Ter sotaque é ser autêntico
Sou de uma terra que me põe na voz o remetente. Tenho vincado acento, e cantada entoação. Só eu e os meus vizinhos sabemos partir as palavras e fazer a divisão silábica. Aliás, nem sei se diga vizinhos se os que vivem lá ao lado… Ao lado, sim, porque ao pé é coisa de outras terras e, junto, serviria quando ladeado por “à” e não por “da” minha casa.Vocifero na melodia do Norte. Do norte minhoto das proximidades do Lima. Como numa carta mal escrita, espalho a morada do redator nas entrelinhas das sílabas que, quando falo, como. E repare-se desde já que as palavras com as quais principiei e findei a frase anterior se pronunciam de modo diverso, ainda que com a mesma grafia.Repare-se também na facilidade que tenho em pronunciar a sangue frio (e leia-se fri-o, com duas sílabas bem marcadas) certas e determinadas expressões.
Pego no “u” que os alfacinhas põem no tre(u)ze, e deixo-o bem no meio de Lisbo(u)a.Deixo os “is” no local, e sempre debaixo dos pontos.Domino os “ãos” como ninguém… Porque posso dizer de igual forma avião e aviom, mas ambas se distinguem claramente de aviam. Consigo igualar a fonia de pão e “pom”, mas não o faço com o não e o “nom”, e com a mão e o “mom”. Interrogo-me se será por soar em francês…Mais ainda, em vão, vão (leia-se em vão, “vom”) ser os protestos que afirmem que o início desta frase repete a mesma palavra.Posso pedir uma camisola de lã, ou de lá… e o ouvinte terá que deslindar se falo do material ou da origem do produto.Posso de rajada, despejar um “vai ver se chove”, sem pronunciar um único “v”.E, citando terminologia agrícola, sou homem de mondar a eito uma leira de milho. Apanhar os pundões que daí sobrem, encilar uns quantos pés e de outros erguer meda. Depois da espiga desbulhada, pegar no carunho da mesma e com mais uns quantos quilos de pruma (faúlha, fagulha, caruma, ou outra nomenclatura) assar umas barrigas na grelha, matar a larica ao citadino e deixá-lo a pensar na comida e confecção.Não há português correto, senão aquele que o povo diz. E se me censurarem a língua, ou me chamarem de bacoco, riposto com a premissa de que Portugal começou de norte para sul, e como tal os meus primórdios concedem-me bons precedentes.Tudo isto porque gosto de sotaques. Gosto dos que teimam em não o perder. Os que resistem à social imposição do que por ser diferente deva ser moldado aos demais. Os que ganham e criam novos.O sotaque é a interpretação da canção. Encaixa a melodia na mensagem e, da liberdade da pronúncia, confere no ritmo e nas pausas uma cantiga remisturada.Aqueles que dizem não o ter, caem na metáfora do som do silêncio, ou na ausência de uma resposta que só por isso já o é. Não ter sotaque é ser autóctone, e deixar de o ser ao viajar.Tê-lo é ser autêntico. É tatuar na voz os sítios onde se esteve e de onde se veio. É revelar a valentia de ser o tipo que veio de fora e não se deixou moldar senão pelos seus.









