SAÚDE E BEM ESTAR

Canetas emagrecedoras: testes genéticos ajudam a prever a resposta ao tratamento?

Tenho visto propagandas de testes de DNA para “apoiar” o uso de semaglutida e tirzepatida — as famosas canetas emagrecedoras.
A proposta é sedutora: um exame de sangue ou saliva que ajudaria médico e paciente a escolher a dose certa e evitar efeitos colaterais. Mas o que a ciência realmente sabe sobre genética e resposta a esses medicamentos é bem mais modesto do que a publicidade sugere.

O estudo mais robusto já publicado sobre o tema, feito pelo 23andMe Research Institute com quase 28 mil pessoas e divulgado na revista Nature, identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada a maior perda de peso.
Só que o ganho extra é pequeno: cerca de 0,76 kg a mais por cópia do alelo favorável. E mesmo somando essa informação genética a fatores clínicos como idade, sexo e IMC, o conjunto explica apenas cerca de um quarto da variação na resposta ao tratamento. Ou seja: três quartos do motivo pelo qual uma pessoa emagrece mais que outra continuam sem explicação — genética ou não.

Há também o outro lado da moeda que a propaganda dificilmente menciona: a mesma variante do GLP1R ligada a mais perda de peso também aparece associada a mais náusea e vômito, e pessoas com variantes de risco em dois genes diferentes tiveram chance muito maior de apresentar vômito com tirzepatida.

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Prever “melhor resposta” genética pode, na prática, significar prever mais efeito colateral também.
E existe uma pergunta que nenhum exame de DNA responde: o que é, afinal, “boa resposta”? Para uma pessoa, pode ser perder 15% do peso. Para outra, o sucesso é normalizar a glicemia, respirar melhor à noite ou reduzir o risco de infarto — independente do ponteiro da balança.
Um estudo recente com pacientes cardiovasculares mostrou benefício de mortalidade e proteção ao coração mesmo sem relação direta com a quantidade de peso perdida, sugerindo que esses remédios agem por caminhos que vão além do emagrecimento. Um teste genético focado só em “quantos quilos” se perde ignora essa complexidade.

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Isso não quer dizer que a pesquisa genética não tenha valor — ela é promissora e pode, no futuro, ajudar a personalizar tratamentos. O problema é o descompasso entre o estágio atual da ciência e a forma como esses exames são vendidos ao público, como se já fossem capazes de indicar, com precisão, quem vai responder bem ou mal a uma caneta emagrecedora. Isso ainda não é verdade.
Portanto, a recomendação não tem mistério: converse com seu médico. Ele pode avaliar sua história clínica, seus objetivos e ajustar dose e acompanhamento — sem depender de uma promessa genética que a ciência ainda não sustenta.

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