SAÚDE E BEM ESTAR

O tratamento que salvou voz de Lula ainda não chega a todos os brasileiros

Entre a cura e o colapso. Talvez não exista frase mais precisa para resumir a situação da radioterapia no Brasil. Uma crise silenciosa, instalada no cotidiano dos serviços e dos profissionais da área. A notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ser submetido à radioterapia nos faz lembrar de 2011, quando ele foi diagnosticado com câncer de laringe. Não era apenas um tumor, mas uma ameaça à voz de um homem cuja trajetória política sempre esteve ligada à palavra e ao contato direto com o público.
Naquele período, técnicas mais modernas de radioterapia, como a modulação de intensidade do feixe (IMRT), ainda não estavam incorporadas aos tratamentos autorizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), realidade que, em muitos cenários, persiste até hoje. Na saúde suplementar, a IMRT para tumores de cabeça e pescoço foi incorporada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) apenas em 2015.

Ainda assim, o presidente teve acesso, já naquela época, a uma tecnologia capaz de aumentar a precisão do tratamento e reduzir efeitos colaterais, contribuindo para preservar a fala, a deglutição e a respiração. A radioterapia, associada à quimioterapia, não apenas controlou a doença, mas preservou capacidades ligadas à identidade, à autonomia e à dignidade humanas.
Quinze anos depois, sem sinais de recidiva e com qualidade de vida preservada, Lula inicia novo ciclo de radioterapia após a retirada de um carcinoma basocelular. Mais uma vez, ela surge em um cenário diferente, mas igualmente decisivo. Porque essa é a essência da radioterapia: fundamental, embora historicamente secundarizada. Uma especialidade que sustenta diariamente histórias de cura, alívio da dor e preservação da dignidade, mas segue distante do centro das prioridades da saúde pública brasileira.

Embora esteja indicada em cerca de 60% dos casos oncológicos e participe de aproximadamente 40% das curas, a radioterapia representava, até 2023, apenas 5% dos gastos globais destinados ao tratamento do câncer. Ainda assim, permanece cronicamente subfinanciada, à mercê da inflação, da variação cambial e praticamente invisível dentro das políticas públicas de saúde.

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A tecnologia evolui rapidamente e as indicações se expandem em cenários curativos, adjuvantes e paliativos. Mas os serviços convivem com uma tabela SUS defasada, baseada em “pacotes” incapazes de acompanhar uma especialidade altamente dependente de tecnologia, manutenção e atualização constantes.
Recentemente, o governo federal anunciou reajuste de até 30% para parte dos procedimentos da radioterapia no SUS. O reconhecimento é importante, mas insuficiente diante de anos de defasagem acumulada.
Estudos da Sociedade Brasileira de Radioterapia, por meio do projeto RT2030, mostram que os valores pagos pelo SUS permanecem muito abaixo dos custos reais da assistência. Na prática, estima-se que o sistema público reembolse pouco mais de 40% do custo médio da radioterapia.

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O restante da conta passou a depender de improviso como emendas parlamentares, doações e rearranjos orçamentários locais. Serviços com altos custos de implantação e operação sobrevivem funcionando no limite. Ao mesmo tempo, o país passou a tratar muito mais pacientes.
Entre 2010 e 2025, o número de brasileiros submetidos à radioterapia cresceu 68%, enquanto o financiamento permaneceu muito aquém do necessário. O resultado é uma combinação de pacientes mais complexos, tratamentos mais sofisticados, custos progressivamente maiores e uma estrutura financeiramente exaurida.
Esse contexto ameaça a sustentabilidade dos serviços radioterápicos e compromete o acesso da população a um tratamento essencial. Estima-se que milhares de brasileiros ainda deixem de receber radioterapia no tempo adequado e, em algumas regiões, precisem percorrer centenas de quilômetros em busca de atendimento. Existe uma ironia dolorosa nisso tudo.

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O país reconhece o valor da radioterapia quando ela ajuda a preservar a voz de um presidente, mas esquece que, todos os dias, ela preserva também a voz anônima da professora, do agricultor, da mãe de família, do aposentado e do jovem trabalhador.
Defender a radioterapia não é defender uma máquina, mas sim a possibilidade de tratar o câncer sem retirar das pessoas aquilo que as torna humanas. A radioterapia aumenta a chance de cura, contribui para o alívio da dor e possibilita mais tempo com dignidade em diferentes estágios da doença.
Enquanto insistirmos em financiar o essencial como se fosse dispensável, essa conta nunca fechará. E os mais afetados não serão os ilustres, mas a população em geral que é atendida pelo SUS.
*Denise Ferreira Silva Alves, médica radio-oncologista, diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) e titular do Hospital Moinhos de Vento e da Oncoclínicas/RS

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