SAÚDE E BEM ESTAR

Cúrcuma movimenta mercado milionário, mas uso indiscriminado de suplementos oferece riscos

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A cúrcuma, condimento milenar, virou hit como alimento funcional, impulsionando um mercado milionário de suplementos. Embora pesquisas apontem benefícios, a Anvisa alerta para riscos hepáticos com o uso indiscriminado de extratos, enquanto o consumo como tempero é seguro e incentivado.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Dono de aroma único, sabor intenso e coloração entre o amarelo vivo e o terroso, o “ouro indiano” caiu nas graças e na boca do povo mundo afora. Essa é uma das alcunhas da cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra, uma iguaria que começou a ser utilizada na culinária asiática há pelo menos 4 000 anos. Seus 53 diferentes nomes em sânscrito, o antigo idioma da Índia, já anunciavam a ideia de que a raiz parecida com o gengibre renderia muito mais que um tempero. “Aquela que vence doenças”, “que cura febres”, “que destrói gordura”… Essas eram algumas das denominações da planta que virou pó e enriqueceu pratos e rituais terapêuticos até ganhar o planeta. Hoje, embalada por pesquisas em laboratório, a cúrcuma vive seu auge com a fama de alimento funcional, embora não seja a panaceia que alguns curandeiros modernos pregam por aí.
O uso da especiaria na cozinha nunca esteve distante das tradições medicinais indianas. Embora os relatos de benefícios tenham séculos de história, só em 1949 a ciência ocidental começou a descobrir as propriedades do vegetal e de seus ingredientes. Na renomada revista Nature, estudiosos publicaram um artigo sobre a ação antibacteriana da curcumina, o principal composto da planta, que seria, décadas depois, associado a efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. Desde então, foram mais de 28 200 pesquisas sobre o alimento e seus componentes. Apesar de nem todos os benefícios serem confirmados por estudos robustos, a sanha por “remédios naturais” estimulou sua divulgação entre consultórios e redes sociais. “Essa fama é impulsionada pelo baixo custo e pelo fato de ser um produto com uma longa história na medicina ayurveda, o que se alinha à tendência contemporânea de buscar alimentos funcionais e um estilo de vida mais equilibrado”, diz a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).

ESPECIARIA - Da Índia para o mundo: fama vem da cor vibrante e do sabor exótico (Nasir Kachroo/NurPhoto/Getty Images)

De fato, existem evidências mais consistentes sobre as vantagens de consumir a cúrcuma na dieta. Uma delas tem a ver com a sensibilidade à insulina, o hormônio que bota a glicose dentro das células. Ao otimizar esse processo, pode melhorar o controle glicêmico, especialmente em pessoas com diabetes. Mas há uma leva de experimentos analisando outras propriedades — dos efeitos anticâncer e antigordura à inibição de alergias e bactérias pulmonares. “Só que o apelo cresceu mais rápido do que as provas científicas conseguem acompanhar”, afirma a nutricionista Camille Perella Coutinho, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). A grande questão é que a maior parte das descobertas sensacionais sobre a cúrcuma e seus compostos vem de testes com células ou camundongos. “Quando olhamos os estudos clínicos, aqueles em humanos, os efeitos tendem a ser mais modestos porque a curcumina tem baixa absorção no organismo”, diz Coutinho. Além disso, uma coisa é desfrutar de um condimento nas refeições — ou em receitas que viralizaram como o “leite dourado” —, outra é tomar um extrato em experiências controladas.

No prato colorido ou na forma de suplemento, o fato é que a cúrcuma ficou pop. As buscas no Google atingiram o maior pico nos últimos cinco anos e a expectativa é de que o mercado de soluções baseadas na planta salte de 98,9 milhões de dólares em 2024 para quase 200 milhões até 2030, de acordo com projeções da consultoria Grand View Research. Quem aproveita a onda é a indústria de suplementos alimentares, que já oferece um arsenal de cápsulas com alegações que vão de “desinflamação” a “perda de peso”. O problema da tendência, bastante disseminada na internet, é que o uso sem orientação profissional comporta riscos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta sobre casos graves, ainda que raros, de danos ao fígado relacionados a extratos e suplementos de cúrcuma — episódios de intoxicação hepática já foram registrados na Itália, Austrália, Canadá e França. “Isso pode ocorrer por predisposição genética, interações com medicamentos ou presença de contaminantes em produtos de baixa qualidade”, diz Dolinsky.

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RISCOS - Cápsulas: o uso pode causar intoxicação e danos ao fígado (Nodar Chernishev/Getty Images)

Felizmente, o sinal de alarme não se aplica à especiaria em si. A própria Anvisa acalmou os consumidores, informando que o uso como tempero, ainda que não seja milagroso, é seguro. Portanto, com bom senso, a cúrcuma pode e deve emprestar seu ouro às refeições. Uma receita antiga — e que continua na moda.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990

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