CIÊNCIA

A prescrição do amor

Já não me lembro em que momento retive esta nota, mas, quando abri o telemóvel para apagar o rasto de dias já consumidos, parei na frase que ali apontara: “Sabes o que dizem sobre sabedoria? Saber o que ignorar”. A frase estava ali retirada de um filme ou de um livro do qual não me lembro agora. Esta ideia maior de sabedoria ofuscou a sua origem. Devo ter apontado isto num momento, que é sempre despudorado, em que, duvidando da minha memória, me socorro do telemóvel para escrever.A frase estava ali, a bold, nas notas, a olhar para mim e eu não a apaguei.É difícil gerir a informação toda que temos em mãos. Muita dela devemos ignorar por nos fazer intrinsecamente mal, uma dor imensurável à qual não conseguimos dar fim, outra urge esquecer porque sabemos ser falsa e outra ainda porque nos atinge directamente: basta termos cinco minutos com algum holofote virado para nós que a calúnia ou o insulto fácil surgem dos lugares mais inesperados. Deixámos de ter mão no que quer que seja, mas podemos escolher não amplificar mais a linguagem do ódio ou dar protagonismo a quem o pratica.No meio de dias muito agitados e felizes, com as celebrações dos 20 anos do Fala com Ela, programa que faço hoje em dia na Antena 1, deparei-me com um comentário de alguém escudado num débil perfil de rede social, que gratuitamente me insultava de uma forma tão básica que me recuso a trazer para aqui agora essas palavras. O comentário espantou-me pela grosseria, ainda que fosse uma gota no pântano que frequentamos todos hoje em dia. Aquela pessoa, com nome masculino, também veio do ventre de uma mulher. Foi filho, teve colo em algum momento e, por muito que a vida possa ser rude connosco, ainda sabemos o que é o amor. Estou convencida de que as pessoas que andam a praticar uma linguagem de ódio e de mentira estão cientes de que o fazem. E isso é profundamente desolador em relação à humanidade. Com focos de tensão e discórdia, e momentos infelizes, económica e politicamente, habitámos pacificamente este país em 50 anos de Democracia. Por isso é tão triste concluir que tanta gente queira acabar com esse estado e viva nelas uma insaciedade sem nome ou sem causa. Como é que deixámos que a raiva tomasse conta de nós?Volto à nota que ainda está ali no telemóvel: “Sabes o que dizem sobre sabedoria? Saber o que ignorar”. Escolher bem o que não queremos ver a crescer dentro de nós: o rancor, o ódio, a inveja, a mesquinhez. É difícil, mas pode ser mais fácil do que ir ao ginásio todos os dias. As pessoas estão a esquecer-se de exercitar o amor e os actos quotidianos do bem. Nós ainda sabemos o que é o bem, certo? Aquilo que a igreja anda há séculos a dizer que devíamos por em prática todos os dias e não só quando os seus crentes vão à missa, ao fim-de-semana.Enquanto filósofos e cientistas, por razões diferentes, vaticinam que a espécie humana não sobreviverá a este século, eu, que ainda tento banhar-me no optimismo, cada vez mais raso, acho que os médicos, da mesma forma que nos aconselham a fazer exercício frequente, podiam perfeitamente prescrever-nos o amor diário. O amor é benéfico em pequenas e grandes doses. Não tem efeitos secundários nem contra-indicações. Há pessoas que merecem ser curadas do ódio que veiculam quase diariamente. Estão obcecadas em disparar insultos e calúnias, como se isso lhes devolvesse algum conforto interno. Será que devolve? Será que o ódio empodera?Bato-me por essa necessária prescrição do amor. Sei, a idade também ajuda a perceber isso, que a sabedoria passa por aquilo que devemos ignorar, mas neste momento ninguém pode fechar os olhos ao que cresce perante nós: um longo e intransponível muro que não permite ver a esperança.Que a fé no outro não nos abandone.O coração ainda bate.

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