Esquerda: para a saída da falácia de uma identidade
Passado o ciclo eleitoral autárquico, com o que ele poderia permitir de afastamento ao que menos interessa ao coletivo, centrando-se os debates no micro mais importante para o quotidiano, verificamos que a política se encontra irremediavelmente enredada em liames que a não deixam respirar o ar da vida coletiva, daquilo que identifica as comunidades e lhes dá coesão.Com imagem máxima em Lisboa, percebeu-se que a era em que uma “frente de esquerda” permitia vencer a direita, resultou exatamente no oposto. Isto é, a coligação com algumas forças cada vez mais vistas como radicais, poderá ter afastado algum eleitorado e, em vez dessas alianças trazerem votos, afastaram-nos. O PS, com o Bloco de Esquerda, vale menos que o PS sozinho.
E esta realidade advém do que já muitos teóricos e analistas afirmaram, no que respeita à esquerda se ter deixado afastar do que eram, desde a sua nascença, as suas causas, tornando órfãos os menos favorecidos da sociedade que, ironicamente, se viram agora para a extrema-direita, o único campo que dialoga diretamente com eles, afirmando reconhecer os seus problemas, mesmo que isso seja apenas retórica.Num mundo eleitoral de margens mínimas na contabilidade dos votos, foi útil a percentagem, mesmo que pequena, que permitiu governos, assim como foi tentador o ilusório rejuvenescimento que essas esquerdas mais radicais trouxeram à vida política. As causas mobilizam e dão um clima de luta que tão necessário era a um quadro político que precisava de ser abanado e revalorizado, centrado então em questões aparentemente técnicas de percentagens da dívida pública.Mas tudo tem um preço naquilo que qualquer parte de uma relação implica na outra. Como num casamento, ambos os lados se tornam parte do outro. Mais que influenciados, são nutridos um pelo outro. E assim se deu um namoro ardente em que, com toda naturalidade, a identidade de um se espraiou para a do outro.Muito se fala na implementação de um discurso do “politicamente correto”, que esvaziou e empobreceu o discurso político. Num resvalar moral em que se definiram certos e errados, em que se afirmou quem estava de um lado e se demonizou quem pensava diferente, não só se cortaram linhas de diálogo, como se alimentou uma direita radical que, sendo proscrita, se legitimou com essa “cerca sanitária”.Mas o que mais interessa são as representações que a sociedade, no seu geral, criou desta radicalização. Nesse casamento entre esquerda moderada e radical, não foi a segunda que se viu representada como menos radical, mas a primeira, a que aspira a ser o espaço de encontro de todos os que se encontram civicamente no centro e no centro-esquerda, que se viu conotada com uma natureza que não é a sua.E a representação não se encontra apenas na afirmação do discurso do “politicamente correto”, nem no da radicalização em si dos dois universos, direita e esquerda. O mais dramático é a forma como o radicalismo assente, não em visões globais e gerais da sociedade, mas apenas em causas, esgotou a possibilidade de representação da validade política da esquerda. Hoje, a esquerda moderada encontra-se refém, na forma como é percecionada, de uma imagem que não é a sua.Confundidos entre uns e outros, os cidadãos olham hoje para o PS e, muitos, representam-no com o olhar que têm da esquerda radical, como se esse partido histórico da nossa democracia se tivesse reduzido a uma única e pequena parte do espectro. O trabalho é árduo, mas necessário, para que não haja um irreversível empobrecimento da representatividade nacional, conduzindo a uma ainda maior radicalização.
É essa a distância que hoje há que percorrer, mas em sentido inverso, para dar novamente à esquerda democrática o conteúdo para a cidadania nela se encontrar. E os ciclos políticos estão de feição: eleições autárquicas que até não foram a hecatombe que tantos desejavam, e um candidato presidencial francamente recentrador do PS naquilo em que ele se deve (re)tornar, um espaço de encontro, não de exclusão, um lugar de pensamento sobre o global.Com todo um novo quadro, em que José Luís Carneiro é uma clara rutura com esse tempo de mal-entendidos, há que reforçar a capacidade comunicacional para deitar para trás essa dinâmica em que se esvaziou o PS da capacidade agregadora e de criação de respostas para a imensa mole de concidadãos que se sentem apartados do desenvolvimento.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990










