‘Café pode ser associado a envelhecimento cerebral mais saudável’, diz nutricionista
Na primeira refeição do dia ou no intervalo pós-almoço, tomar uma xícara de café já é um hábito para espantar o sono e ter uma sensação de bem-estar. Mas a ciência sabe há muito que os benefícios vão além e colocou a bebida revigorante no centro de estudos que investigam seus impactos no organismo.
Agora, as pesquisas estão se aprofundando nos efeitos no cérebro e indo além do processo de ficar mais desperto. Os resultados indicam que o café pode exercer uma ação contra as demências, inclusive a mais temida: a doença de Alzheimer.
Conforme mostrou reportagem de VEJA, um robusto estudo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostrou uma redução de 18% no risco de desenvolvimento de demências entre pessoas que tomavam duas a três xícaras da bebida por dia.
Na entrevista a seguir, a nutricionista Camille Perella Coutinho, doutora em Ciência de Alimentos pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Laboratório de Tecnologia de Alimentos e Nutrição do Departamento de Biociências da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), comenta as principais hipóteses para os efeitos benéficos do café para a saúde dos neurônios.
Estudos recentes têm investigado o potencial do café para reduzir o risco de declínio cognitivo e apontaram índices benéficos que variam de 18% a 27%. Por que a bebida tem despertado o interesse de pesquisadores? O café tem chamado a atenção dos pesquisadores porque é uma das bebidas mais consumidas no mundo e no Brasil, além de ser uma fonte importante de compostos bioativos que podem atuar em diferentes mecanismos relacionados ao envelhecimento cerebral. Além da cafeína, o café contém compostos fenólicos, além de substâncias como trigonelina, cafestol e kahweol. Esses compostos apresentam propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, que podem ajudar a proteger os neurônios contra danos associados ao envelhecimento e às doenças neurodegenerativas. Nos últimos anos, estudos têm sugerido que pessoas que consomem café regularmente apresentam menor risco de declínio cognitivo, demência e doença de Alzheimer. A hipótese é que a combinação desses compostos contribua para reduzir o estresse oxidativo, modular processos inflamatórios e preservar a função cerebral ao longo do envelhecimento. Ainda assim, é importante destacar que a maior parte das evidências disponíveis vem de estudos observacionais.
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Isso quer dizer que os estudos não comprovam causa e consequência? Embora os resultados sejam promissores, ainda não é possível afirmar que o café previne diretamente a demência. O que os dados sugerem é que o consumo moderado da bebida pode fazer parte de um padrão alimentar e de estilo de vida associado a um envelhecimento cerebral mais saudável.
Alguns desses estudos atribuem os efeitos protetores aos polifenóis, como você citou. Como esses compostos agem no organismo e evitam as doenças neurodegenerativas? Os polifenóis são compostos naturalmente presentes em diversos alimentos de origem vegetal e, no café, destacam-se principalmente os ácidos clorogênicos e o ácido cafeico. Eles têm ação antioxidante e anti-inflamatória, ajudando a reduzir dois processos fortemente associados ao envelhecimento cerebral e ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas: o estresse oxidativo e a inflamação crônica de baixo grau. O estresse oxidativo ocorre quando há um excesso de radicais livres, moléculas capazes de danificar proteínas, lipídios e até o DNA das células nervosas. Já a neuroinflamação pode contribuir para a perda progressiva de neurônios observada em doenças como Alzheimer e Parkinson. Os polifenóis parecem atuar reduzindo esses danos e modulando vias celulares envolvidas na sobrevivência neuronal. No entanto, é importante destacar que esses mecanismos foram observados principalmente em estudos experimentais e pré-clínicos. Embora existam evidências epidemiológicas sugerindo benefícios do consumo regular de café para a saúde cerebral, ainda não podemos afirmar que os polifenóis, isoladamente, previnem doenças neurodegenerativas em humanos. O mais provável é que os efeitos observados resultem da interação entre diferentes compostos presentes no café e outros fatores relacionados ao estilo de vida.
