Kamel Daoud e a tragédia sem heróis. E Doclisboa, João Canijo, Priscila Fernandes, Geese…
Huris valeu-lhe o prémio Goncourt, o mais prestigiado galardão literário em França. Mas forçou-o também ao exílio.O romance parte da guerra civil na Argélia e, por mexer nessas feridas, foi proibido no país de Kamel Daoud. A lei argelina assim o dita: não se pode escrever sobre o conflito que dividiu o país nos anos 90, no qual terão morrido 200 mil pessoas, grande parte delas degoladas pelos islamistas que lutavam contra o regime de base militar depois de terem sido impedidos de chegar ao poder pela anulação das eleições de 1991.Kamel Daoud quebrou o silêncio e paga o preço. Não escreveu sobre a guerra certa, a que libertou a Argélia do jugo colonial francês, mas da guerra que o país quer esconder porque nela “todos matámos, todos morremos”, diz o escritor na entrevista que publicamos esta sexta-feira no Ípsilon.”Esta é uma guerra que querem apagar porque não fomos os heróis, fomos em simultâneo os assassinos e os assassinados”, elabora na conversa com Alexandra Prado Coelho.Guardei outra frase da entrevista: “A solução no mundo ao qual vocês chamam árabe não existe se não conseguirmos curar a ligação com as mulheres e com as crianças. Nenhuma sociedade avançará enquanto o estatuto da mulher não mudar. Esta é a verdadeira questão, é esta a verdadeira revolução. Com mulheres infelizes, vamos ter crianças criadas na dor e que não sabem que o objectivo da vida é ser feliz, com mulheres infelizes não podemos estar apaixonados, passear ao sol, sentirmo-nos em segurança, dar a mão a alguém, beijar em vez de matar. Julgo a saúde dos povos em função da relação que têm com as mulheres.”Na semana de abertura do Doclisboa, Jorge Mourinha propõe um de muitos roteiros possíveis por uma programação riquíssima, que se prolonga até dia 26, com o festival lisboeta de cinema documental a interrogar o mundo que nos rodeia de formas que já não se resumem ao cinema vérité. Nesta edição do Doclisboa, um dos destaques é It’s Never Over, Jeff Buckley, documentário de Amy Berg sobre a voz milagrosa que nos deu Grace.É um filme, é uma peça de teatro, é um trabalho sobre “feridas reais” de um grupo de pessoas do cinema que são cúmplices: Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, e também Miguel Guilherme, estão a preparar, com o realizador João Canijo e a directora de fotografia Leonor Teles, também parte desta trupe, Encenação, o sucessor de Mal Viver/Viver Mal.Estiveram meio ano juntos, um método que começa com improvisações até à fixação do argumento e se conclui com a rodagem. Vasco Câmara visitou o set, um cineteatro na zona oriental de Lisboa, nos últimos dias da rodagem de Encenação.”Algumas de nós têm relações muito próximas com o realizador. Isso ganha contornos às vezes de muita violência”, disse-lhe Rita Blanco. “Chegámos a um sítio de amor entre nós”, apontou Anabela Moreira. “De repente, sentimo-nos em casa e sabemos tudo uns dos outros. Já vimos o pior destas pessoas. Aí é que o amor se torna uma evidência”.A arte de Priscila Fernandes dança, toca, vibra na festa e na energia do protesto. Com dois novos trabalhos em vídeo, para ver no Porto e em Vila do Conde, a artista, que vive nos Países Baixos, regressa a Portugal para afirmar a força utópica da música e das experiências colectivas.”Falar de violência dentro da comunidade queer implica romper o silêncio sem alimentar estigmas”. É Carmen Maria Machado a voltar a territórios arriscados. Depois de O Corpo Dela e Outras Partes, uma memória de abuso numa relação amorosa, Na Casa dos Sonhos. Falámos com a escritora norte-americana.Também neste Ípsilon:— Música: conversa com Billy Woods sobre Golliwog e elogios a Getting Killed, dos Geese.— Cinema: recensões a Depois da Caçada, Era uma Vez em Gaza e Partir, Um Dia.— Teatro: a revisão de As Secretárias por Maria Inês Marques nos Jardins do Bombarda, Lisboa.— Livros: a receita de Dan Brown em O Segredo dos Segredos.Boas leituras!Os textos desta newsletter sem os respectivos links ainda só estão disponíveis na edição impressa.Cinecartaz: tudo sobre cinema; Leituras: o nosso site de livros









