Envelhecimento capilar: posso retardar a chegada dos cabelos brancos? E revertê-los?
Tal como acontece com a pele, o cabelo envelhece devido a uma série de factores internos e externos, mas há formas de prevenir e retardar esse envelhecimento. O segredo está no cuidado diário e no estilo de vida saudável, dizem os especialistas.O envelhecimento capilar “é um processo natural, semelhante ao da pele, no qual o cabelo perde vitalidade e funcionalidade ao longo do tempo”, refere Sara Patrício, mestre em Ciências Farmacêuticas e responsável pela coordenação de formação e componente científica dos produtos Cantabria Labs.Esse processo é resultado tanto de “factores internos como a genética, hormonas e doenças”, bem como externos e nestes cabem “o stress psicológico, a radiação solar, a poluição, o uso excessivo ou agressivo de produtos e técnicas capilares”, enumera a especialista.Mas o que acontece realmente com o cabelo com o passar dos anos? “A velocidade de crescimento diminui, o que o torna mais fraco e menos denso, pois a cutícula [a camada superficial do cabelo que é responsável por proteger a fibra capilar] não se sintetiza como anteriormente”, esclarece Helena Rodero, farmacêutica especialista em pele e cabelo. A perda de volume, a secura e os cabelos brancos são os sinais mais comuns do processo de envelhecimento capilar, acrescenta.
“A capacidade de crescimento e regeneração capilar diminui, fazendo com que o cabelo que cai não seja substituído ao mesmo ritmo”, continua Sara Patrício. Simultaneamente, o cabelo torna-se mais áspero, baço, sem brilho e seco, “devido à menor produção de sebo pelas glândulas sebáceas. O sebo é crucial para revestir o cabelo e confere-lhe suavidade, brilho e protecção, e a sua ausência torna o cabelo mais susceptível a danos diários, originados pelo uso de secador, pranchas e até escovagem agressiva”, acrescenta.Reverter os brancosJá se sabe que um dos sinais de envelhecimento capilar são os cabelos brancos. Aparecem devido à diminuição do número de melanócitos [células produtoras de melanina] e da sua capacidade de produção de pigmento, diz Sara Patrício. Contudo, o stress também é um factor desencadeador dos cabelos brancos e Helena Rodero defende que é possível revertê-los quando essa é a causa: “Em pessoas com picos de stress, os cabelos brancos podem surgir antes do que está programado geneticamente, nesses casos, se conseguirem controlar o stress é possível que o cabelo volte à sua cor natural”.Esta ideia é confirmada por vários estudos, caso do realizado na Universidade de Colúmbia, nos EUA, e publicado na revista eLife. De acordo com os investigadores, o cabelo é um arquivo biológico do stress e as mitocôndrias, responsáveis por gerar energia nas células, alteram-se quando o corpo é submetido a uma pressão psicológica. Esse desequilíbrio energético provoca uma diminuição da produção de melanina que após esse período stressante pode voltar ao normal. Mas a reversão dos cabelos brancos só é possível em pessoas jovens e cujos folículos ainda estão activos.A idade, diz Sara Patrício, “é o factor mais significativo para o envelhecimento, pois leva à redução da microcirculação, do aporte de oxigénio e nutrientes ao cabelo, o que afecta a sua capacidade de divisão”. O início do envelhecimento, afirma Helena Rodero, começa geralmente por volta dos 35-40 anos, mas nas mulheres a menopausa é determinante neste processo. “É um factor acelerador do envelhecimento, da mulher, em geral, e do cabelo, em particular”, salienta.
Sara Patrício acrescenta que “o declínio da produção de estrogénios, que são importantes para a divisão celular capilar, leva a um crescimento mais lento, tornando o cabelo mais fraco, fino e menos abundante”. Helena Rodero avisa: “Enquanto os níveis de estrogénios baixam, os de testosterona aumentam. Este desequilíbrio pode ainda levar a problemas de alopecia androgenética feminina.”Outra fase da vida das mulheres em que o cabelo muda é a gravidez, lembra Sara Patrício. “Durante a gestação, os níveis elevados de estrogénio contribuem para um cabelo saudável e com menos queda. Já o declínio hormonal pós-parto está associado a uma queda abundante de cabelo.”Cuidados diários“Ao contrário da pele, o cabelo é um tecido biológico que não se regenera, portanto, os danos acumulam-se, sendo necessário que o cabelo cresça novamente para recuperar”, explica Helena Rodero. No entanto, é possível diminuir o ritmo do seu envelhecimento, e para isso conta o estilo de vida e os cuidados capilares (ver caixa). Se, no primeiro, entram factores como a alimentação, o sono e o stress, no segundo, estão incluídos os produtos usados, as lavagens, as colorações, os alisamentos, entre outros.
Para a farmacêutica especialista em pele e cabelo, o cabelo virgem (aquele que não é tratado quimicamente) é sempre o mais saudável e bonito, e aconselha a potenciar a forma natural do cabelo (ondulado ou liso) em vez de tentar mudá-la constantemente. “Evita muitos danos”, reforça.O cuidado diário é, então, essencial. Começando pela lavagem, os erros mais comuns, confirma Helena Rodero, “é lavar poucas vezes o cabelo – deve-se lavar dia sim ou não ou mesmo todos os dias – e a fricção usada na lavagem. Lavar deve ser sinónimo de massajar”. A mesma especialista defende que o champô e o condicionador são os dois produtos essenciais: “O primeiro limpa o couro cabeludo; enquanto o segundo trata a fibra capilar.”Abusar das fontes de cabelo é outro problema. “A prancha é particularmente prejudicial, especialmente se usada em cabelo não totalmente seco (causa o bubble hair, ou seja, bolhas dentro da haste do fio, o que quebra o cabelo por dentro) ou sem protector térmico”, avisa Helena Rodero. Já o secador pode ser usado a temperatura média e a uma certa distância. “Pintar descolar e mudanças frequentes da cor ou forma do cabelo danificam-no severamente e aceleram o seu envelhecimento”, alerta.
As fontes de calor contribuem para o envelhecimento capilar
Hugo Delgado
Sara Patrício recomenda usar “um champô suave com pH fisiológico, que limpe sem agredir o couro cabeludo e tenha uma acção fortificante. A máscara ou condicionador são importantes para repor óleos, dar brilho, suavidade e protecção”. Helena Rodero aconselha alternar entre um champô mais intenso e um mais suave. Importante também, prossegue, “é desembaraçar o cabelo com suavidade, começando pelas pontas e avançando, depois, para a raiz”.Para estimular o crescimento, Sara Patrício, aconselha loções tópicas que melhoram a microcirculação na raiz do folículo e para ultrapassar questões de deficiências nutricionais, poderá ser necessário fazer suplementação. “Essencial ainda é optar por produtos desenvolvidos com rigor científico e dermatológico”, refere.Substâncias como o retinol, que “apoia o crescimento do cabelo e a síntese de colagénio no folículo e os alfa-hidroxiácidos (AHA), como o ácido cítrico e o ácido glicólico, que penetram na fibra capilar e dão densidade, força e previnem o frisado”, são substâncias que Helena Rodero recomenda para prevenir o envelhecimento capilar.Em caso de queda prolongada, inflamação ou descamação do couro cabeludo, Sara Patrício recomenda a ida ao dermatologista para identificar causas subjacentes e instituir tratamentos específicos. “A saúde do cabelo é um reflexo da saúde global do organismo”, remata.









