CIÊNCIA

COP “meio cheio”: entre o possível e o necessário, o planeta continua à espera

Há momentos na história coletiva em que a humanidade parece caminhar como quem percorre um corredor comprido e mal iluminado, onde as portas se abrem apenas pela metade e a luz que escapa pelas frestas promete uma claridade futura que nunca chega verdadeiramente a inundar a sala. A COP30 em Belém foi precisamente um desses momentos, um instante suspenso entre aquilo que podia ter sido e aquilo que ousámos permitir, meio triunfo e meio frustração, uma espécie de copo pousado numa mesa oscilante onde ninguém se atreve a dizer se está meio cheio ou meio vazio porque todos pressentem que a questão essencial não está no volume da água, mas na secura da terra que a rodeia.É verdade que houve passos em frente, e seria injusto fingir que não houve, porque foram apresentados novos planos, reforçadas metas de adaptação, prometidos fundos para proteger florestas tropicais, anunciadas intenções de financiar comunidades vulneráveis, tudo isto envolto num discurso de pragmatismo e cooperação que, se fosse suficiente para mudar o mundo, já o teria mudado na década passada, e, no entanto, continuamos a celebrar instrumentos como quem festeja a compra de uma caixa de ferramentas quando a casa continua a arder na parte de trás, mas preferimos olhar para a frente do edifício para não sermos obrigados a admitir que o cheiro a fumo é apenas o prenúncio daquilo que já se perdeu.E depois há o tema dos combustíveis fósseis, essa palavra dita e não dita, esse incómodo que atravessa salas diplomáticas como um convidado indesejado que todos fingem não ver, porque reconhecer a sua presença implicaria mudar de lugar, de vida e de economia, e, assim, a COP conseguiu o prodígio de falar longamente sobre clima, natureza, justiça, género, oceano e florestas sem nunca enfrentar o facto evidente de que o petróleo e o gás continuam a fluir como se a física fosse uma opinião, porque vivemos num mundo onde a política dança em redor da verdade como quem contorna um abismo, temendo que o simples ato de olhar o precipício o torne mais profundo.Ocorre-me frequentemente a lógica de Yuval Noah Harari, no seu mais recente Nexus, onde se alega que o que falta ao mundo não é tecnologia nem dinheiro, mas uma narrativa que organize a nossa vontade, uma história simples e verdadeira que nos permita compreender que a sobrevivência coletiva é uma decisão moral antes de ser um problema económico, e, enquanto essa narrativa não for escrita com clareza e coragem, continuaremos presos numa espécie de ficção colaborativa onde todos fingimos que avançamos enquanto empurramos o futuro com sopros de desejo, esperando que alguém, não se sabe bem quem, assuma o fardo de dizer o que realmente precisa de ser dito: que a era fóssil deve terminar antes que ela torne o nosso sofrimento interminável.Mas também me ocorre a visão de Naomi Klein, plasmada na perfeição no documentário This Changes Everything, já com dez anos, mas absolutamente atual, que nos coloca à frente uma lente que nos mostra que a COP, tal como o sistema económico que a sustenta, tornou-se perita em gerar a aparência da ação sem a substância da mudança, construindo arranjos institucionais que parecem responder à urgência, mas que, na realidade, apenas deslocam o problema alguns anos para a frente, criando um conforto temporário e vago que desfaz a inquietação sem resolver a crise, como se decorássemos com flores as paredes de uma casa que continua a afundar lentamente no pântano onde foi construída.E assim chegamos ao lado meio cheio, aquele em que se anunciam financiamentos para adaptação, mecanismos para medir vulnerabilidades, compromissos para apoiar comunidades que já não discutem o futuro porque estão demasiado ocupadas a tentar sobreviver ao presente, e tudo isto, que não deixa de ser necessário e justo, serve também de cortina para ocultar o lado meio vazio, aquele onde nada de verdadeiramente estrutural foi decidido, onde a eliminação progressiva dos fósseis voltou a ser adiada sine diem para relatórios futuros, onde os interesses que prosperam com o passado continuam a ditar os limites do que pode ser imaginado para o futuro.No fim, talvez a melhor metáfora seja esta: Belém ofereceu-nos um mapa, mas não a viagem; ofereceu direções, mas não o movimento; ofereceu possibilidades, mas não compromissos irreversíveis. E enquanto a COP31 não romper com esta coreografia circular, continuaremos a caminhar como quem se perde numa floresta que sussurra avisos que recusamos escutar; porque ouvir implica escolher, e escolher implica renunciar, e renunciar implica aceitar que falta tempo para adiar o inadiável.O mundo continua à espera, paciente, mas exausto, como quem sabe que a esperança é um recurso renovável, mas não infinito, e que nenhuma conferência, por mais solene que seja, encontrará redenção enquanto não tiver a coragem de escrever, de uma vez por todas, a frase que falta à história: aqui termina a era dos fósseis e começa o mundo possível.O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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