DESPORTO

No Ruanda, vítimas e perpetradores do genocídio aprenderam a amar-se

“Nunca antes na história da Humanidade tantas pessoas tinham sido mortas num período tão curto como aconteceu durante o genocídio no Ruanda. Dezenas de milhares por dia, 417 por hora, sete por minuto: durante 100 dias.” Estima-se que, então, tenham perdido a vida entre 800 mil e um milhão de pessoas, “uma em cada sete pessoas do país”. É com estas palavras do jornalista e escritor neerlandês Dick Wittenberg que arranca Blood Bonds: Reconciliation in Post-Genocide Rwanda, o livro editado pela Lecturis que co-assina com o fotógrafo neerlandês Jan Banning, premiado pelo World Press Photo em 2004, sobre o trauma e a reconciliação 31 anos após o genocídio. O livro de 152 páginas, que contém apenas 20 pungentes fotografias, tem a particularidade de retratar sobreviventes e perpetradores do genocídio lado a lado, no mesmo espaço, e de trazer a lume as experiências, memórias e arrependimentos e reconciliações de quem experienciou a tragédia.“O que tornou este genocídio tão excepcional e horrendo foi a intimidade da violência”, continua Wittenberg, no texto introdutório. “O banho de sangue foi incitado pelo governo hútu, pelo exército oficial e pela organização paramilitar hútu Interahamwe. Mas os perpetradores no terreno – aqueles que mataram, pilharam, violaram – eram, por norma, pessoas que as vítimas conheciam.” Eram conterrâneos, vizinhos e, em alguns casos, até membros da família, refere o neerlandês. Professores, líderes cívicos ou religiosos. “E não mataram a uma distância fria, impessoal. Não usavam armas modernas, como drones ou rockets. As suas armas eram, geralmente, machetes, martelos, flechas, marretas com pregos, instrumentos de morte que requeriam proximidade física. Os perpetradores podiam olhar as vítimas nos olhos. Ouvir as suas súplicas por misericórdia, os seus gritos, o seu último suspiro.”Após aqueles 100 dias de verdadeiro terror, quem sobreviveu teve de reaprender a viver – não apenas com o trauma, a perda, o luto, mas também com vizinho, o amigo, o familiar. “[Tutsis e hútus] continuaram a viver juntos nas mesmas comunidades que se revelaram não ser, de todo, comunidades. Isso significava andar constantemente na ponta dos pés, esconder-se. Evitar os outros. Não confiar em ninguém. E não dizer nada sobre o que tinha acontecido, sobre o medo e a raiva [que sentiam]. Nunca mostrar emoção. Isso era válido tanto para os perpetradores quanto para os familiares das vítimas.”


Na região de Karongi, Ruanda
© Jan Banning / Lecturis

No rescaldo do genocídio, mais de um milhão de arguidos – líderes políticos, militares, guerrilheiros, mas também civis – foram levados a julgamento; cerca de dois terços foram condenados a pena de prisão, multas, serviço comunitário, penas atribuídas em função da gravidade dos crimes.Nos anos que se seguiram, durante e após os julgamentos, vítimas e perpetradores tiveram de lidar com emoções fortes: “medo, fúria, desconfiança”, enumera Wittenberg. “O governo do Ruanda tentou promover a unidade e a reconciliação desde que foi criada a Comissão Nacional de Unidade e Reconciliação de Ruanda, em 1999.” Em 2003, a Constituição do país deixou de fazer distinção entre hútus e tutsis e todos passaram a ser apenas ruandeses – um passo em direcção à unidade. Mas e a reconciliação? Seria possível curar ressentimentos e restabelecer a harmonia após a chacina?


Capa do livro Blood Bonds, lançado pela Lecturis em Outubro de 2025

As dúvidas que Dick Wittenberg e Jan Banning sentiam diante da possibilidade de “reconciliação genuína” no rescaldo do genocídio desvaneceram-se quando se aperceberam da existência de uma organização apoiada pelo governo chamada CBS – acrónimo de Community Based Sociotherapy. A organização promove sessões de socioterapia no seio das comunidades ruandesas que foram afectadas pelo genocídio que colocam em contacto vítimas e perpetradores, dando lugar à partilha de memórias, experiências, emoções. “Foi graças a esta organização que conseguimos chegar até aos pares de ruandeses que se evitavam desde o genocídio e que, graças à socioterapia, se tinham tornado amigos.”Socioterapia e reconciliação genuínaA ideia na génese de Blood Bonds surgiu em 2023, quando o fotógrafo Jan Banning se encontrava no Ruanda a desenvolver outro projecto que marcaria, no ano seguinte, o 30.º aniversário do genocídio. “Um delegado sindical partilhou com ele uma história inacreditável”, contou Wittenberg. “Os seus pais tinham sido assassinados em 1994, durante o genocídio. A sua mãe tinha sido morta por um vizinho. O corpo foi lançado para uma vala comum. Mais de dez anos depois, durante o julgamento, o assassino expressou um arrependimento profundo e pediu perdão, publicamente, à família da vítima. A família perdoou. O corpo da sua mãe foi encontrado na vala comum e a família pôde, finamente, enterrá-la condignamente. Uma das pessoas convidadas para o funeral foi o seu assassino.”Após ter sido confrontado com essa história, Banning decidiu que gostaria de retratar no mesmo espaço, no mesmo enquadramento, pessoas que eram, inicialmente, inimigas e que conseguiram formar uma relação de cordialidade ou mesmo de amizade. Wittenberg, por sua vez, recolheria os seus testemunhos e procuraria os elementos que tinham conduzido à reconciliação.Seguem-se, assim, os retratos fotográficos de Jan Banning e os testemunhos de vítima e perpetrador.


