SAÚDE E BEM ESTAR

Por que devemos falar em envelhecimento saudável e estimulação cognitiva?

“A Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030 da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS-OMS) é a principal estratégia vigente para construir uma sociedade para todas as idades. Esta política pública global reúne os esforços dos governos, da sociedade civil, das agências internacionais, das equipes profissionais, da academia, dos meios de comunicação social e do setor privado para melhorar a vida das pessoas idosas, das suas famílias e das suas comunidades”.
Esse teor, extraído da OPAS-OMS, sinaliza a necessidade de um envelhecimento populacional saudável, uma questão de saúde pública mundial e que já requer atenção especial em muitos países. Não é somente um problema. É o apontamento que deve nortear a elaboração de soluções sustentáveis para o público 60+, reforçando que o envelhecimento já é uma transformação demográfica no Brasil, e não apenas uma tendência.

De acordo com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o envelhecimento da população brasileira já é uma realidade e tende a se intensificar nas próximas décadas. As projeções populacionais indicam que, entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no país, passando de 8,7% para 15,6%. Já são cerca de 33 milhões de pessoas com 60 anos e mais, superando até mesmo a faixa mais ampla de jovens entre 15 e 24 anos.
Essa tendência deve continuar: a estimativa é que, em 2070, aproximadamente 37,8% dos brasileiros estarão nessa faixa etária. O avanço da longevidade, associado à redução do número de nascimentos e à queda da taxa de fecundidade, reforça a necessidade de estratégias voltadas à promoção do envelhecimento saudável, da autonomia e do bem-estar na velhice.

Além da previdência, da assistência social e das redes de apoio, ficam perguntas de milhões de pessoas. Temos políticas públicas efetivas para atender as demandas da população 60+? Podemos dizer que a prevenção é uma estratégia eficaz para a jornada do envelhecimento saudável?

Continua após a publicidade

Envelhecer com autonomia exige olhar para a prevenção
Na área da prevenção, ainda há muito a avançar. Mas isso depende de vontade política e de investimentos capazes de garantir, no médio prazo, oportunidades e acesso a serviços de saúde. É preciso implementar ações com metas e resultados mensuráveis, além de definir que modelo de envelhecimento queremos construir para o país e como atender às novas necessidades que surgem com essa transição demográfica.
São muitos aspectos que poderíamos discutir, claro, mas um deles, sem dúvidas, envolve o envelhecimento, a saúde e a prevenção, sobretudo no mês do Dia Mundial de Cuidados com a Saúde do Cérebro. Afinal, a população idosa tem uma preocupação a mais relacionada às mudanças cognitivas esperadas do envelhecimento cerebral, como maior lentidão de processamento de informações e de memorização recente associadas à idade.
Adotar medidas para uma longevidade ativa e saudável é uma meta prioritária diante do crescimento exponencial da população idosa, inclusive para evitar e prevenir riscos de internações, hospitalizações, desenvolvimento de comorbidades e uso excessivo de medicamentos para esse público.

Continua após a publicidade

Estudo brasileiro de estimulação cognitiva
Como exemplo prático, temos os resultados de um estudo brasileiro feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital das Clínicas da USP, que demonstrou que a estimulação cognitiva é uma estratégia com vantagens comprovadas para a população 60+.
Por meio de exercícios de cálculos mentais com o uso do ábaco, jogos de tabuleiros e cartas e atividades interativas, esse trabalho, publicado em 2026, atestou que o método utilizado (Supera) trouxe redução de 60% nas queixas cognitivas, melhora de aproximadamente 45% na memória ao longo de um ano (considerando as habilidades de funções executivas e cognição geral) e a redução de 29% dos sintomas depressivos.
Estimular o cérebro, desenvolver habilidades cognitivas e manter a criatividade ativa são estratégias fundamentais para envelhecer bem. Mais do que conceitos teóricos, precisamos transformar esse conhecimento em ações concretas que promovam saúde física e mental ao longo da vida.

Continua após a publicidade

Lidar com a população idosa e com a sua diversidade envolve a promoção e o acesso às medidas que ofereçam ganhos, como a estimulação cognitiva e outras estratégias que visem aprimorar o estilo de vida de todos os longevos. Isso deve ser prioridade e com repercussão bastante positiva na qualidade de vida das pessoas, mas ainda precisamos de maior conscientização e sensibilização. Afinal, uma sociedade digna para pessoas idosas é uma sociedade boa para todas as idades.
Temos desafios cada vez mais urgentes diante do crescimento expressivo da população idosa. É fundamental estabelecer estratégias de promoção da saúde e prevenção do declínio das funções cognitivas e da perda de funcionalidade. Os benefícios são expressivos, e precisamos transformar esse conhecimento em ações presentes no cotidiano da sociedade brasileira — não apenas como teoria, mas na prática, nos diferentes setores e serviços.
O envelhecimento saudável não deve ser entendido apenas como uma consequência do aumento da expectativa de vida, mas como uma construção que começa muito antes da chegada à velhice. Informação, prevenção e estímulos adequados são recursos essenciais para que as pessoas possam envelhecer com mais autonomia, participação social e qualidade de vida. O desafio da sociedade atual não é apenas viver mais, mas criar condições para que a longevidade seja acompanhada de saúde física, emocional e cognitiva.

Continua após a publicidade

Thais Bento Lima da Silva – Docente do Curso de Bacharelado em Gerontologia Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP). Pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Sonia Maria Dozzi Brucki – Professora Associada do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Pauloe Coordenadora do Programa de Pós-graduação – Departamento de Neurologia FMUSP e do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento – GNCC (HCFMUSP) e da Neurologia do Centro de Referência em Distúrbios Cognitivos (CEREDIC) (HCFMUSP).
Referências:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.