Inteligência Artificial e trabalho – a impostura
A Inteligência Artificiail (IA) não é de esquerda. Daron Acemoglu, prémio Nobel de Economia 2024, escreve na Annual Review of Economics que a IA aumenta o poder do capital sobre o trabalho. Dir-me-ão: a IA é uma ferramenta, tudo depende das aplicações que lhe damos. É essa a impostura.Temos de distinguir entre as aplicações e a orientação da IA, isto é, as intenções de quem a desenvolve. O objetivo foi sempre, no capitalismo, o de fazer lucro, reduzindo o custo do trabalho e substituindo-o por máquinas. A diferença com a IA é que os seus donos não querem só obter lucro, tencionam concretizar um projeto político-ideológico. Curtis Yarvin, Peter Thiel, Elon Musk, Nick Land, querem usar a “máquina do tecnocapital”, que comandam, para instaurar uma “monarquia tecnológica”.O seu projeto político-ideológico é, como aqui caracterizei, elitista, autocrático e pós-humano. Não por coincidência, estes são os traços que o processo de digitalização tem vindo a imprimir no mundo do trabalho e que a IA intensifica.
Há quem ache que a IA generativa é anti-elitista e igualitarista porque, pela primeira vez na história da evolução tecnológica, ameaça as profissões mais qualificadas e criativas. Nos Estados Unidos, os jovens diplomados já têm dificuldade em encontrar emprego. Na realidade, a IA generativa vai desqualificar várias profissões e criar uma elite muito restrita. Como só aumenta a produtividade, e portanto o salário, dos que processam informação, as condições das profissões manuais e sociais vão continuar a deteriorar-se. Em vez de gastar biliões numa hipotética Inteligência Artificial Geral, diz Acemoglu, dever-se-ia criar Inteligências Artificiais que prestigiem os canalizadores, eletricistas, gestores agroflorestais, e outros, de modo a atrair os jovens para o mundo físico e para a natureza.Nas empresas, a gestão algorítmica do trabalho está a instalar um “tecnofascismo”, que encobre e aumenta o poder de quem manda sobre quem executa. A organização e gestão do trabalho através de plataformas informáticas intensifica o controlo de que são alvo os trabalhadores e reduz a sua autonomia. Em vez de interagir com colegas e dirigentes, os trabalhadores ficam isolados em frente aos ecrãs, a cumprir procedimentos estandardizados que degradam o sentido do trabalho e destroem os coletivos. Restringir as interações humanas e delegar a coordenação dos trabalhadores a dispositivos técnicos tem efeitos profundamente deshumanizantes. Tocqueville temia em seu tempo que os seres humanos “perdessem gradualmente a capacidade de pensar, sentir e agir por si próprios, caindo assim abaixo do nível da humanidade”.
O impacto no crescimento económico deve-se mais à construção de data centers do que à IA em si. Ou seja, a IA enriquece os tecnomagnatas e exacerba a crise ecológico sem aumentar os salários dos trabalhadores
A tudo isto se juntam outras imposturas. A IA generativa aumenta a produtividade individual mas, até à data, não se traduziu em benefícios para as empresas. O impacto no crescimento económico deve-se mais à construção de data centers do que à IA em si. Ou seja, a IA enriquece os tecnomagnatas e exacerba a crise ecológica sem aumentar os salários dos trabalhadores.Os Tech Lords não escondem a sua intenção: criar uma supertecnologia dirigida por uma super-elite que traga prosperidade e subjugue a humanidade, dispensando-a até de trabalhar.A esquerda critica, e bem, a financeirização da economia, o poder e a ganância dos atores financeiros. Como se posiciona face aos oligarcas digitais e ao seu projeto politico-ideológico? Quer promover uma IA com financiamento público, mas com que projeto de sociedade? Para controlar os efeitos da IA no mundo do trabalho, vai fomentar a participação dos trabalhadores nas decisões das empresas?Dir-me-ão: It’s geopolitics, stupid! As sociedades que dominarem a IA dominarão o mundo – querer limitar a inovação, nesta era de novos impérios, é perder soberania. Os donos da IA pretendem levar-nos para um mundo virtual, pós-humano; daí o seu desprezo pela ecologia e pelo trabalho. A China não se deixa enganar. Xi Jinping, que despreza é o dinheiro, exige que a IA desenvolvida na China reflita a ideologia do Partido, e continua a investir em materiais críticos e em tecnologias verdes. Na China, é a política que comanda tudo.Sabemos todos qual é o desafio: como conciliar inovação, democracia, ecologia e estado social? A resposta passa forçosamente pelo trabalho, território político da esquerda e matriz da coesão social.A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990