Marc, à esquerda, e Marianna
© Jan Banning / Lecturis

Marianna Nyirantagorama (58) e Marc Nyandekwe (60)Marianna: “A chegada do [corpo militar da] Frente Patriótica de Ruanda (FPR) salvou-me. Após o genocídio, regressei ao local onde ficava a minha casa. Marc, o vizinho que entregou uma das minhas irmãs à multidão [de agressores], ainda vivia lá. Fugiu. Tinha medo da vingança. Muitos anos depois, concordei quando um socioterapeuta local me abordou e me pediu para participar numa sessão socioterapia em grupo com o Marc. Vi o outro lado de Marc. Pela primeira vez, ele não escondeu nada. Mostrou remorso genuíno. Eu queria ser amiga dele novamente.”Marc: “Ainda não entendo. Éramos vizinhos, bons amigos. A guerra civil que levou ao genocídio separou-nos. Passei seis anos e nove meses na prisão. Achei difícil regressar à comunidade. Escondi-me na minha casa. Até que não aguentei mais. A Marianna ajudou-me. Se não fosse ela, eu já não estaria vivo. Ela ajuda-me a arranjar trabalho, o que significa que posso sustentar a minha família. Se agora tenho boa aparência e estou saudável, é graças a ela. Fui salvo pela mulher que magoei.”


Epiphanie, à esquerda, e Jean
© Jan Banning / Lecturis

Epiphanie Mukamazimpaka (36) e Jean Baptiste (49)Epiphanie: “Ouvimos dizer que tinham começado a perseguir os tutsis. Os filhos mais velhos já tinham fugido para a casa dos nossos avós. Eu não fui tão rápida. Quando cheguei lá, já podia ver de longe que a casa estava a arder. Os assassinos tinham derramado gasolina por toda a parte. Perto da igreja, vi um menino, o Claude. Tinha a minha idade. ‘Podes esconder-me?’, perguntei. ‘Entra’, disse ele. ‘A tua irmã mais velha está lá dentro.’ Um outro menino contou aos assassinos onde estávamos. Esses chegaram rapidamente à porta da casa. Claude gritou: ‘Não há ninguém cá dentro.’ Um dos homens disse: ‘Quero ver por mim mesmo.’ Finalmente, ele chegou à sala onde estávamos escondidos. Abriu a porta com cuidado. A primeira coisa que vimos foi a sua lança. Comecei a tremer, mas a minha irmã foi muito corajosa. Ela reconheceu-o e ajoelhou-se à sua frente. Ele violou-a à minha frente. Depois, foi-se embora. ‘Não está ninguém aqui’, gritou para a multidão.A mãe de Claude manteve-nos escondidos. Quando o genocídio terminou, ela levou-me e aos filhos para o Congo. Passaram-se muitos meses até se atrever a regressar à nossa aldeia. Muitos dos perpetradores foram para a prisão. Jean Baptiste também. Anos mais tarde, ele foi libertado. Ouvi-o gabar-se num bar de ter violado a minha irmã. Denunciei isso à polícia imediatamente. Por que continuo a sorrir quando falo sobre todas essas coisas terríveis? Durante anos, a minha história dominou-me. Agora, superei a minha história. Consegui até perdoar Jean Baptiste. A socioterapia aliviou o meu coração.”Jean Baptiste: “Primeiro, passei doze anos na prisão. Depois, mais três anos porque magoei profundamente a Epiphanie quando estava bêbado. Sinto vergonha perante os sobreviventes. Sinto vergonha perante a minha mulher e os meus filhos. O meu sofrimento não foi nada comparado com o sofrimento que lhes causei.”


