Como uma sociedade em um restaurante acabou em morte de pai e filho brasileiros
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Quando decidiu cruzar o Atlântico para viver em Portugal, em 2020, o luso-brasileiro Pedro Ganança, 60 anos, estava cheio de planos. Um deles, o de abrir um restaurante em que pudesse oferecer a culinária portuguesa que remetesse à infância dele. Foram necessários mais de três anos para que esse projeto saísse do campo das promessas. Pedro e o filho Theo, 23, que nasceu no Rio de Janeiro, encontraram um sócio português, José Augusto, 61, e, juntos, investiram no restaurante Apeadeiro, em Sarilhos, na Margem Sul, região metropolitana de Lisboa. No último domingo, 16 de novembro, a parceria acabou em tragédia. Segundo comunicado da Polícia Judiciária, José Augusto matou a tiros pai e filho.O restaurante abriu as portas em 1.º de fevereiro deste ano. À época, Pedro disse a amigos consultados pelo PÚBLICO Brasil que o estabelecimento lembraria os encontros de família de quando era criança. Ele falava com muito carinho daquele período. Os sócios escolheram um lugar bem típico para que tudo saísse a contento. O restaurante passou a funcionar em uma pequena estação de trem, que estava abandonada desde 1998. O nome do estabelecimento, inclusive, foi inspirado na forma como os portugueses chamam as estações de pequenas dimensões: Apeadeiro. A linha de trem desativada foi transformada em uma ciclovia.As obras, para que tudo saísse como o planejado por Pedro, se arrastaram por três anos e consumiram centenas de milhares de euros. Tudo para receber 100 pessoas no prédio principal e mais 200 em um anexo, além de playground nos fundos. A decoração era ligada à atividade ferroviária. Na frente do balcão do bar havia um pedaço de um vagão de trem. O cardápio tinha pratos tipicamente portugueses, como bitoque, bacalhau a lagareiro e choco frito.ConflitosO crime ocorreu perto das 20h de domingo. Funcionários do restaurante relatam ao PÚBLICO Brasil, na condição de anonimato por orientação de advogados, que José Augusto chegou com uma arma e atirou, primeiro, em Pedro Ganança e, depois, atingiu Theo, que tentou proteger o pai. “Foi uma correria geral. Ninguém acreditou no que estava acontecendo”, afirma um dos funcionários.Eles contam que os sócios estavam em conflito havia meses. E o tema central era dinheiro. “As brigas entre José Augusto e Pedro começaram poucos meses depois da abertura do restaurante. As discussões sempre envolviam dinheiro”, afirma uma funcionária. “Com o tempo, as brigas se tornaram mais intensas, começaram a sair do controle”, acrescenta ela.Os problemas aumentaram por conta da bebida. “Muitas vezes, José Augusto já chegava ao restaurante bêbado e começava a destratar os empregados. Fazia comentários racistas com os brasileiros e os angolanos”, relata outra empregada do Apeadeiro. “Nesses dias, ele ficava de pé ao lado da caixa registradora para tentar controlar quanto dinheiro entrava”, complementa.MortesNo domingo, quando chegou armado ao restaurante, José Augusto, que tem um negócio de automóveis usados, demonstrava, segundo empregados do Apeadeiro, estar totalmente fora de si. “Quando entrou no estabelecimento, ele disse para uma funcionária: ‘De você eu gosto. Pode ir embora’. Todo mundo ficou nervoso”, comenta um ajudante de cozinha.Quando foi disparado o primeiro tiro, o cozinheiro, de origem angolana, saiu correndo do local, com receio de ser o próximo a ser atingidos. Theo, filho de Pedro, se colocou no caminho de José Augusto e foi atingido. “Theo era uma boa pessoa, sempre tentou manter a paz. Nunca tinha nada contra ninguém. Sempre buscava ver o melhor de todo mundo. Isso é muito injusto”, diz outra funcionária.Ela lembra que, quando as ambulâncias chegaram, Pedro e Theo estavam em parada cardiorrespiratória. “Foram várias as tentativas de reanimação, pai e filho foram levados para o Hospital do Barreiro, uma viagem de 19 quilômetros. Eles não resistiram. Estamos todos muito, mas muito tristes”, emenda.Prisão preventivaSegundo a Polícia Judiciária, José Augusto foi detido na terça-feira, 18 de novembro, dois dias depois do crime. “O Departamento de Investigação Criminal de Setúbal, com a colaboração do Departamento de Investigação da Guarda, identificou e deteve um homem fortemente indicado pela prática de duplo homicídio”, destaca, em nota.José Augusto, acrescenta a Polícia Judiciária, tem vários antecedentes criminais, como crimes de sequestro e furto de veículo. Ao ser detido, ele foi levado para um primeiro interrogatório. A Justiça decretou a prisão preventiva dele. A Polícia Judiciária informa que a arma do crime ainda não foi encontrada.
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