TECNOLOGIA

Ventos de mudança

Para evitar acusações tentadoras e expectáveis, e talvez justas, começo por reconhecer, de forma aberta e sincera, e com orgulho, que escrevo estas palavras movido por um afeto profundo. Contrariamente ao que se diz, por debaixo da carapaça racionalista, fria, analítica e aparentemente insensível dos cientistas há um coração que bate. A ciência, afinal, tem de ser também emocional e encantadora (sem perder rigor e objetividade, há necessidade de encantar revisores, avaliadores, financiadores). Por isso, manifesto, desde já, a minha enorme admiração, estima e apreço pelo novo reitor da Universidade Nova de Lisboa, o professor doutor Paulo Pereira.Falo na qualidade de primeiro estudante de doutoramento por ele orientado (também fui seu aluno de mestrado e licenciatura). Com o Paulo (agora já está devidamente justificada e desculpada a minha familiaridade) vivi anos marcados pela sua genialidade, pelo entusiasmo contagiante, pela nobreza de caráter, pela integridade inabalável e por uma honestidade que nunca cedeu ao oportunismo. Posso, como poucos, falar, com conhecimento de causa, sobre o excecional cientista, que um dia quis saber mais sobre a catarata, e que agora se torna reitor de uma das mais reputadas e prestigiadas universidades portuguesas.O início do seu percurso, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, já deixava entrever o brilho de quem estava destinado a grandes feitos, não só na investigação, mas também na gestão e na política científica. Um homem com visão, com ideias, com coragem para não se intimidar e acomodar aos interesses instalados. Um homem que conhece, como poucos, o mundo académico e o universo da investigação.


Não tenho dúvidas de que a Universidade Nova de Lisboa acaba de ganhar um magnífico reitor, um homem capaz de encetar as reformas necessárias ao progresso e à renovação da mentalidade reinante em muitas das nossas instituições e no próprio sistema científico e académico. É mais um sinal da mudança, de transformação, de frescura, esperança e otimismo, que espero se possa propagar a outras entidades em Portugal.Pela primeira vez, um investigador de carreira assume o lugar cimeiro de uma universidade no nosso país. Para além de um investigador de inegáveis qualidades, Paulo Pereira tem sido também um pedagogo exemplar e inspirador, daí ostentar, com legitimidade e justiça, o “título” de professor. Existe, em algum mundo académico, mais bafiento e conservador, uma espécie de subalternização dos investigadores em relação aos docentes, sendo os investigadores tantas vezes considerados uma “casta” menor quando comparada com a elite académica.Quantas e quantas vezes são os investigadores os verdadeiros professores, aqueles que, na verdadeira aceção da palavra, ensinam pelo exemplo, pela descoberta, pela curiosidade viva, enquanto outros, apesar do título que majestosamente ostentam, se limitam a cumprir o ritual de algumas (poucas) horas de aula por semestre, ou por ano e, com isso, granjeiam o respeito e admiração de toda a comunidade.Esta nomeação é, por isso, mais do que simbólica, é também um gesto de justiça, um reconhecimento da dignidade da investigação científica. Talvez seja o primeiro passo para uma academia mais coesa e mais justa, onde ensinar e investigar sejam, finalmente, duas faces da mesma missão. Espero que o novo reitor seja uma lufada de ar fresco e inspire mais mudanças no nosso atávico sistema académico e científico e devolva à universidade o seu verdadeiro propósito: produzir conhecimento para ensinar melhor, e ensinar melhor para transformar o mundo.O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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