SAÚDE E BEM ESTAR

Cientistas de hospital brasileiro identificam nova peça no quebra-cabeça da doença de Alzheimer

Bater o martelo em relação aos mecanismos por trás do Alzheimer talvez seja um dos maiores desafios da medicina hoje. Vez ou outra, novas pesquisas surgem tentando decifrar o que acontece no cérebro – e, por muito tempo, quase tudo levava a crer que o problema se resumia à ação de duas proteínas: beta-amiloide e TAU, que, ao se acumularem na região cerebral, são responsáveis por fazer as conexões cerebrais falharem. Agora, um novo estudo brasileiro, conduzido no Hospital Moinhos de Vento, sugere que as famosas ‘vilãs’ podem até agir, mas não sozinhas.
O que a pesquisa mostra é que o acúmulo dessas proteínas, embora importante, não tem capacidade de fazer o cérebro falhar por conta própria. Para que o desenvolvimento desse tipo de demência de fato ocorra, é necessário uma espécie de “gatilho”: a ativação das células de defesa do cérebro, chamadas microglia. Quando entram em ação de forma desregulada, essas células estimulam outras estruturas de suporte — os astrócitos — a assumirem um comportamento inflamatório, acelerando a progressão da doença.

O trabalho, publicado na revista Nature Neuroscience — uma das mais prestigiadas de divulgação científica —, usou tecnologias como PET scan e análises de proteínas no sangue. Ao todo, os cientistas acompanharam mais de 300 pessoas. Um dos achados mais interessantes foi perceber que nem todos os indivíduos com placas de beta-amiloide desenvolveram demência, especialmente quando o sistema de defesa do cérebro permanece sob controle.
“Mostramos pela primeira vez, em humanos, que a comunicação desregulada entre as células de suporte e defesa do cérebro é determinante para o desenvolvimento da doença de Alzheimer”, afirma João Pedro Ferrari-Souza, primeiro autor do estudo e pesquisador da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento.

Na prática, esse “diálogo desregulado” entre as células cria o ambiente propício para o surgimento da segunda proteína ‘tóxica’: a tau, diretamente associada à degeneração dos neurônios e à perda de memória. É ela, ao fim, que consolida o dano cerebral.

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“Imagina que a inflamação funciona como uma ponte: ela conecta as proteínas tóxicas ao dano cerebral definitivo. Conseguir identificar esse processo por meio de exames de sangue e imagem nos permite antecipar o avanço da doença com muito mais precisão, agindo antes que as perdas sejam irreversíveis”, diz Wyllians Borelli, coordenador do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento, que também participa do estudo.
Para Zimmer, os resultados têm potencial para mudar o foco da abordagem terapêutica. “Os resultados mostram que precisamos focar em terapias capazes de controlar a inflamação do cérebro, e não apenas na remoção das placas de beta-amiloide contra o Alzheimer”, diz.
E como prevenir a neuroinflamação?
Se a inflamação no cérebro é uma peça importante no desenvolvimento do Alzheimer, a pergunta que surge é inevitável: é possível controlar?

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Por enquanto, a resposta está longe de ser trivial. “Não existe hoje uma terapia capaz de modular de forma precisa a neuroinflamação e mudar o curso da doença”, afirma Zimmer.
Isso acontece, segundo ele, porque a inflamação no cérebro é diferente daquela que ocorre no resto do corpo. Ela envolve mecanismos muito específicos das células da glia, como microglia e astrócitos. Ou seja, não é algo possível de tratar apenas com anti-inflamatórios comuns.
Segundo Zimmer, essa diferença ajuda a entender por que várias tentativas de tratamento falharam. Um dos exemplos é o estudo ADAPT, que testou anti-inflamatórios comuns, como naproxeno e celecoxibe, em pessoas com risco para Alzheimer, sem conseguir bons resultados e com sinais de possível efeito negativo em fases mais avançadas.

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Mais recentemente, pesquisas com a semaglutida, medicamento usado no tratamento do diabetes e da obesidade, também não conseguiram desacelerar o declínio cognitivo em pacientes.
“Embora nossos resultados indiquem que a neuroinflamação pode, sim, influenciar o curso da doença, não se trata de simplesmente reduzir o processo inflamatório”, diz Zimmer. O caminho, segundo o especialista, é focar em uma abordagem conjunta – essa talvez seja a principal sacada da pesquisa. “O mais provável é que o tratamento do Alzheimer no futuro envolva uma combinação de abordagens, atuando ao mesmo tempo sobre diferentes mecanismos, como amiloide, tau e inflamação.”
A próxima pergunta que o grupo de pesquisa pretende responder é se hábitos de vida saudáveis, como alimentação, atividade física e sono, podem influenciar esse processo inflamatório. “Hoje sabemos que esses fatores impactam a saúde metabólica e inflamatória do organismo como um todo, mas ainda não está claro se esse efeito se reflete, de forma direta ou indireta, na inflamação do cérebro. Essa é justamente uma das perguntas que nosso grupo de pesquisa está investigando no momento.”

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