DESPORTO

Papel de silicone: André e Samuel Pinto têm solução para o “lado negro” da rotulagem

Papel de silicone, também apelidado de siliconado ou siliconizado. A maioria das pessoas nunca terá pensado nisso, excepto talvez na hora de decidir se o coloca no contentor azul (papel e cartão) ou no amarelo (plásticos e metais), mas é um resíduo que está em todo o lado. Desperdício de várias indústrias é literalmente o “lado negro” da rotulagem.Por cada lote de rótulos autocolantes que é colocado em determinado produto — é assim nos vinhos, no azeite, nas compotas, nos detergentes, nos champôs, na carne embalada, nas encomendas online que já trazem etiqueta para usar em caso de devolução… — sobra o rolo de papel de toque plastificado de onde os rótulos foram destacados, que, por ser tão difícil de reciclar, acaba por ir parar ao aterro. Regra geral, é um papel de cor amarela, mas também existe em branco. São quilómetros e quilómetros de um desperdício para o qual os irmãos André e Samuel Pinto encontraram uma solução.A família, de Mira de Aire, no concelho de Porto de Mós, tem uma gráfica que imprime rótulos para vários clientes, e estes, a dada altura, começaram a “perguntar o que é que haviam de fazer com a parte amarela”, conta André. Os dois irmãos contactaram a Universidade da Beira Interior, que tem um Departamento de Ciências e Tecnologias do Papel, e, com a ajuda da docente Joana Curto, conseguiram “desenvolver uma forma de aproveitar aquele papel para o reintroduzir no mercado”.Daí até criar a Partícula Verde não se pode dizer que tenha sido um saltinho, porque a dupla teve dificuldades em obter licenças para o que pretendia fazer, mas assim que se juntaram a um parceiro que já tinha as autorizações necessárias, da ideia saiu literalmente papel. Há três anos que a Partícula Verde faz pasta de papel a partir deste resíduo num cantinho da Fábrica de Papel de Torres Novas, outra empresa familiar cujo dia-a-dia está também com duas irmãs, Ana e Sónia Paixão, que deixara de produzir papel reciclado para se focar na produção de caixas e outras embalagens de cartão canelado, e tinha essa zona da produção parada.Separar o papel do siliconeO processo a que os irmãos Pinto chegaram passa por “neutralizar” a parte siliconada dos rolos, não por a separar. Criaram, em conjunto com a universidade, uma solução química secreta, que é colocada na água que entra no tinão onde vai ser triturado o papel, e que “parte as moléculas [do silicone] em átomos mais pequenos e faz com que depois [o silicone] seja dissolvido e neutralizado”, explica Samuel. A solução química que utilizam é amiga do ambiente, garante, e o resíduo de silicone que fica no final “é microscópico”, representa “menos de 0,5%” na composição da pasta de papel húmida que vendem. “Silicone é oxigénio e sílica. Partindo as moléculas é isso que temos.” O processo de produção da pasta de papel que resulta da transformação deste resíduo é em si mesmo sustentável, pela utilização de água em circuito fechado.


A Partícula Verde produz semanalmente 59 toneladas de pasta de papel com origem nos rolos de papel de silicone que são um resíduo de várias indústrias
Miguel Madeira

A Partícula Verde tem dois negócios: tem clientes-fornecedores, que lhes entregam o tal papel de silicone — que pagam pela gestão de resíduos, e pagam menos do que pagariam a enviá-lo para um aterro —, e tem os clientes da pasta de papel. O valor pago pelas empresas para enviar este tipo de resíduo para um aterro anda entre “os 150 e os 200 euros por tonelada, mais a logística”, refere Samuel Pinto, e sobre esses valores a Partícula Verde oferece “uma redução de custos até 45%”.“Por cada 100 quilos de produto a nossa pasta tem menos de um quilo de contaminantes. E como os nossos clientes da pasta de papel também utilizam tratamentos de água, aquele silicone, que é residual e está neutralizado, automaticamente vai ser tratado do lado deles, sem qualquer impacto a nível químico, digamos assim, nos processos futuros”, explica o mesmo responsável. O irmão André acrescenta: “E mais, a nossa pasta já vai desfibrada, e é uma fibra mais nobre do que a fibra de cartão, que é curta. A nossa é longa.”Nenhum dos dois é químico — André é formado em Artes Gráficas e Samuel em Negócios Internacionais —, mas “às cinco da tarde, quando a fábrica pára”, vão “fazer química”, juntam-se a adicionar a tal solução ao “caldeirão”. E, agora, estão prestes a sair do anonimato.No dia 20 de Outubro, apresentaram em Londres, à margem da iniciativa Sustainability and Drinks, que tem a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) entre os fundadores, um primeiro produto feito a partir da sua pasta de papel. Viajaram com os responsáveis dos Vinhos do Alentejo, que são parceiros fundadores da iniciativa britânica e também parceiros e clientes da Partícula Verde.


