À sopa demasiado quente, vai-se soprando e comendo devagarinho
Percebes que bateste no fundo quando te encontras, ao domingo à noite, com a cabeça mergulhada na retrete, o azulejo frio encostado à testa, e os miúdos, lá dentro do quarto, dormindo como nas pinturas de Chagall, suspensos na verticalidade leve do beliche. E tu ali, de joelhos, com o corpo a tentar expulsar o vinho, como se o vinho fosse a culpa, a solidão. Dois dedos pela goela abaixo, a tentativa inútil de não deixar que o último copo se transforme em mais um fracasso, e, no meio da náusea, uma pontada de lucidez, desejas acreditar em qualquer coisa, Deus, destino, acaso, mas és ateu como uma pedra.Não tens mais do que a ti próprio e o peso dobrado dos gémeos a dormir, e, mesmo assim, não consegues ser melhor. Nem pai, nem homem, nem médico, nem viúvo. A viuvez é uma guerra que te destruiu todos os braços, os que serviam para abraçar, para cuidar, para viver, e tu ainda não aprendeste a lidar com a terra arrasada que ficou depois dela. És um pai solteiro, viúvo, cansado, deprimido, um homem que devia ser farol e é apenas escuridão. Cobarde, é essa a palavra, quando o mundo e os filhos te pedem coragem, tu ofereces fraqueza; quando te pedem presença, tu foges.Prometes-te a mudança como quem jura deixar de se matar aos poucos, mesmo que seja uma manobra incompleta, um gesto torto, qualquer coisa que desvie o rumo destes dias cada vez mais tristes. E ali, deitado sobre a colcha que ainda guarda o cheiro dela, de olhos fechados, lembras-te de uma frase de Rilke, ou parte dela: “À sopa demasiado quente, vai-se soprando e comendo devagarinho”, e o desgosto abranda. Antes de adormeceres, sentes o corpo dela a deitar-se no teu peito, como antes, e dizes baixinho, com uma ternura que já quase esqueceste — dorme bem.










