Enoturismo já representa 60% a 80% do negócio de alguns produtores de vinho nacionais
“O enoturismo é de uma grande importância sobretudo para os pequenos produtores. Muitos já fazem mais de metade das suas receitas de venda de vinho através das visitas que os turistas fazem às quintas.” A perspectiva foi traçada por Arlindo Cunha, presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, entidade anfitriã das XIII Jornadas de Enoturismo da Região Centro, que decorreram esta terça e quarta-feira em Viseu. E vai ao encontro dos dados recolhidos pela associação que representa o sector a nível nacional.“A rentabilidade [do enoturismo] é tão importante que, hoje em dia, já representa entre 60% e 80% da facturação dos nossos associados”, destacou Maria João de Almeida, presidente da Associação Portuguesa de Enoturismo (APENO), em declarações ao PÚBLICO, à margem de umas jornadas em se sublinharam o potencial e a importância desta actividade económica, que apesar da sua relevância continua a aguardar por enquadramento legal.“O enoturismo não é considerado uma actividade económica, não tem CAE, portanto, é um sector à deriva”, recorda a presidente da associação que tem feito questão de fazer chegar ao governo vários alertas. “Já apresentámos os problemas e também lá fomos apresentar soluções. E agora aguardamos que se faça alguma coisa”, refere a também a autora e crítica de vinhos, lamentando que Portugal não esteja entre os países produtores de vinho que já têm legislação para o enoturismo, reconhecendo essa actividade económica enquanto tal.“Veja-se o caso do México, que é um novo país produtor, ainda agora arrancou, e já está a ver mais além, acautelando esta situação da legislação”, alerta a dirigente da APENO, associação que já conta com mais de 150 associados. A resolução destes problemas é fundamental, no entender de Maria João de Almeida, para colmatar dificuldades como as que foram apresentadas por Arlindo Cunha, em representação dos cerca de 50 produtores do Dão que “já estão a oferecer algum produto de enoturismo”.“É preciso dinheiro para fazer uma loja de vinhos, para criar condições para o parqueamento de carros, instalações sanitárias. Precisamos de um programa para apoiar este investimento”, defendeu, em Viseu, o presidente da CVR do Dão, logo durante a sessão de abertura dos trabalhos, manifestando a esperança de que o próximo quadro financeiro plurianual, a partir de 2028, assegure “um apoio dessa natureza”.“Não há apoios porque também não temos CAE”, insistiu Maria João Almeida, em conversa com o PÚBLICO.Cinco regiões unidasNum sector que tem “um forte potencial”, tal como foi várias vezes vincado ao longo destas XIII Jornadas de Enoturismo da Região Centro, a aposta pode também passar por uma estratégia conjunta. Como aquela que tem vindo a ser trabalhada na região Centro, nomeadamente através do Programa de Valorização Económica de Recursos Endógenos (PROVERE) para a fileira dos vinhos — também estão a ser implementados planos de acção para as Aldeias de Montanha, o Portugal Romano e os Queijos da Região Centro.“Temos já as cinco regiões [Dão, Bairrada, Beira Interior, Tejo e Lisboa] a trabalhar em conjunto, tanto ao nível do vinho, como do enoturismo”, assegurou Rodolfo Queirós, presidente da CVR da Beira Interior, que participou no primeiro painel das jornadas em representação do consórcio PROVERE. “Estamos numa boa fase de interacção entre todos”, garantiu, admitindo contudo que há ainda muito caminho para percorrer.“Nem sempre as coisas andam à velocidade que queremos, mas vamos fazendo caminho”, rematou, a propósito deste trabalho conjunto que procura fortalecer a competitividade do sector vitivinícola regional, apostando na qualidade, inovação e promoção dos vinhos da região.Mais do que juntar forças dentro do próprio sector, importa também pensar para além do enoturismo e trabalhar conjuntamente com outras actividades económicas, defenderam os oradores na primeira manhã destas ornadas. “A motivação de um turista pode ser o vinho, mas pode também gostar da natureza ou do turismo religioso”, sustentou Anabela Freitas, vice-presidente do Turismo Centro de Portugal, numa intervenção que antecedeu a apresentação do exemplo das Aldeias de Montanha, que apesar de “não terem produção de vinho”, olham para o enoturismo como “complemento” das suas propostas — que vão desde a Aldeia Natal à Aldeia dos Míscaros, passando pelo Festival do Pão —, tal como destacou Célia Gonçalves, daquela rede de aldeias.










