Os bons encontros de António Borges Coelho
A organização de uma biblioteca popular em Murça, sua terra natal, foi provavelmente o primeiro motivo das suspeitas que levaram António Borges Coelho a ser perseguido e reprimido pela ditadura durante mais de duas décadas. Nascido em 1928 na região de Trás-os-Montes, o nosso futuro historiador acreditava que a cultura do livro tinha uma função a cumprir na luta contra a ditadura e pelo progresso social. E, diante do regime que o acusava de trair a pátria e sua cultura, por mais do que uma vez retorquiria que era no preço inclemente do livro que se comprovava quem verdadeiramente falhava ao país. O antifascismo de António Borges Coelho e de muitos da sua geração era matéria de liberdade, mas também uma questão de igualdade.Entretanto, a obra de António Borges Coelho não se resume à apologia do progresso cultural e científico, de que o antifascismo de homens como Bento de Jesus Caraça foi exemplar, nem tão pouco à denúncia da natureza de classe do nacionalismo do regime, denúncia que dirigentes comunistas como Álvaro Cunhal uma e outra vez empreenderam. Ainda nos anos de 1950, Borges Coelho comprometer-se-ia com o MUD Juvenil e com o próprio Partido Comunista Português, o que o levaria à prisão, sendo que seria em Peniche, num coletivo de discussão que reunia camaradas como Cunhal, Carlos Costa e Francisco Martins Rodrigues, que o seu interesse pela História se apuraria.Acompanhando estudiosamente os escritos históricos que Cunhal iniciara na longa prisão há mais de uma década sujeito, mas também lendo apaixonadamente as crónicas de Fernão Lopes, o futuro historiador António Borges Coelho desenvolve um interesse crescente pela revolução de 1383, da qual acabará por fazer a chave de leitura de toda a história de Portugal: na revolução se anteciparia a modernidade de um país porvir, a ela afluiria a memória viva de práticas comunais mais difusas.Mais ainda, na longa genealogia a que Borges Coelho submete o acontecimento revolucionário, este revela-se não apenas um momento em que se confundem diferentes tempos históricos, mas em que diferentes geografias se entrelaçam. O seu contributo seminal para o estudo da presença árabe na Península Ibérica e a sua formulação da questão das raízes da expansão portuguesa, no dealbar das lutas de libertação travadas em África contra o colonialismo português, são de tanto exemplo.Sensível à cultura historiográfica portuguesa – do gosto pela escrita de Oliveira Martins ao interesse pelo municipalismo de Herculano, passando pela leitura da expansão em António Sérgio –, o percurso de Borges Coelho ganhará em ser compreendido, ele também, num cenário mais internacional. Poderíamos neste contexto falar de um certo romantismo marxista tendente à consideração – se não mesmo ao encantamento – de um passado mais antigo do que a contemporaneidade. Não por acaso, os escritos históricos de Cunhal sobre as lutas de classes nos finais da Idade Média foram primeiro publicados em francês ao lado de contributos de Eric Hobsbawm em torno de formações sociais pré-capitalistas.É também neste cenário que, mais do que o elemento nacional (que Borges Coelho concluiria ser um produto do Estado e não tanto o inverso), vemos o nosso historiador acarinhar uma certa noção de popular, em cumplicidade com uma conceção da história como aquilo que em comum se decide, preferencialmente no âmbito do que alguém um dia cunhou como “bons encontros”. A estrutura económica e social pesa, a vontade dos indivíduos conta, mas os encontros comunais ou concelhios decidem.
A sua obra, é claro, foi tudo menos consensual. Foi perseguida pela PIDE, primeiro e desde logo. Os seus escritos fizeram também polémica com outros historiadores próximos do PCP, como Armando Castro, a quem Borges Coelho recordava – com um certo aroma soixante-huittard – que as estruturas não andam nas ruas.
A sua obra, é claro, foi tudo menos consensual. Foi perseguida pela PIDE, primeiro e desde logo. (O impacto de um livro como As Raízes da Expansão Portuguesa, sublinhado por historiadores como Rui Ramos, antecipou debates em torno da descolonização que hoje frequentemente julgamos estar a iniciar). Os seus escritos fizeram também polémica com outros historiadores próximos do PCP, como Armando Castro, a quem Borges Coelho recordava – com um certo aroma soixante-huittard – que as estruturas não andam nas ruas. Ainda nos anos 80, os seus livros seriam também objeto de críticas contundentes por parte de José Mattoso e parte importante da comunidade académica faria da ressonância ideológica da história escrita por Borges Coelho o fundamento negativo da sua própria autoridade científica.Nenhum destes conflitos o deixou amargurado. Era um homem generoso, bom e bonito, qualidades que, sem prejuízo de deverem ao seu “carácter” e “personalidade”, testemunhavam também a sua forma de experienciar a filosofia da história de que singularmente participou. Com um brilhozinho nos olhos, recordarei sempre as conversas que tive o benefício de com ele manter quando realizei a minha tese de doutoramento, de cujo enredo se tornou uma figura destacada.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990