A Comissão de Viticultura Regional Alentejana desafiou a Partícula Verde para criar um produto a partir dos resíduos da rotulagem do sector e o resultado são as caixas “Re:boxed”
Miguel Madeira

A CVRA incluiu um módulo sobre este tipo de resíduo nas suas formações de economia circular. E foi de uma encomenda sua que nasceram as caixas de transporte de garrafas de vinho Re:boxed, que a Partícula Verde levou a Londres. A ideia é que depois a CVRA possa vendê-las aos operadores interessados em usá-las no envio de vinhos ou nos seus espaços de enoturismo. A própria CVRA é cliente-fornecedora da empresa de André e Samuel porque lhes envia os rótulos que não chegam a ver as prateleiras, e são para destruir.“Tudo o que é embalamento tem isto”João Barroso, director do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), explica como os seus caminhos se cruzaram. Também ele procurava, há já alguns anos, uma solução para algo que o chocou na visita ao aterro sanitário intermunicipal de Évora. “Eles têm lá um mecanismo muito grande, que é um tratamento mecânico e biológico, para onde despejam tudo o que é resíduo indiferenciado, de particulares e das indústrias. Para tentar recuperar [para a reciclagem] alguns desses materiais, há uma estrutura com vários níveis e muitos tapetes rolantes, que através de diferentes mecanismos — por exemplo, por densidade e por magnetismo —, faz a sua segregação”, começa por contar o engenheiro ambiental que começou a trabalhar na CVRA em 2014.Nessa visita, João Barroso reparou numas “fitas esticadas ao longo dos tapetes”. Percebeu que eram as fitas onde são colados os rótulos que a indústria do vinho usa. “A fita prende-se algures no mecanismo, vai esticando, esticando, esticando, e, quando não há mais fita para esticar, fica presa, e faz parar toda a estrutura. No aterro de Évora, a Gesamb [operador público de gestão de resíduos do distrito], à época, parava, 18 ou 19 horas por ano, por causa disto. Comecei a pensar que isto era um problema.”E tinha razão. “É um lado negro do sector do vinho a nível mundial”, aponta João Barroso. Mas não só. “Se tem uma garrafa com um rótulo, tem este resíduo. Tudo o que tem embalamento tem isto”, sublinha. As indústrias alimentar, química, farmacêutica e outras têm este resíduo. Há um ano, já depois de ter procurado no estrangeiro uma solução para o papel amarelo (às vezes, branco) dos rótulos dos vinhos do Alentejo, João Barroso estava a verificar a candidatura de um operador ao programa de sustentabilidade que dirige quando reparou que essa empresa, a Parras Wines (que no Alentejo tem a Herdade da Candeeira), já separava este material, e enviava para uma tal de Partícula Verde. Nem queria acreditar que a resposta estava cá dentro.As duas entidades assinaram um protocolo de colaboração e, através de uma empresa de gestão de resíduos, a Noites Reciclagem — uma das quatro do género com quem a Partícula Verde trabalha —, hoje, para além do grupo Parras, também as empresas Luís Duarte Vinhos, WineStone (Ravasqueira), Cooperativa Agrícola da Granja Amareleja, Esporão e Adega Cartuxa entregam os seus rolos de papel siliconado para serem transformados em Torres Novas. Para além dessas casas produtoras de vinho, também a empresa Diana Gráfica (em Évora), uma das gráficas autorizadas a imprimir os selos de certificação da CVRA, aderiu. Não chega a duas mancheias, é certo, mas é um começo. E, numa região com duas centenas de produtores de vinho, o céu é o limite.


Para Ana e Sónia Paixão, terceira geração da família fundadora da Fábrica de Papel de Torres Novas, colheram o projecto inovador da Partícula Verde e, ao mesmo tempo, voltam a ver laborar uma área da produção que estava parada há vários anos
Miguel Madeira

Nos últimos dez meses, e depois de um workshop promovido pelo PSVA sobre economia circular, aqueles produtores de vinho do Alentejo encaminharam 14 toneladas deste papel siliconado para reciclagem. “Só no Alentejo — e atenção que o Alentejo representa 0,3% da área de vinha do mundo — temos 23 mil hectares e produzimos 110 milhões de garrafas por ano. Portanto, somos uma região pequenina, de um país pequenino, que produziu, em 2024, 16.000 quilómetros [de fita] deste resíduo por ano. Em linha recta, é a distância do Alentejo a Alice Springs, na Austrália. Em todo o mundo, só no vinho, estamos literalmente a falar de milhares de toneladas deste resíduo, que acabam em aterro ou são queimadas.”A Partícula Verde, através dos parceiros que fazem a gestão de resíduos, distribui sacos grandes pelos clientes industriais, que passam a ter mais um resíduo para separar. Uma mudança que nos primeiros dias pode ser difícil.À fábrica de Torres Novas ainda chega um ou outro contaminante à mistura. Os clientes directos são já 200, de norte a sul do país e também em Espanha. Entre eles, há marcas conhecidas como a Sumol, a Matutano ou a Paladim. “Quando entrámos aqui na fábrica contactámos uma empresa que queria dez toneladas. Nós produzíamos 750 quilos por semana! Hoje produzimos 59 toneladas”, conta André Pinto, acrescentando que o foco agora é melhorar a qualidade do produto, e que, com isso em mente, o último investimento é numa máquina para secar a pasta de papel da Partícula Verde.Para Ana e Sónia Paixão, terceira geração da família proprietária da Fábrica de Papel de Torres Novas, para além do orgulho em acolherem “um projecto completamente inovador”, há a questão emocional de voltar a ver a unidade de reciclagem trabalhar. A fábrica era a única a nível nacional que produzia “aquele papel manteigueiro que se usava [outrora] nos infantários”. “Vimos, durante uma vida inteira, aquelas máquinas a trabalharem. Custou-nos um bocadinho ter de optar por parar a parte da reciclagem. É bom ver aquilo novamente a funcionar”, congratula-se Ana Paixão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.