CIÊNCIA

Porque temos medo das perturbações mentais?

O cérebro é um órgão que se constitui de tamanha complexidade que a ciência ainda não possui total compreensão dos seus processos de funcionamento. A falta de conhecimento sobre a natureza das doenças mentais abre um perigoso flanco para o surgimento de mitos e crenças, sem qualquer fundamento científico, que facilmente se espalham e reforçam a percepção negativa associada a quem sofre. Por conseguinte, além das pessoas terem de lidar com o sofrimento imposto pela condição mental, que pode afetar mais ou menos o seu funcionamento diário, veem-se obrigadas a suportar o peso social do estigma.As perturbações mentais afetam dimensões essenciais da vida, por exemplo, os pensamentos, as emoções, os comportamentos e a perceção, além de outras funções cerebrais consideradas superiores pela sua complexidade e relevância. Sabe-se que os fatores individuais de vulnerabilidade com forte pendor biológico, como as alterações genéticas herdadas, associados ou não a adversidades ambientais, como o stress crónico, as deficitárias condições socioeconómicas, as situações traumáticas ou desafiantes e o isolamento social, podem predispor qualquer indivíduo ao desenvolvimento de uma doença mental.Sim, qualquer indivíduo, embora seja certo e, ao mesmo tempo, injusto, que o acesso ao tratamento seja mais fácil e rápido para aqueles com melhores condições económicas.Compreender e reconhecer que qualquer pessoa pode sofrer de uma doença mental, com mais ou menos gravidade, tem implicações significativas para o diagnóstico, o tratamento e a recuperação. Além disso, constitui um passo essencial para a prevenção e promoção dos cuidados em saúde mental.As perturbações mentais não tornam ninguém inferior ou sem valor. Então, por que é que quando nos referimos a elas, geralmente através do outro, a crítica e o medo facilmente ganham força? Porque assusta-nos o desconhecido. Ademais, a percepção negativa associada às doenças mentais já se encontra tão enraizada socialmente, que o indivíduo não somente é visto como incapaz, como vê toda a vida tomada por um rótulo que ocupa a totalidade da sua identidade.


“O cérebro é um órgão que se constitui de tamanha complexidade que a ciência ainda não possui total compreensão dos seus processos de funcionamento”
@petercalheiros

Ou seja, apesar de inerentes ao facto de sermos humanos, as vulnerabilidades individuais para o desenvolvimento de uma doença mental são, com frequência, utilizadas contra as pessoas, como forma de as criticar, diminuir ou ridicularizar. Raramente nos pomos no lugar do outro e procuramos compreender a sua experiência. Noutras palavras, como é o dia a dia de alguém que sofre, por exemplo, de depressão ou bipolaridade e como esta condição impacta na sua vida pessoal, laboral e familiar?Em consequência, surge nas pessoas que recorrem aos profissionais de saúde mental o medo de ser descoberto, como se fosse motivo de vergonha. A partir de então, escondem que o fazem.Estas atitudes sociais negativas face às perturbações mentais manifestam-se discursivamente em diferentes níveis: no espaço público, através de preconceitos e atitudes negativas; no plano pessoal, quando o próprio indivíduo internaliza e estigmatiza a sua condição; e no âmbito institucional, através de políticas e sistemas que desfavorecem quem enfrenta problemas de saúde mental.Receamos tudo o que nos torna vulneráveis porque não toleramos o sofrimento, então, afastamo-nos de quem tem uma doença mental porque ainda perduram as crenças equivocadas que associam estas perturbações à imprevisibilidade ou à perda de discernimento — como a ideia de que quem sofre de uma doença mental é “maluco” ou “pode perder o controlo”.Tememos as perturbações mentais pelo medo, em nós mesmos, da rejeição, do julgamento e da vergonha. Fugimos da vulnerabilidade e do sofrimento porque os vemos como fraqueza. E é assim que continuamos a ver e a agir sobre a doença mental — através da exclusão, do julgamento e da ocultação.Evitamos falar sobre os sentimentos e sobre o que receamos porque o estigma permanece e aumenta a relutância em abrirmo-nos aos outros. Precisamos de ser e de nos mostrarmos vulneráveis para desconstruir o estigma e transformar a forma como nos relacionamos com os outros. Para tal, importa reconhecer que a vulnerabilidade tem o poder de aproximar as pessoas, cultivar a empatia, fortalecer o sentimento de pertença e criar resiliência. Assim estaremos prontos para ser humanos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.