Os pinheiros históricos do Líbano estão a morrer, um tronco de cada vez
No coração do sul do Líbano, onde outrora existiam pinheiros altos e abundantes, está a desenrolar-se uma crise silenciosa. As pinhas estão estéreis, as árvores estão a secar e uma floresta que era a salvação de comunidades inteiras está sob cerco.Os agricultores da floresta de Bkassine assistiram ao declínio da produção de pinhões durante anos. No início, culparam as mudanças climáticas sazonais. Então, em 2015, os cientistas confirmaram o que muitos temiam: o sugador-de-pinhas havia-se instalado, um insecto invasor que se alimenta das pinhas que produzem os preciosos pinhões do Líbano.“Não se trata apenas dos pinhões”, disse o Nabil Nemer, especialista em saúde florestal da Universidade do Espírito Santo de Kaslik (USEK, na sigla em inglês). “Este insecto ataca os cones ao longo de três anos. Não reduz apenas a produtividade, destrói-a completamente.” Em alguns casos, até 82% das vagens das sementes das pinhas ficam vazias, de acordo com Nabil Nemer. As árvores afectadas pelas alterações climáticas são particularmente vulneráveis.
Nabil Nemer, especialista em saúde florestal da Universidade do Espírito Santo de Kaslik (USEK)
Raghed Waked / REUTERS
Praga da América do NorteO sugador-de-pinhas (Leptoglossus occidentalis) é originário da América do Norte e provavelmente chegou ao Líbano através de paletes de madeira não tratadas. Desde então, espalhou-se pelo Mediterrâneo até à Turquia e outras áreas, de acordo com a investigação de Nabil Nemer.Os meios de subsistência estão ameaçados na reserva de Bkassine, a maior floresta produtiva de pinheiros do Médio Oriente. As árvores crescem noutras partes do Líbano, mas em grande parte não são comercializadas.Durante décadas, a família de Miled Hareb sobreviveu graças à generosidade da floresta. Mas isso já não é o caso. “Este trabalho foi-me transmitido. Construí a minha casa e criei a minha família com ele. Mas depois as árvores começaram a morrer, e o nosso modo de vida também”, disse Miled Hareb à Reuters.A colheita de pinhas é um trabalho árduo. Os trabalhadores escalam árvores altas com escadas estreitas, equilibrando-se em ramos esguios sem equipamento de segurança, com o objectivo de recolher pinhas aninhadas no alto da copa.
Precisamos de gerir a floresta como um todo. Isto não é um jardim. Não é uma quinta. É um ecossistema vivo
Nabil Nemer, especialista em saúde florestal
As lesões são comuns e os salários diminuíram juntamente com os rendimentos. Nabil Assad, um trabalhador sírio que colhe pinhas no Líbano há mais de uma década, ainda se lembra de quando até 250 apanhadores de pinhas trabalhavam simultaneamente em Bkassine.“Agora são apenas cerca de 20 ou 30 pessoas. Já não há trabalho”, disse Nabil Assad.Um ecossistema em declínioA maioria das florestas de pinheiros do Líbano foi plantada há centenas de anos. As árvores mais velhas ainda estão dentro do seu ciclo de vida produtivo, mas as secas, as chuvas irregulares e o aumento das temperaturas provocadas pela crise climática tornaram-nas mais vulneráveis às pragas.“Uma árvore saudável consegue resistir”, disse Nabil Nemer. “Mas quando está sedenta e faminta, não tem defesa.”
A praga de sugadores-de-pinhas ameaça meios de subsistência
Antes da cimeira climática COP30, que está a decorrer até 21 de Novembro em Belém, no Brasil, funcionários das Nações Unidas enfatizaram a importância de proteger as florestas contra infestações de pragas e outros riscos, descrevendo as florestas como “a defesa natural mais poderosa do planeta”.A floresta de Bkassine já abrigou cerca de 100.000 pinheiros produtivos, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.O número tem flutuado: anos de stress climático e infestações de pragas diminuíram o número de árvores, e esforços de replantio visaram compensar essas perdas, mas nenhum estudo recente oferece novos números precisos, disse Nabil Nemer.Além do insecto que se alimenta de pinhas, os besouros que perfuram a madeira também estão a matar os pinheiros. Árvores mortas cobrem o solo da floresta, atraindo mais pragas e acelerando o declínio.
Nabil Assad, um lenhador da Síria que trabalha na floresta de Bkassine, no Líbano
Décadas de turbulência política e económica no Líbano também tiveram um impacto negativo. Após a brutal guerra civil de 1975-1990, a gestão florestal liderada pelo Estado foi abandonada. A exploração madeireira ilegal aumentou desde a crise económica de 2019.À medida que a produtividade diminui, os preços de mercado subiram, mas poucos libaneses podem pagá-los. Um quilo de pinhões é vendido agora por quase 100 dólares, contra cerca de 65 dólares há cinco anos. Na confecção de pratos libaneses que exigem crocância, famílias (e até mesmo restaurantes) trocaram os pinhões por amêndoas fatiadas, que são mais baratas.Os esforços para combater o problema têm sido lentos. A pulverização de pesticidas requer helicópteros, que são controlados pelo exército libanês. Atrasos logísticos significam que os tratamentos muitas vezes perdem o momento crítico em que os insectos depositam os ovos.O Ministério da Agricultura do Líbano anunciou uma campanha nacional de pulverização para Agosto passado. Mas Nemer adverte que, sem uma estratégia mais ampla que envolva os próprios agricultores, isso não será suficiente.
Os famosos pinhões do Líbano
Raghed Waked / REUTERS
Em Bkassine, os agricultores estão a aprender a identificar pragas, relatar surtos e participar na gestão florestal, por meio de programas de treinamento liderados pela USEK, pelo Ministério da Agricultura do Líbano, pela Agência das Nações Unidas para os Alimentos (FAO, na sigla em inglês) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.“Precisamos de gerir a floresta como um todo”, disse Nabil Nemer. “Isto não é um jardim. Não é uma quinta. É um ecossistema vivo.”









