Luca Argel calça (e toca) as <em>Tamanquinhas</em> de José Afonso no 38.º aniversário da AJA
Mudam-se os anos, mudam-se os temas. Em 2024, no tradicional concerto com que celebra a sua existência, a Associação José Afonso quis chamar a atenção para os dramas da Palestina e do Mediterrâneo com uma frase retirada da canção Utopia, “Sem Muros Nem Ameias”. E no Fórum Lisboa (onde estes concertos tradicionalmente se realizam) teve Selma Umausse, os Couple Coffee, o Trio da Orquestra Todos e os palestinianos Ala Azzam e Yazan Ibraim.Em 2025, porém, e porque se completam 50 anos sobre o chamado Processo Revolucionário Em Curso (PREC), que abalou Portugal em 1975, um ano após o 25 de Abril, foi esse o tema escolhido, recordando uma frase que José Afonso proferiu durante o seu concerto do Coliseu de Lisboa, em 1983: “O nunca desmentido PREC, o assumido, sempre assumido PREC”.Para isso, incluiu desta vez apenas dois nomes no cartaz: o Grupo de Cantadores do Redondo, com Janita Salomé; e o cantor e compositor brasileiro (residente em Portugal) Luca Argel, para conceber um concerto inédito. “Ele surgiu de um convite bem ousado da Associação José Afonso”, diz Luca Argel ao PÚBLICO. “Mas a proposta era simples: tocar ao vivo o álbum do Zeca Com as Minhas Tamanquinhas, que é de 1976 (vai fazer 50 anos em 2026), mas com a minha leitura. Eu achei um óptimo desafio, porque nunca tinha feito uma coisa parecida, de trabalhar não só com um artista, mas com uma obra específica de um artista.”
O álbum Com as Minhas Tamanquinhas, publicado originalmente em 1976 e publicado na sua versão definitiva (em vinil, CD e plataformas digitais) em Novembro de 2022, ainda que seja posterior ao 25 de Novembro e ao fim do PREC, é um dos melhores testemunhos, em música, do espírito desses tempos, com canções que soam como crónicas dos dias de brasa de 1975. Luca Argel deu-se conta disso, ao trabalhá-las agora: “Cada música tem uma história por trás, e essa história está contida dentro do contexto geral do PREC. Eu já conhecia alguma coisa, mas estou achando esse período quase um buraco negro da história, porque tem uma quantidade de coisas que não mais termina. É um período muito intenso, impressionante.”De José Afonso, em geral, Luca Argel já conhecia “bastantes coisas”: “Inclusive, quando lancei o Sabina, em 2023, eu tocava ao vivo (e de vez em quando ainda tocamos) uma versão dos Vampiros com banda e um arranjo bastante diferente da música. Nunca tive uma relação de tocar muitas músicas do Zeca ao vivo, agora vou ter algumas delas mais à mão no meu repertório, mas sempre achei que era um compositor fundamental para entender a história da música portuguesa e de Portugal, mesmo. E fazia isso de uma forma muito diferente daquele que talvez seja o meu compositor favorito dessa altura, o José Mário Branco. O repertório do Zeca, com canções que são quase como reportagens, é um grande documento histórico de Portugal, não só artístico. É uma delícia, olhar a obra de um artista tão interessante.”
No concerto, que decorrerá este sábado no Fórum Lisboa, às 17h, Luca Argel vai cantar apenas as canções desse disco, mas com um alinhamento diferente: “Resolvi pegar um personagem desse álbum, que é o Alípio de Freitas, da última canção do álbum, que é uma figura também fascinante que viveu muitos anos no Brasil, participou nas lutas políticas durante a ditadura militar, e vou usar essa ligação do Alípio com o Brasil como o meu elo de ligação com o Zeca.” Para isso, Luca Argel recorreu a um documento da época, da autoria de Francisco Julião, que fez as Ligas Camponesas com Alípio e que é citado também na canção Alípio de Freitas: “Peguei numa espécie de carta-manifesto das Ligas Camponesas, escrita pelo Francisco Julião, que é muito bonita, super poética, e usei uns trechos desse texto para costurar todas as músicas. E alterei a ordem, para que se encaixassem no que é dito.”Luca Argel vai estar sozinho em palco, é um concerto a solo: “Vou usar algum recurso nalgumas músicas, como aqueles pedais de loop, para fazer com a guitarra (o violão) algo mais do que uma guitarra pode fazer. E no finalzinho vou-me juntar ao Grupo de Cantadores do Redondo, que vai fazer a primeira parte, e a gente termina cantando juntos.”










