SAÚDE E BEM ESTAR

As bets e a nova arquitetura da impulsividade humana

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O mercado de apostas online tornou-se uma indústria digital bilionária, com novas modalidades e uma normalização perigosa. O artigo explora como mecanismos neurológicos e a tecnologia impulsionam a compulsão, tornando as apostas um grave problema de saúde pública que exige regulação do ambiente, não apenas tratamento individual.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em poucos anos, apostar deixou de ser uma atividade relativamente restrita a cassinos, bingos, corridas de cavalos e loterias para se tornar uma das maiores indústrias digitais do planeta. O mercado global de apostas movimenta hoje centenas de bilhões de dólares por ano e as projeções indicam que continuará crescendo rapidamente na próxima década. Ainda assim, esses números provavelmente subestimam a dimensão do fenômeno.
As apostas esportivas e jogos de cassinos online como o “Tigrinho” continuam sendo a porta de entrada mais conhecida desse universo. No Brasil, inúmeras plataformas passaram a fazer parte do dia a dia. Mas a indústria mundial já avança muito além. Parte importante de sua expansão recente vem dos chamados mercados de previsão, plataformas nas quais usuários apostam sobre eleições, guerras, decisões de bancos centrais, pandemias, eventos esportivos e praticamente qualquer acontecimento futuro.

Só a Kalshi movimentou cerca de US$ 23,8 bilhões em contratos em 2025 — mais de dez vezes o volume do ano anterior — e a Polymarket seguiu trajetória de expansão semelhante. Embora se apresentem como instrumentos para agregar informação ou produzir previsões mais precisas, continuam sendo, na prática, mais uma – e gigantesca – modalidade de aposta.

Essa forma de apresentação não é trivial. Algumas dessas plataformas orientam seus usuários a “analisar dados e tendências” para “lucrar com decisões acertadas”, sugerindo que habilidade e conhecimento seriam suficientes para controlar resultados essencialmente incertos. Informação pode tornar previsões mais sofisticadas, mas não elimina a imprevisibilidade dos acontecimentos futuros. Ao insinuar o contrário, reforçam um dos vieses cognitivos mais conhecidos da psicologia: a ilusão de controle, isto é, a tendência de superestimar a própria capacidade de influenciar resultados que dependem predominantemente do acaso. Trata-se de um dos mecanismos psicológicos descritos no comportamento de apostar.
Pouco a pouco — e depois repentinamente — as apostas passaram a ocupar um espaço cotidiano. E, dessa forma, têm se tornado normalizadas. A promoção de plataformas de apostas por influenciadores com milhões de seguidores, por plataformas de streaming e por profissionais das transmissões esportivas tornou-se parte da paisagem. Embora haja crescente reação da sociedade civil e de alguns artistas, a prática se disseminou em uma velocidade impressionante.
As apostas estão nas transmissões esportivas, nas camisas dos clubes de futebol, nas redes sociais, nos aplicativos de celular e, agora, também na cobertura política e econômica. Tornou-se cada vez mais comum acompanhar um campeonato, uma eleição ou mesmo uma decisão sobre taxas de juros com uma plataforma convidando-nos a apostar no resultado.

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Estamos diante da convergência entre indústrias que, até pouco tempo, permaneciam relativamente separadas. Jogos eletrônicos, apostas e especulação financeira fundem-se em um único ecossistema digital, no qual cada componente amplia o alcance e o crescimento dos demais. Smartphones, redes sociais, inteligência artificial, blockchain e lacunas regulatórias tornam essa convergência especialmente poderosa. Não se trata apenas de uma nova forma de entretenimento. Trata-se de uma nova arquitetura da impulsividade humana.
No Brasil, as bets foram regulamentadas no final de 2023 sob a promessa de conciliar liberdade econômica com proteção ao consumidor. A legislação incorporou mecanismos de “jogo responsável”, como autoexclusão, identificação obrigatória dos usuários e algumas ferramentas de monitoramento e restrições do marketing. São medidas importantes, mas claramente insuficientes diante da velocidade da expansão da indústria.
Em tempo recorde, praticamente todos os grandes clubes de futebol brasileiros passaram a depender, em maior ou menor grau, do dinheiro das empresas de apostas.O argumento justificando tal infiltração no futebol é conhecido: sem esse dinheiro, o esporte perderia competitividade. Talvez seja verdade, temporariamente. Mas também já ouvimos justificativas semelhantes da indústria do tabaco – que foi patrocinadora central de atividades esportivas e artísticas no passado.
Apostando com neurônios
Do ponto de vista neurológico, apostas representam uma combinação particularmente poderosa de elementos capazes de induzir compulsão. O principal deles é o chamado reforço intermitente ou variável: recompensas imprevisíveis, distribuídas de maneira irregular, geram um condicionamento mais intenso do que recompensas previsíveis.