Há pesquisas que indicam que a atuação no eixo intestino-cérebro e na microbiota intestinal também justificaria esse impacto. Como o café agiria nesse caso? O café contém compostos fenólicos que podem influenciar a microbiota intestinal. Atualmente, as fibras alimentares e os compostos fenólicos estão entre os componentes da dieta mais estudados por sua capacidade de modular a microbiota intestinal. Mesmo que o café não seja uma fonte importante de fibras, seus compostos fenólicos parecem favorecer microrganismos associados à produção de substâncias benéficas, como o butirato, um ácido graxo de cadeia curta relacionado à saúde intestinal. Essas moléculas ajudam a manter a integridade da barreira intestinal, reduzir processos inflamatórios e influenciar a comunicação entre intestino e cérebro. Além disso, os polifenóis do café podem ser transformados pela microbiota em novas moléculas bioativas com potencial neuroprotetor. Isso sugere que parte dos benefícios observados pode ocorrer não apenas pela ação direta do café no cérebro, mas também pelos efeitos que ele exerce sobre o ecossistema intestinal.
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Há outras possíveis hipóteses? Outra hipótese envolve a cafeína. Ela atua bloqueando receptores de adenosina no cérebro, especialmente os receptores A2A, mecanismo que pode favorecer a comunicação entre os neurônios, contribuir para a plasticidade cerebral e reduzir processos neuroinflamatórios associados ao envelhecimento. Estudos experimentais também sugerem que a cafeína pode influenciar o acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau, que desempenham papel importante no desenvolvimento da doença de Alzheimer. Além disso, existe a hipótese vascular. O cérebro depende de um fornecimento constante de oxigênio e nutrientes para funcionar adequadamente, e sabemos que fatores de risco cardiovasculares também estão associados a um maior risco de declínio cognitivo e demência. Nesse contexto, alguns estudos sugerem que o consumo moderado de café pode estar relacionado a uma melhor saúde vascular e a um menor risco de acidente vascular cerebral, fatores que poderiam contribuir indiretamente para a preservação da função cognitiva ao longo do envelhecimento. Também existem hipóteses relacionadas ao metabolismo energético dos neurônios.
O que isso significa? Alguns compostos presentes no café parecem atuar sobre a função mitocondrial, estruturas responsáveis pela produção de energia celular. Como alterações mitocondriais são frequentemente observadas em doenças neurodegenerativas, essa é outra via que vem sendo investigada para explicar os possíveis benefícios do café para a saúde cerebral. Provavelmente, não existe um único mecanismo responsável pelos benefícios observados. O mais provável é que diferentes compostos presentes no café atuem simultaneamente sobre processos como inflamação, estresse oxidativo, microbiota intestinal, metabolismo energético, saúde vascular e comunicação neuronal.
Os estudos têm mostrado que os benefícios estão ligados a duas a três xícaras da bebida. O que o consumo excessivo pode desencadear? Embora os estudos sugiram benefícios associados ao consumo moderado de café, geralmente em torno de duas a três xícaras por dia, o consumo excessivo pode trazer efeitos indesejáveis. De forma geral, autoridades internacionais consideram segura para adultos saudáveis uma ingestão de até 400 mg de cafeína por dia, embora a tolerância individual possa variar. Acima disso, especialmente em pessoas mais sensíveis, podem ocorrer sintomas como ansiedade, irritabilidade, insônia, palpitações e tremores. Também é importante lembrar que o café não é a única bebida rica em compostos bioativos.
Você fala dos chás que também são citados em estudos? Sim, chás como o verde, o preto, o mate e o hibisco também fornecem polifenóis e outras substâncias com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Para pessoas mais sensíveis à cafeína, opções como hibisco, camomila e erva-cidreira podem ser alternativas interessantes, permitindo o consumo de bebidas quentes e compostos bioativos sem os efeitos estimulantes da cafeína. Quando falamos em saúde cerebral, mais nem sempre significa melhor. Os estudos costumam mostrar que os benefícios estão associados ao consumo moderado, enquanto quantidades muito elevadas não parecem oferecer proteção adicional. Por isso, a recomendação é que o café, assim como outras bebidas ricas em compostos bioativos, faça parte de um padrão alimentar equilibrado e de hábitos de vida saudáveis.










