Linha do Douro encerra para obras durante cinco meses entre Marco e Régua
Com sete anos de atraso, a Infra-Estruturas de Portugal (IP) vai iniciar a modernização da Linha do Douro entre Marco de Canaveses e Régua, e, seguindo o padrão de empreendimentos anteriores, começa por encerrar a linha durante cinco meses para que os trabalhos possam decorrer sem serem interrompidos pela circulação dos comboios.Em comunicado, a empresa diz que a circulação ferroviária estará suspensa entre aquelas duas estações “a partir do dia 3 de Novembro de 2025 e até ao início do mês de Abril de 2026”.Os trabalhos vão decorrer durante três anos e no Inverno do próximo ano haverá novamente um encerramento da linha para as obras poderem continuar. A IP explica que o corte no serviço ferroviário decorre “entre Novembro e Março, período de menor utilização do serviço, quer pelos passageiros regulares, quer por turistas”.A modernização deste troço (ainda ficam a faltar a electrificação do troço Régua–Pocinho e a reabertura da linha entre Pocinho e Barca de Alva) sofre de uma derrapagem temporal de sete anos e de uma derrapagem financeira que quase quadruplica o valor anunciado no plano de investimentos Ferrovia 2020.Nesse plano, este troço da Linha do Douro deveria ter sido modernizado em 18 meses (entre 2018 e 2019) e custava 46,6 milhões de euros. Mas, embora com atrasos, todos os outros empreendimentos do Ferrovia 2020 foram avançando, excepto este, que acabaria por ficar para último. Agora, em vez de 18 meses, a IP diz que as obras vão demorar 36 (dos quais dez meses com a linha fechada).Com tanto atraso, a IP acabaria, em 2022, por desviar o financiamento alocado à Linha do Douro para a Linha do Oeste. Uma forma de não desperdiçar fundos comunitários, visto que o projecto se encontrava tão atrasado que já era impossível obter financiamento de Bruxelas.Quanto ao valor do investimento, este é agora de 165 milhões de euros, ou seja, 3,5 vezes mais do que o inicialmente previsto. O PÚBLICO perguntou à IP qual a razão desta discrepância, mas a empresa não respondeu, tendo-se limitado a explicar que os 165 milhões incluem a empreitada geral (modernização da infra-estrutura e electrificação), os materiais, a sinalização electrónica e sistemas de telecomunicações, e a construção de uma subestação eléctrica em Bagaúste (Régua). O financiamento europeu, entretanto obtido no quadro comunitário 2021-2027, é de 70 milhões de euros.Durante os próximos meses, a IP espera executar “o reforço estrutural e o rebaixamento da plataforma ferroviária nos seis túneis existentes ao longo deste troço, com particular destaque para a intervenção no Túnel do Juncal, o segundo maior da Rede Ferroviária Nacional, com 1624 metros de extensão”. E é devido à “elevada complexidade técnica e logística” destes trabalhos que a IP justifica a necessidade de encerrar a linha por cinco meses. No entanto, nos últimos 160 anos do caminho-de-ferro em Portugal, este tipo de trabalhos foi sempre realizado sem interrupção do serviço comercial, sendo executado entre a passagem dos comboios, ou no período nocturno, ou com encerramentos pontuais aos fins-de-semana. A prática da IP da última década mostra que sempre que se fecharam linhas para realizar obras os prazos nunca foram cumpridos. O exemplo mais flagrante é o da Linha da Beira Alta, que devia ter fechado nove meses e que acabaram por se prolongar por 42. Ainda este ano, na Linha do Oeste, o encerramento do troço entre Torres Vedras e Caldas da Rainha, que a IP anunciou por quatro meses, acabou por demorar dez em reabrir.Em resposta a perguntas do PÚBLICO, a gestora de infra-estruturas diz que, na Linha do Douro, o caderno de encargos prevê penalizações ao empreiteiro de 1% da totalidade dos trabalhos se os “prazos parcelares vinculativos” não forem respeitados.Quanto à parte restante da Linha do Douro, a IP diz que a modernização do troço Régua–Pocinho e a reabertura da linha entre Pocinho e Barca de Alva estão em fase de projecto, a que se seguirá a avaliação de impacto ambiental, imprescindível para depois proceder ao lançamento dos concursos. A empresa admite que esses concursos possam decorrer ainda antes da conclusão da modernização do troço Marco–Régua.Até ao próximo mês de Abril, a exploração ferroviário no Douro estará dividida entre os troços Porto–Marco e Régua–Pocinho. Na parte central, entre Marco e Régua, haverá transporte rodoviário alternativo, o que não se adivinha fácil, porque a linha não corre ao longo de uma mesma estrada. A IP explica que serão “definidos, em articulação com as autarquias da região, os trajectos mais adequados e locais de paragem para a tomada e largada de passageiros”.