Alphonse, à esquerda, e Liberatha
© Jan Banning / Lecturis

Liberatha Nyirasangewe (70) e Alphonse Kanyemera (78) Liberatha: “Vi os homens a aproximarem-se de longe. Saí a correr de casa. Eles encontraram os meus gémeos de três meses lá dentro e mataram-nos imediatamente. Escondi-me numa plantação de cana-de-açúcar, mas encontraram-me. Um dos homens bateu-me com uma machete. Ainda hoje se vê a cicatriz. Ele disse: ’vamos matá-la.’ Outro homem impediu-o. Disse: ‘vão buscar o marido dela. Deixem-no comprar a liberdade dela por mil francos.’ O meu marido não tinha tanto dinheiro. Ele pediu emprestado. Então eles deixaram-me ir. Mesmo que o meu marido fosse hutu, eu sabia que ele não me poderia proteger. Escondi-me na selva. Às vezes, ele trazia-me comida, mas muitas vezes ficava longe durante dias. Eu estava tão desesperada, com tanta fome, tão suja, vivia como um animal. Após o genocídio, perdi a cabeça. Esquecia-me de me vestir. Saía nua. Amaldiçoava todos os hútus. Tinham matado os meus filhos, toda a minha família, todos os meus amigos. Os vizinhos vinham a minha casa para pedir desculpa. Ajoelhavam-se à minha frente. Eu cuspia-lhes na cara. Dizia: ‘nunca perdoarei um hútu.’ Tinha tanta raiva. Isso durou anos. Nunca teria acreditado que poderia melhorar. Participar na socioterapia fez-me bem. A minha raiva diminuiu. Todos contaram a sua história. Incluindo Alphonse, que assassinou o meu irmão. Ainda não consigo acreditar que ele fosse capaz de matar alguém. Um homem tão gentil. O diabo devia estar dentro dele.”Alphonse Kanyemera: “Em 1995, fui condenado a quinze anos de prisão. Os nossos líderes disseram-nos que tínhamos de matar todos os tutsis. Obrigaram-me a matar um padre que, segundo eles, era espião do FPR. Se eu me recusasse, matavam-me. Na prisão, fiquei muito doente. Pensei: ‘vão deixar-me aqui para morrer.’ Mas enviaram-me para um hospital especializado. Lá, conheci uma enfermeira da minha terra natal que sabia o que eu tinha feito. Mas ela não me envenenou. Deu-me medicamentos que salvaram a minha vida. A Liberatha e eu vivemos a cerca de trinta minutos a pé um do outro. Ela vive aqui em baixo e eu vivo ali em cima. Se ela gritar, consigo ouvi-la, consigo vê-la da minha casa. Se um de nós precisar do outro, basta acenarmos. Cuidamos um do outro.”Ancile Unabagira (57), à esquerda, e Ancile Nyiramimani (52)


Ancile Unabagira, à esquerda, e Ancile Nyiramimani
©Jan Banning / Lecturis

Ancile: “As pessoas comportavam-se de maneira muito diferente naquela época. Havia pessoas que nos viam, mas não nos traíam e havia também pessoas que davam o alarme imediatamente. Como uma mulher chamada Ancile, igual ao meu nome. Ela começou a gritar assim que encontrou três das minhas irmãs e uma sobrinha. ‘Matem-nas. Não as deixem escapar’, disse. Depois do genocídio, não foi fácil voltar a viver nesta aldeia. O meu marido estava morto, a nossa casa destruída. Quando vieram perguntar-me se eu queria participar num grupo de socioterapia com os perpetradores, agarrei a oportunidade. No início, todos estavam cautelosos. Mais tarde, todos nos abrimos. Por fim, abraçámo-nos. Até eu e a mulher que traiu as minhas irmãs nos abraçámos. Eu perdoei-a. A história dela deixou-me triste. Ela também sofreu. Era ainda mais pobre do que eu, dormia no chão, sobre uma camada de folhas de bananeira. O grupo trouxe-lhe um cobertor e um colchão.”Ancile: “Passei doze anos na prisão. Fui presa logo após o genocídio. Uma mulher veio e disse-me que eu tinha que me apresentar às autoridades. Eu não tinha ideia do que se tratava. Fui e eles prenderam. A minha sogra foi a única pessoa que me visitou na prisão. Não pude recusar participar no grupo de socioterapia, embora tivesse medo de acabar novamente na prisão. Mas depois comecei a gostar de participar. Ouvimos as histórias uns dos outros. Outros membros do grupo confortaram-me. Até me trouxeram um colchão. Ainda hoje durmo nele.”


Celestin, à esquerda, e Jean
© Jan Banning / Lecturis

Celestin Kayijuka (70), à esquerda, e Jean Marie Mukyenrwari (62)Celestin: “Após o genocídio, a maioria dos assassinos acabou na prisão, mas passado algum tempo começaram a ser libertados. Incluindo Jean Marie, que matou o meu pai. Quando o via, ignorava-o. Ele não me cumprimentava. Tínhamos medo um do outro. Ajudou-me ouvir a sua história no grupo de socioterapia. Percebi que ele estava a cumprir ordens, que os líderes locais o obrigaram a fazê-lo e que não era nada pessoal. Ele pediu desculpas a mim e aos meus dois irmãos e eu perdoei-o. Se não nos reconciliarmos, não conseguiremos viver. O ressentimento não traria os nossos entes queridos de volta à vida. Hoje em dia, se um de nós precisa de algo, como dinheiro para remédios, nós entreajudamo-nos. Quando há uma festa na aldeia, dançamos juntos.”Jean Marie: “Estive preso dez anos. É claro que sofri lá dentro, todos éramos espancados. Uma vez, ficámos sem comida durante uma semana. Durante o julgamento, revelei tudo o que aconteceu durante o genocídio, admiti tudo e pedi desculpas. Nunca falei com os meus filhos sobre isso, não sou assim tão corajoso. Eu próprio não compreendo o que fiz. Nunca teria pensado que fosse capaz de matar alguém. Ninguém pode lavar o sangue das minhas mãos.”

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