urgentes não param aí. Será ainda necessário, referem os autores do relatório, diminuir o consumo de carne bovina e de cordeiro nos países com maior consumo dessas fontes de proteína animal cinco vezes mais depressa, limitando-o a duas ou menos porções semanais nas Américas, Austrália e Nova Zelândia.Outra frente de mudança seria uma escalada das tecnologias de remoção de carbono mais de dez vezes mais rápida, com a construção de nove das maiores instalações de captura directa de carbono por mês. Por fim, aumentar o financiamento climático em quase um bilião de dólares (860 mil milhões de euros) por ano — valor que equivale a cerca de dois terços do valor que os combustíveis fósseis receberam em apoios públicos em 2023.


Sinais encorajadoresHá também boas notícias. Entre os poucos sinais positivos, destaca-se o aumento do financiamento climático privado, que subiu de 870 mil milhões de dólares (749 mil milhões de euros) em 2022 para um recorde de 1,3 biliões de dólares (1,1 biliões de euros) em 2023, impulsionado por investimentos na China e na Europa Ocidental.A quota global de electricidade proveniente de fontes solar e eólica mais do que triplicou desde 2015, tornando a energia solar na fonte de electricidade que mais cresce na história. Em 2024, pelo segundo ano consecutivo, o investimento em energia limpa superou o investimento em combustíveis fósseis.Contudo, o relatório adverte que esse impulso ainda está longe de ser suficiente. Mesmo que se mantenham os actuais ritmos de crescimento, não será possível atingir as metas de 2030. Por exemplo, embora a quota de energia solar e eólica tenha crescido a uma taxa anual de 13% desde 2020, será necessário mais do que duplicar esse ritmo — para 29% ao ano — para cumprir os objectivos.Tecnologias emergentes, como o hidrogénio verde e a remoção tecnológica de dióxido de carbono, registaram avanços significativos. A produção de hidrogénio verde, por exemplo, quadruplicou num único ano.“Dez anos após o Acordo de Paris, os dados mostram tanto o que já conseguimos como o que ainda falta alcançar”, resume Kelly Levin, directora de ciência e sistemas no Bezos Earth Fund, uma fundação com pendor ambiental criada pelo fundador da Amazon, empresa líder do comércio electrónico.Ambientalistas e activistas têm criticado duramente o desempenho da Amazon em matéria de responsabilidade ambiental, recordando que a empresa contribui para a crise climática através das próprias operações logísticas, do uso de embalagens desnecessárias ou com grande volume, das emissões significativas de carbono provenientes do transporte e descarte de produtos não vendidos e devolvidos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.