SAÚDE E BEM ESTAR

O cigarro mudou de forma, mas não saiu de cena

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O sucesso do Brasil contra o tabagismo tradicional enfrenta um novo desafio: a ascensão dos cigarros eletrônicos, que mascaram uma migração da dependência de nicotina, especialmente entre jovens. Dados da Socesp e estudos revelam a persistência do consumo e os riscos à saúde, desmistificando a ideia de “menos prejudicial”.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Durante décadas, o Brasil foi celebrado como um caso de sucesso no combate ao tabagismo. Campanhas educativas, restrições à publicidade e políticas públicas consistentes reduziram de forma expressiva o número de fumantes.
À primeira vista, os números sugerem vitória. Mas um olhar mais atento revela um fenômeno preocupante: o tabaco não desapareceu, ele apenas mudou de formato.

Uma pesquisa recente conduzida pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), realizada na capital paulista, em cidades do interior e do litoral, mostra que o uso de cigarros eletrônicos, os vapes, já está presente de forma relevante, principalmente nos mais jovens.

Entre os homens entrevistados, 12% afirmaram usar cigarros eletrônicos regularmente e 6% eventualmente. Entre as mulheres, 9% relataram uso regular e 5% uso ocasional.
Embora a maioria dos participantes não utilize esses dispositivos, a presença do hábito em ambos os sexos acende um sinal de alerta importante para a saúde pública. Mais do que números isolados, os dados apontam para uma transformação silenciosa do comportamento relacionado à nicotina.
Quando perguntados sobre o contato com nicotina, os resultados ampliam a preocupação. Entre os homens, 16% declararam ser fumantes ou usuários de vape, enquanto 23% convivem com fumantes ou usuários de dispositivos eletrônicos. Entre as mulheres, o percentual de usuárias também foi de 16%, mas 31% afirmaram conviver com pessoas que utilizam nicotina.

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Isso significa que a exposição, direta ou indireta, permanece elevada, mesmo em um cenário onde o cigarro tradicional parece menos visível.
A interpretação desses dados exige cautela. A queda do consumo do cigarro convencional não necessariamente representa redução real da dependência de nicotina. Muitas vezes, trata-se apenas de uma migração tecnológica.
Comemoramos, por muito anos, a redução do tabagismo, mas nos últimos tempos temos tido também a percepção em consultório, além dos dados da pesquisa da Socesp, que ele não vem diminuindo mais, pelo contrário, apenas tem mudado de forma.
Essa tendência não é exclusiva do Brasil. Um levantamento recente baseado na Pesquisa Nacional de Entrevistas em Saúde dos Estados Unidos mostrou que, apesar da redução do tabagismo tradicional, 18,8% dos adultos americanos utilizam algum produto derivado do tabaco, incluindo cigarros eletrônicos.

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O estudo também identificou prevalência significativa do uso de e-cigarettes entre adultos jovens, justamente a faixa etária mais impactada pela percepção equivocada de que os dispositivos eletrônicos seriam menos nocivos.
Na prática, o que se observa é uma substituição do cigarro combustível por novas formas de consumo de nicotina, e não o abandono da dependência.
Hoje, estima-se que cerca de um em cada cinco adultos estadunidenses utilize cigarros eletrônicos ou outros produtos de tabaco, um patamar que serve de alerta para países como o Brasil, que podem estar seguindo trajetória semelhante.
O mito do ‘menos prejudicial’
Grande parte da popularização dos cigarros eletrônicos está associada à ideia de redução de danos. Aromas atrativos, design tecnológico e marketing digital contribuíram para criar a percepção de modernidade e segurança.

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No entanto, dispositivos eletrônicos continuam entregando nicotina, uma substância altamente viciante, além de compostos químicos potencialmente tóxicos ao sistema cardiovascular e respiratório.
Estudos já demonstram associação entre o uso de vapes e alterações inflamatórias, disfunção endotelial e aumento do risco cardiovascular, fatores diretamente relacionados ao desenvolvimento de infarto e acidente vascular cerebral.
O risco se torna ainda maior quando consideramos o padrão de uso: muitos indivíduos que adotam o cigarro eletrônico não abandonam completamente o cigarro tradicional, tornando-se usuários duplos.
O cenário atual impõe um desafio diferente daquele enfrentado nas décadas anteriores. Se antes o foco era reduzir o número de fumantes visíveis, agora é necessário enfrentar uma epidemia mais discreta, digital e socialmente normalizada.

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Os dados da Socesp mostram que o contato com a nicotina permanece disseminado dentro dos ambientes familiares e sociais. A convivência com usuários aumenta a normalização do hábito e favorece a iniciação, especialmente entre jovens adultos.
*Jaqueline Schol é assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e especialista em tratamento do tabagismo

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