Achismo <em>versus</em> ciência nos recursos humanos das empresas
Em Portugal, temos uma história rica de empreendedores que arriscaram tudo. Pessoas que, por vezes com muito pouco, construíram negócios a partir do nada.Este espírito é altamente meritório, é a nossa força motriz e deve ser enaltecido todos os dias, deve fazer parte da nossa cultura mas, por trás desta resiliência, esconde-se o nosso calcanhar de Aquiles: a gestão dos recursos humanos por mera intuição.E isto não é uma questão de má vontade, mas sim de cultura e mentalidade. Quantas das nossas PME e até empresas maiores vêem o departamento de RH apenas como um centro administrativo? Na vasta maioria dos casos, o “responsável pelos recursos humanos” é, na verdade, uma pessoa encarregada de pagar salários e calcular subsídios de alimentação e férias. Uma função relevante, claro, mas que fica a anos-luz de ser uma gestão estratégica de pessoas.É aqui que entra o “achismo”. Enquanto a produção, a gestão financeira, a logística e outras partes dos negócios exigem dados, métricas e ciência, a gestão do nosso activo mais valioso, o capital humano, é deixada ao sabor da intuição, do hábito e das crenças antiquadas.Ora, a gestão de RH é uma ciência social aplicada. Existem dados, técnicas e modelos comprovados que demonstram como optimizar o desempenho, reduzir o turnover e, acima de tudo, garantir o compromisso com os valores da empresa. A grande questão é que quando este campo é descurado ou tratado com base em “achismos”, criamos um ciclo vicioso: a falta de métricas leva-nos a decisões baseadas na opinião altamente subjectiva de quem decide e, como sabemos, cada vez mais as redes sociais geram bolhas de opinião que não se baseiam na realidade objectiva dos factos. Isso gera decisões estratégicas que criam desmotivação e falta de paixão nos trabalhadores.E isto é fatal e a responsabilidade é inteiramente das empresas e dos seus líderes, não há que esconder isto.
Não podemos esperar que os trabalhadores entreguem o seu máximo se a organização não investir activamente na sua motivação e bem-estar. As empresas têm a obrigação de lutar para manter os seus colaboradores comprometidos e devem fazer uma escolha clara e, por vezes, contra-intuitiva: colocar a saúde física e mental dos trabalhadores antes dos interesses imediatos da empresa.E, neste momento, é importante esclarecer que não é por altruísmo nem bondade que as empresas devem fazer isto; é que os trabalhadores quando sentem que são a prioridade número um da empresa dão tudo de si pela empresa e essa é a chave para o sucesso a longo prazo. Um trabalhador esgotado, desmotivado ou apenas a cumprir horário é um prejuízo ambulante. Gera falta de compromisso, erros e, fatalmente, um declínio na qualidade e produtividade que é desastroso para o negócio. Uma empresa não valorizar os seus trabalhadores é a receita para o caminho da insolvência.O grande erro das empresas portuguesas é olhar para a ciência da gestão de pessoas como um gasto, em vez de um investimento. Cada euro investido em analytics de RH, em flexibilidade e em bem-estar retorna multiplicado várias vezes em resultados mensuráveis. Ao não investirmos nesta área, estamos, infelizmente, a cavar a nossa própria sepultura em termos de competitividade e capacidade de retenção de talento.Basta olhar para os dados da Holanda e dos modelos de semanas com horas reduzidas de trabalho. Os resultados comprovam: menos tempo, com mais foco, é igual a maior produtividade e qualidade de vida.Esta mudança de mentalidades exige que os gestores parem de medir o tempo que a pessoa demora a fazer o trabalho e passem a medir apenas o resultado. É este o futuro que temos de abraçar se quisermos sair do ciclo do “achismo” e entrar, de facto, na era da produtividade inteligente e da ciência.










