Mais de metade das mensagens racistas na Liga espanhola são dirigidas a Lamine Yamal
Lamine Yamal, jogador do Barcelona, e Vinicius Júnior, do Real Madrid, são, no âmbito da La Liga, os dois principais alvos de mensagens racistas nas redes sociais. “Mouro” e “macaco” estão entre os insultos mais vezes proferidos, e o ódio propaga-se mais em dias de clássico, sobretudo contra os norte-africanos e muçulmanos.De acordo com dados de um relatório relativo ao discurso de ódio no desporto, em particular no futebol, redigido pelo Observatorio Español del Racismo y la Xenofobia (Oberaxe), o El País noticia que o jogador de 18 anos do clube catalão é alvo de 60% dos ataques racistas entre as 33.438 mensagens analisadas, por várias redes sociais, durante a época passada. O brasileiro Vinicius Júnior recebe 29% destas e os ataques centram-se, principalmente, na sua cor de pele. Entre os mais visados seguem-se Kylian Mbappé, com 3%, e Alejandro Balde, Brahim Díaz e Iñaki Williams, todos a acumular 2% das mensagens.O mesmo relatório assinala que o Real Madrid (34%) e o FC Barcelona (32%) concentram, em conjunto, mais de metade deste conteúdo. Seguem-se o Real Valladolid (17%), o Valência (8%), e o Athletic Bilbau (6%). Estes dados revelam que a notoriedade do clube, assim como uma acérrima rivalidade desportiva, são terreno fértil para o discurso de ódio.Esta ideia sedimenta-se com o facto de a situação se agravar em dias de clássico. Entre 27 e 28 de Outubro de 2024, os dois dias seguintes ao Real Madrid vs. Barcelona, jogo que a equipa catalã venceu, registaram-se 6500 mensagens de ódio.Registam-se outros picos de propagação de ódio, mas não relacionados directamente com a modalidade. No início do Ramadão, quando alguns atletas assinalaram a data nas redes sociais, rapidamente surgiram internautas a acusarem os jogadores de ser “antipatriotas” ou a pedirem que “todos os mouros se vão embora”.
Cerca de 42% do conteúdo é dirigido a pessoas de origem norte-africana, um número muito próximo do relativo aos muçulmanos, 41%. “Puto negro”, “merda”, “mouro”, “macaco”, estão entre as expressões mais usadas nestas mensagens. Para além disso, 97% das mensagens usam linguagem agressiva, é comum reproduzirem-se estereótipos e incitar à violência.Em 22% dos casos, as mensagens chegam mesmo a assumir que os jogadores constituem uma ameaça para os cidadãos espanhóis e, por isso, devem ser excluídos ou deportados, mesmo no caso de Lamine Yamal, que, apesar de ter um pai marroquino e uma mãe guineense, é, objectivamente, espanhol.Há plataformas onde o cenário é pior. No total das publicações analisadas, apenas 33% foram removidas. O Facebook lidera o combate a este tipo de discurso, tendo removido 62% dos conteúdos denunciados. O X, por sua vez, tem resultados substancialmente mais fracos, tendo removido apenas 10% das publicações.Javier Gomá, autor espanhol citado no relatório e pelo diário, sublinha o facto de estas manifestações de ódio não serem, quase nunca, baseadas na realidade, mas sim em preconceitos que se espalham nas redes sociais e com uma agenda política. “Quando a luta política e os partidos fazem da imigração um dos seus principais temas, este tipo de discurso acaba por se infiltrar noutros cenários, como é o caso do futebol”, explica.Numa intervenção no World Football Summit, realizado em Madrid, Elma Saiz, ministra da Inclusão, Segurança Social e Migração, reconheceu a necessidade de reflectir sobre o tema e o facto de o âmbito desportivo ter sido muitas vezes descurado no que diz respeito ao discurso de ódio racista e xenófobo. “Talvez, em alguns momentos, tenhamos sido indulgentes com algumas mensagens”, assumiu. A La Liga e o ministério estarão, segundo avança o El País, a trabalhar em conjunto sobre este tema.










