SAÚDE E BEM ESTAR

A conta da longevidade: brasileiros passam 12,5 anos com doenças ou limitações

O brasileiro nunca viveu tanto. Mas os anos extras conquistados graças aos avanços da medicina, da vacinação e das condições de vida estão vindo acompanhados de mais tempo convivendo com doenças e limitações. Um estudo publicado na revista The Lancet Public Health mostra que, embora a expectativa de vida tenha aumentado nas últimas décadas, o período que envolve doenças, limitações ou incapacidades também cresceu.
Segundo a análise, baseada nos dados do Global Burden of Disease (GBD) 2023, o brasileiro passa, em média, 12,5 anos da vida convivendo com algum problema de saúde. Em 1990, esse período era de 10,4 anos. Em pouco mais de três décadas, houve um aumento de 2,1 anos, equivalente a cerca de 20%.

O levantamento analisou informações de 204 países e territórios e coloca o Brasil na 16ª posição entre as nações com maior número de anos vividos com alguma doença ou limitação.
Para Eduardo Ferriolli, professor titular da disciplina de Geriatria do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), esse aumento não representa um retrocesso, mas a consequência de uma mudança no perfil das doenças que acometem os brasileiros.

“O brasileiro vem se tornando muito mais longevo. Nos últimos 30 anos, a expectativa de vida ao nascer passou de cerca de 68 anos para 76,4 anos, um ganho de cerca de 8,5 anos. Isso se deveu a melhorias na atenção à saúde e saneamento, vacinação e diagnóstico precoce de doenças, entre outros fatores. No entanto, acompanhando este processo, houve uma transição epidemiológica também importante, com a redução da incidência e prevalência de doenças infectocontagiosas, que causam alta mortalidade em fases mais precoces da vida e aumento das doenças crônico-degenerativas e relacionadas ao envelhecimento, como as doenças cardiovasculares, o diabetes, as demências e o câncer”, avalia o especialista.
Essas doenças são altamente debilitantes a longo prazo. Com o progresso das tecnologias e suporte à saúde, no entanto, elas têm duração prolongada e se associam a um maior tempo médio vivido com doenças, acrescenta Ferriolli.

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A pesquisa reforça uma mudança importante na forma de avaliar o envelhecimento da população. Não basta considerar apenas a expectativa de vida, mas também a expectativa de vida saudável, ou seja, quantos anos uma pessoa consegue viver sem doenças ou incapacidades significativas.
Mais anos de vida, mas nem todos com saúde
Os pesquisadores calcularam um indicador chamado lacuna de morbidade, que corresponde à diferença entre a expectativa total de vida e a expectativa de vida saudável. Em outras palavras, é o tempo médio em que uma pessoa vive com doenças crônicas, limitações funcionais ou incapacidade.
No Brasil, essa diferença aumentou de forma praticamente contínua desde 1990. O índice passou para 11,2 anos em 2010, chegou a 11,7 em 2020 e apresentou uma pequena redução durante a pandemia de covid-19. Os autores explicam, porém, que essa queda não refletiu melhora da saúde da população, já que tanto a expectativa de vida quanto a expectativa de vida saudável diminuíram naquele período, mantendo praticamente a mesma distância entre elas.
Após a pandemia, a tendência voltou a se intensificar. A lacuna de morbidade saltou para 12,2 anos em 2022 e alcançou 12,5 anos em 2023, crescimento superior ao observado historicamente.

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O cenário brasileiro acompanha uma tendência global. Em todo o mundo, a lacuna de morbidade aumentou de 8,8 anos, em 1990, para 10,7 anos em 2023. Hoje, em média, 14,5% da vida é vivida em condições de saúde precárias, proporção maior do que os 13,6% registrados há pouco mais de três décadas.
Os resultados mostram que os avanços da medicina e das condições de vida conseguiram prolongar a sobrevivência da população, mas não na mesma velocidade em que ampliaram os anos livres de doença. Globalmente, a expectativa de vida ao nascer passou de 64,6 anos, em 1990, para 73,8 anos em 2023. Já a expectativa de vida saudável aumentou de 55,9 para 63,1 anos no mesmo período.
O que pode mudar esse cenário?
Para Ferriolli, aumentar a expectativa de vida saudável depende de ações que começam muito antes da velhice. “Em primeiro lugar, é importante o controle de fatores de risco sociais e de saúde ao longo da vida. Baixa escolaridade e baixa renda, por exemplo, são fatores de risco evidentes para várias doenças crônicas”, cita o médico.
O geriatra menciona ainda fatores como obesidade e subnutrição, hipertensão, diabetes, tabagismo, depressão, isolamento social, baixo nível de atividade física e elevados níveis de estresse, que são fortemente associados a doenças crônicas.

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“A promoção da saúde focando na prevenção dessas condições é fundamental, e essa poderia ser melhor integrada. O Brasil tem vários programas para doenças específicas (diabetes e hipertensão, por exemplo), mas a sua integração ainda é deficiente”, avalia.
O geriatra afirma que também é necessário mudar a lógica da assistência à população idosa, priorizando a preservação da funcionalidade em vez de apenas tratar doenças já instaladas. Ele cita como referência a proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio do programa ICOPE (Cuidados Integrados à Saúde da Pessoa Idosa), que acompanha seis capacidades fundamentais: cognição, aspectos psicológicos, locomoção, vitalidade, visão e audição, com o objetivo de identificar precocemente perdas e promover um envelhecimento mais saudável.
Segundo Ferriolli, a iniciativa, já testada em diferentes países, integra ações das áreas de saúde, assistência social e outros setores da sociedade e seria uma política viável para reduzir os anos vividos com doenças no Brasil.
As doenças que mais pesam
Mais da metade dos anos vividos com problemas de saúde no mundo está concentrada em um grupo relativamente pequeno de condições crônicas. As principais são:

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Distúrbios musculoesqueléticos, especialmente dor lombar;
Transtornos mentais, como depressão e ansiedade;
Doenças dos órgãos dos sentidos, incluindo perda auditiva relacionada à idade;
Quedas e outras lesões não intencionais;
Outras doenças crônicas não transmissíveis.

Já entre os fatores de risco mais associados à perda de anos saudáveis estão glicemia elevada, excesso de peso, desnutrição materno-infantil e tabagismo.

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