CIÊNCIA

O Coração Ainda Bate. O precipício

Era um rapaz muito simpático, de olhar doce. Sempre que íamos à farmácia lá estava ele, solícito, a oferecer ajuda. Não tardou a chamar-me pelo nome e eu pelo dele.Durante a pandemia estreitaram-se laços. Criou-se uma inusitada familiaridade nas farmácias, sítios onde vamos com perguntas ou pedidos e, durante aquele tempo, havia espaço para o cuidado redobrado. Lembro-me da vez em que, estando com a minha filha, ele nos ofereceu uma insignificância de álcool gel para usarmos na carteira. Andei com aquilo, a uso, meses. Foi o gesto. As pessoas revelam-se em atitudes que parecem não ter importância e, na verdade, dizem tanto delas, de nós. Tento manter-me na sintonia dos pequenos gestos. São eles que dão ordem ao mundo. Mas nem todos reparam.Vou chamar Paulo ao rapaz, embora este não seja o nome dele. Paulo lá continuava na farmácia. Nos últimos tempos via-o mais vezes cá fora, agarrado ao telemóvel e menos simpático. Havia uma tensão qualquer, indecifrável.Talvez eu tenha deixado de ir com frequência à farmácia do costume. Ou ia na mesma, mas noutros horários. A verdade é que deixei de ver o Paulo. Não estranhei logo. Aceitei sem perguntar que ele pudesse estar fora, de férias, retirado. Mas o tempo passou. Talvez por já não reconhecer ninguém na farmácia, faltou-me coragem para perguntar por ele. Arquivei o caso, mas sem conclusões. Paulo tinha ido para outro lugar, apesar de ser o rapaz mais simpático do quarteirão. Que pena, pensei várias vezes.Não sei quanto tempo passou, até um dia, numa conversa trivial, alguém do bairro me ter contado que o rapaz da farmácia tinha feito um desfalque de muitos milhares. Eu, incrédula que pudesse ser o rapaz de olhar doce, tentava que me dissessem o nome, se era mesmo ele. “Estava agarrado ao jogo online e perdeu-se.” Foi mais ou menos isto que me disseram. Rapidamente, encaixando as últimas imagens que retive dele, foi fácil perceber por que razão, nos últimos tempos, estava o Paulo sempre tenso, de sorriso apagado e agarrado ao telemóvel.Lembro-me muitas vezes dele: o que lhe terá acontecido, se conseguiu voltar a organizar-se, se não perdeu por completo o sorriso, se alguém lhe vai dar uma hipótese. Se ele vai dar uma hipótese a ele próprio.Não estamos bem cientes do que se está a passar com esta adição, com as dependências que nos mantêm aparentemente funcionais, no trabalho ou em casa, e que estão a dar cabo de milhões de vidas: umas directamente, outras por osmose.É incontável o número de famílias afectadas pelo flagelo do jogo online. Alguns defenderão que a sociedade não se pode responsabilizar pelos actos de cada um. Eu acho que somos todos passíveis de sucumbir. A vida já é um jogo difícil. Não nos atirem com mais armadilhas.Assusta-me o caso de muitos Paulos que vou conhecendo. Casas de gente estruturada, onde, a determinada altura, algo se precipita. É como se um móvel, aparentemente estável, perdesse uma perna e tombasse. Ninguém imaginava, porque estava ali há tanto tempo, tão seguro.Este flagelo, ainda dissimulado pela vergonha, e porque acontece em muitas famílias, mesmo as que pareciam à prova de bala, merece a nossa atenção. Merece respostas e alertas.Eu não venho do tempo em que tudo se decidia em frente a um ecrã, mas tenho de me sintonizar com este mundo e tentar, na medida das minhas possibilidades, ouvir e ajudar. Precisamos de estar mais atentos ao que os nossos filhos fazem quando estão embalsamados em frente a um vulgar telemóvel que pode ser na verdade um precipício.O Paulo é filho de alguém, estudou, trabalhou, estendeu a sua gentileza a muitos como eu, até ter caído do precipício. Não sei como podemos ajudar, mas sei que não estamos suficientemente atentos.Se calhar, mesmo sem um telemóvel diante de nós, seguimos todos embalsamados.O coração ainda bate.

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