CIÊNCIA

SNS e a sedução do faz de conta

Começar a escrever sobre o SNS faz-me lembrar um filme de 1989 intitulado Sexo, Mentiras e Video.Tratam ambos de frigidez: no filme, uma mulher casada que frequenta um psicanalista; no SNS, uma desgovernação de vários anos, sem que um psicanalista possa resolver a contínua frustração.Contudo, é conveniente constatar que na governação da saúde pública há mentiras, influência do sexo e informação diversa em vídeos e outras formas de comunicação.A primeira mentira – são várias –, diz respeito à badalada informação de que Portugal tem médicos em excesso. A distribuição por especialidades, idade e sexo, ao alcance de todos através das estatísticas anuais publicadas pela Ordem dos Médicos, põe a nu, sem dúvida alguma, a mentira do excesso de médicos em Portugal.


Ao comparar o número de médicos com menos de 31 anos com 0 dos que têm 60 ou mais, entre os anos de 2019 e 2024 (os seis anos necessários para completar o mestrado de Medicina), verificamos que em 2019 havia 10.166 médicos com menos de 31 anos e 13.610 com 65 ou mais anos. Em 2024 os números são respetivamente 10.153 e 20.861, ou seja, 3444 médicos com mais idade em 2019, e 10.708 em 2024Procurando dados mais antigos, 2015 é o último ano em que a estatística mostra mais médicos com menos de 31 anos do que médicos com 60 ou mais anos, respetivamente 9079 e 8764.Assim, podemos dizer que o declive de renovação de médicos nasce nesta data e amplia-se ao longo dos anos. Contudo, o orçamento do SNS cresceu mais de 60% desde 2015, uma verdade que todos devemos ter em conta, por ser o seu financiamento dependente dos nossos impostos.Em 2015, sendo Paulo Macedo ministro da Saúde, houve uma redução média de 30% no preço dos medicamentos, abriram-se novos hospitais, reforçaram-se os cuidados primários, aumentaram de produtividade as horas dos profissionais de saúde, reforçaram-se as progressões de carreira, diminuiu de 2,1 milhões para 1,2 milhões o número de portugueses sem médico de família atribuído.Se a remuneração dos profissionais de saúde é baixa, contribuindo para a saída de muitos para o sector privado, convém ter em conta que a relação tempo/eficiência no trabalho para a função pública calcula cerca de 40% de tempo perdido, contribuindo para um desperdício anual calculado em 1000 milhões de euros.No que ao sexo diz respeito, é interessante constatar que em 2019 havia 6829 médicas e 3337 médicos com menos de 31 anos, quando comparados com 4770 médicas e 8840 médicos com 60 ou mais anos. Em 2024 há um aumento significativo de médicas com menos de 31 anos (7005) e uma diminuição de médicos (3148), sendo muito superior o número de profissionais com 65 ou mais anos, respetivamente 8653 médicas e 12208 médicos.São assustadores todos estes números, tendo em conta que não é obrigatório fazer serviço de urgência a partir dos 55 anos, aumentando a dificuldade de preencher escalas nos serviços de urgência hospitalar.O envelhecimento dos profissionais de saúde está em linha com o envelhecimento da população, sendo fundamental criar condições para voltar a ter uma renovação de profissionais mais novos, algo que cessou em 2015.Para isso é preciso tornar mais interessante a profissão médica, abrir mais escolas médicas, públicas ou privadas, em locais estratégicos do país – tendo em conta que o curso de Medicina tem seis anos de aprendizagem a que se devem juntar outros seis anos para se obter a especialidade –, aumentar a remuneração salarial, com melhor aproveitamento do dinheiro desperdiçado em soluções erradas, cooperação com instituições privadas em sistema de complementaridade, acabando com separações ideológicas, contratação de gestores competentes interessados em trabalhar na função pública tendo como remuneração um salário digno, acabar com tarefeiros que cuidam preferencialmente do preço da hora de trabalho, não se importando que alguns serviços de urgência dependam de si para ter a porta aberta.


O orçamento para o sector da saúde em 2026 vai ser superior em 17,5 mil milhões de euros (14,9 mil milhões para o SNS) do previsto para 2025.Injetar dinheiro sem corrigir erros irá aumentar o desperdício pago com os nossos impostos.Manuel Pizarro, antigo ministro da Saúde, numa atitude louvável, copiou nas redes sociais um despacho publicado em Diário da República no dia 24 de Outubro autorizando “realização de entrada de capital para cobertura de prejuízos transitados das entidades públicas empresariais do Serviço Nacional de Saúde, com o seguinte comentário: “Dá que pensar, 2,5 milhões de euros para os hospitais do Porto, 127 milhões de euros para os hospitais de Lisboa”Não creio que seja necessário marcar consulta no psicanalista para decifrar os dados da saúde, corrigir a frigidez e apontar o desgoverno tão sedutor para um faz de conta.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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