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O cérebro libera dopamina não apenas quando a recompensa chega, mas sobretudo na antecipação e na incerteza. A expectativa de ganhar pode ser tão ou mais estimulante do que o ganho em si. Além disso, apostas exploram o fenômeno das “quase-vitórias”, resultados que são interpretados subjetivamente como sinal de que “faltou pouco”, aumentando a motivação para continuar. Some-se a isso a ilusão de controle citada acima— e temos uma fórmula especialmente eficiente para manter pessoas engajadas, mesmo diante de perdas sucessivas.
Esse mecanismo se torna ainda mais perigoso quando associado à velocidade e ao design tecnológico. Em apostas esportivas ao vivo, por exemplo, há dezenas de oportunidades de aposta em uma única partida: próximo escanteio, próximo cartão, próximo gol. Em plataformas de “crash”, cada rodada dura segundos. Quanto menor o intervalo entre impulso, ação e resultado, maior o potencial de reforço comportamental.
A tecnologia também permite personalização de notificações, crédito facilitado e campanhas direcionadas. Em outras palavras: a aposta deixa de ser um evento ocasional e se transforma em um fluxo contínuo. Trata-se de um sistema cuidadosamente desenhado para fazer nosso cérebro insistir.
Não surpreende, portanto, que os prejuízos possam se acumular em uma velocidade igualmente inédita. Quando surgem problemas relacionados ao jogo, os efeitos podem ser devastadores não apenas para quem aposta, mas para todos ao seu redor. Em questão de semanas ou meses, uma pessoa pode perder as economias da família, vender a casa, comprometer a educação dos filhos, acumular dívidas impagáveis e recorrer a empréstimos, fraudes ou crimes para continuar jogando.

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O sofrimento raramente termina no apostador. Ele se espalha pelo parceiro, pelos filhos, pelos pais e por todos aqueles que compartilham sua vida — em média, seis pessoas além do próprio jogador. Os problemas relacionados às apostas não destroem apenas patrimônio; corroem a confiança, a estabilidade emocional e projetos de vida construídos ao longo de décadas.
A essa altura, deveria estar claro — embora para muitos ainda não esteja — que as apostas deixaram de ser um problema restrito a indivíduos particularmente vulneráveis. Durante grandes competições esportivas, como a atual Copa do Mundo de futebol, milhões de brasileiros — incluindo crianças e adolescentes — são expostos repetidamente à publicidade de apostas. Quanto mais precoce essa exposição, maior o risco de desenvolver problemas relacionados ao jogo ao longo da vida.
Muito antes de terem idade legal para apostar, muitos já dominam a linguagem das odds, dos bônus e do cash out (a possibilidade de encerrar uma aposta antes do resultado final, reduzindo perdas ou garantindo um ganho parcial) e passam a enxergar as apostas como parte inseparável da experiência esportiva.
Saúde pública
Estamos diante de um problema de saúde pública em rápida expansão. Uma comissão internacional publicada pela revista médica The Lancet estima que cerca de 80 milhões de adultos tenham transtorno do jogo, mas que quase meio bilhão de pessoas já apresente comportamento de risco ou sofra algum tipo de dano relacionado às apostas. Os dependentes representam apenas a ponta do iceberg.

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Existe tratamento, e ele deve ser ampliado. A terapia cognitivo-comportamental continua sendo a intervenção com melhores evidências, e alguns medicamentos podem ajudar a controlar a impulsividade ou tratar transtornos associados, como depressão, TDAH e ansiedade.
Do ponto de vista da saúde pública, porém, a escala da resposta terapêutica é incomparavelmente menor do que a escala dos estímulos produzidos pela indústria das apostas. Não faz sentido imaginar que sessões de terapia, acompanhamento clínico e uma família vigilante consigam neutralizar um ecossistema que investe bilhões de dólares para tornar as apostas cada vez mais frequentes, personalizadas e difíceis de evitar. É uma disputa profundamente desigual.
É por isso que a experiência internacional merece atenção. Nos últimos anos, diversos países passaram a discutir não apenas como tratar quem desenvolve dependência, mas também como reduzir a exposição da população às estratégias de marketing e aos mecanismos que estimulam o jogo contínuo. A pergunta deixou de ser apenas “como tratar o transtorno?” e passou a incluir outra, igualmente importante: “como evitar que um ambiente tão favorável ao jogo produza cada vez mais pessoas em risco?”
Foi exatamente essa mudança de perspectiva que orientou o trabalho de uma comissão parlamentar australiana presidida pela deputada Peta Murphy. O relatório, significativamente intitulado You win some, you lose more, propôs tratar as apostas, antes de tudo, como uma questão de saúde. Entre suas recomendações estavam a proibição progressiva da publicidade — em moldes semelhantes aos adotados para o tabaco —, a criação de um órgão regulador independente voltado à redução de danos e regras mais rigorosas para proteger consumidores, especialmente crianças e adolescentes.

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As propostas provocaram forte reação da indústria e foram implementadas apenas parcialmente. Ainda assim, o relatório produziu uma mudança importante: deslocou o foco do indivíduo para o ambiente. Em vez de perguntar apenas por que algumas pessoas desenvolvem dependência, passou a questionar como um mercado inteiro foi organizado para aumentar o tempo de exposição, a frequência das apostas e o consumo.
Esse também é o desafio para o Brasil. Podemos reconhecer que alguns tipos de apostas existem há tempos e podem ter um aspecto divertido e até social. Mas não estamos falando mais dos bolões da Copa do Mundo, da aposta ocasional entre amigos, da ida presencial para apostar na loteria ou mesmo da visita eventual a um cassino durante uma viagem.
O que é novo é uma indústria com capacidade de estudar o comportamento humano em tempo real, testar milhares de estratégias de engajamento, utilizar inteligência artificial para personalizar ofertas, ocupar o esporte, as redes sociais e o entretenimento e transformar praticamente qualquer evento — de uma partida de futebol a uma eleição presidencial — em uma oportunidade para apostar.
Estamos além do momento de apenas tratarmos pessoas impulsivas. Hoje precisamos aprender a regular arquiteturas inteiras desenhadas para produzir impulsividade. Quando o ambiente passa a produzir doença em escala, é o próprio ambiente que precisa ser transformado.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), entre outros livros. Foi consultora da OMS e da OPAS e professora da Universidade Colúmbia. Siga a colunista no Instagram: @ilanapinsky_

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