TECNOLOGIA

China discute novo plano quinquenal em plena guerra comercial com os EUA

Em plena tensão comercial com os Estados Unidos, a elite dirigente do Partido Comunista Chinês (PCC) começa esta segunda-feira a discutir o próximo plano quinquenal, que definirá as orientações da economia chinesa para o período 2026-2030.O encontro, à porta fechada e conhecido como quarto plenário, deverá durar quatro dias e servirá para dar os retoques finais num plano destinado a enfrentar os muitos desafios que a economia chinesa enfrentará até ao final da década, a começar com a guerra tarifária com Washington, e acontece pouco antes de uma possível reunião entre o Presidente Xi Jinping e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cimeira da ASEAN, no final do mês.A meta de Pequim para o que será o 15.º plano quinquenal é clara: crescer cerca de 5% ao ano, mesmo com a desaceleração do consumo interno e a instabilidade global. Para isso, o Governo de Xi Jinping aposta na chamada “dupla circulação”, uma estratégia que procura reduzir a dependência das exportações e dinamizar o mercado doméstico.Para tal, espera-se que os delegados do PCC incluam no plano que será oficialmente apresentado em Março do próximo ano o compromisso de adoptar medidas fortes para estimular o consumo interno e corrigir os históricos desequilíbrios entre oferta e procura que, nesta altura, ameaçam o crescimento a longo prazo da segunda maior economia do mundo.Os analistas afirmam que, na prática, a guerra comercial com os EUA provavelmente manterá o Governo de Pequim focado na modernização industrial e em avanços tecnológicos, o que significa que os recursos continuarão, em grande parte, a fluir para fábricas e investimentos estratégicos, em vez de para os consumidores.


A aposta na tecnologia poderá, assim, consolidar as conquistas da China no desenvolvimento de indústrias líderes mundiais, como veículos eléctricos ou energia verde, e abrir oportunidades em outros sectores onde ainda está atrás dos seus rivais, como os semicondutores ou a indústria aeronáutica.O novo plano quinquenal irá “enfatizar o apoio à investigação de alta tecnologia e ao desenvolvimento industrial”, afirmou Chen Bo, investigador sénior no Instituto de Estudos do Leste Asiático da Universidade Nacional de Singapura, citado pela Reuters.Num discurso publicado em Julho pela revista Qiushi, do Partido Comunista, Xi Jinping afirmou que o mundo atravessa “mudanças sem precedentes em cem anos”, em que “a revolução tecnológica e a competição entre grandes potências estão cada vez mais interligadas.” O líder chinês apelou à nação para garantir a “posição estratégica dominante” na corrida tecnológica global.Mas, com excepção de alguns sectores de ponta, as cadeias de abastecimento chinesas permanecem largamente domésticas.Apesar da esperada narrativa de auto-suficiência no plenário que começa esta segunda-feira, a China enfrenta sérias fragilidades estruturais. A crise imobiliária — que afundou gigantes como a Evergrande e a Country Garden — arrasta-se há mais de dois anos e ameaça as finanças regionais. O Governo central tem injectado liquidez e permitiu emissões especiais de obrigações para estabilizar os governos locais, mas os efeitos têm sido limitados. Além disso, o desemprego jovem ultrapassa os 15% e a confiança das pequenas empresas permanece fraca.Reforço do controlo políticoO plenário deverá igualmente servir para renovar parte do Comité Central, consolidando o domínio de Xi sobre o aparelho partidário. Segundo o South China Morning Post, poderão ser substituídos até nove membros, incluindo figuras associadas a correntes mais liberais ou tecnocráticas.


Desde o 20.º Congresso do PCC, em 2022, Xi tem promovido uma recentralização sem precedentes: o partido reforçou a supervisão sobre universidades, empresas tecnológicas e meios de comunicação, e ampliou o papel das comissões disciplinares.Um primeiro sinal de força foi dado dias antes do plenário, com a expulsão, do partido e das Forças Armadas, de dois altos líderes militares chineses por acusações de corrupção: He Weidong, o segundo general mais graduado da China, e o almirante da marinha Miao Hua, ex-oficial político de alto escalão das Forças Armadas chinesas.A destituição de He foi mesmo a primeira de um general em exercício na Comissão Militar Central desde a Revolução Cultural de 1966-1976. He não é visto em público desde Março, mas a investigação das suas actividades não foi divulgada anteriormente pelas autoridades chinesas.“Xi está definitivamente a fazer uma limpeza. A destituição formal de He e Miao significa que poderá nomear novos membros da Comissão Militar Central — que está praticamente pela metade desde Março — no plenário”, considera Wen-Ti Sung, membro do Global China Hub do Atlantic Council.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.