SAÚDE E BEM ESTAR

Estudos ajudam a eleger o melhor perfil de dieta para envelhecer bem

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Coma bem, viva mais! Um novo estudo e rankings de especialistas revelam que dietas como Mediterrânea, DASH e Flexitariana podem reduzir a mortalidade precoce em até 24%. Descubra como a “comida de verdade” e um estilo de vida equilibrado podem prolongar sua vida e prevenir doenças crônicas, combatendo a inflamação.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

De Hipócrates, o pai da medicina ocidental, às postagens nas redes sociais, a ideia de fazer do alimento seu melhor remédio parece a um só tempo ancestral e atual. Embora não se possa colocar apenas na conta da comida a receita da longevidade, a ciência reúne provas de que as escolhas à mesa dão mais do que pitadas de influência sobre o estado de saúde — hoje e amanhã. Não se trata de remédio, mas de uma forma de nutrir a prevenção de doenças e estender a expectativa de vida. Nessa direção, um novo estudo, baseado em informações colhidas entre mais de 100 000 britânicos, demonstra uma associação expressiva entre a adoção de certos programas alimentares e a redução de até 24% nos índices de mortalidade precoce. Na análise, quem seguia cinco tipos de dieta ganhava até três anos mais de vida, em média. Entre os menus chancelados pela pesquisa, destacam-se três dos mais estudados e elogiados atualmente, a dieta mediterrânea, a DASH (sigla para abordagem dietética para brecar a hipertensão) e a flexitariana, que preconiza vegetais, mas sem exclusão de carnes e ovos.
Esses mesmíssimos cardápios estrelam o ranking anual dos melhores planos alimentares para a saúde elaborado pela publicação americana U.S. News & World Report com base em entrevistas com centenas de especialistas. Com suas generosas doses de azeite de oliva, nozes, frutas, verduras e peixes, a dieta do Mediterrâneo aparece no topo da lista. A proposta flexitariana e a DASH também marcam presença, ao lado de uma versão criada para a proteção do cérebro e outra destinada a conter sintomas da menopausa. Em comum, e esta é a grande lição, elas privilegiam certos ingredientes, como os vegetais, e pedem moderação nos ultraprocessados e nas fontes de sódio e açúcar.

CAUTELA - Ultraprocessados: alto consumo está ligado a 32 problemas médicos (Anastasiia Krivenok/Getty Images)

Sim, embora os nomes e as siglas das dietas mudem, há mais pontos de intersecção do que disparidades entre elas. Todas se pautam, por exemplo, em prover “comida de verdade”, um termo que reflete a aplicação da ideia de descascar mais e desembalar menos — mais alimentos naturais, menos itens industrializados prontos e lotados de aditivos. Fartura em hortaliças e cereais integrais, economia na carne vermelha. O resultado são pratos coloridos, diversificados e com porções suficientes para se sentir saciado. “Essas dietas não são radicais nem restritivas. Pelo contrário: priorizam a qualidade e o equilíbrio”, diz a nutricionista Lara Natacci, da USP. Isso quer dizer que também são sustentáveis (leia mais na pág. 74).

O efeito sobre a longevidade decorre de uma mistura de fatores — e vai muito além da balança, embora ela tenha um peso relevante na história. Com a queda no consumo de ultraprocessados e a redução de sal, açúcar e gordura saturada, defendida por esses cardápios, ajudamos a mitigar um processo fisiológico que está por trás de praticamente todas as doenças crônicas encurtadoras de vida — falamos de problemas cardiovasculares, diabetes, câncer, Alzheimer… Trata-se da inflamação. Quando ainda se agregam frutas, legumes e demais fontes de fibras, vitaminas e antioxidantes, o que se tem é um cardápio que auxilia o organismo a apagar esse incêndio em fogo brando, mas extremamente nocivo. No livro recém-publicado A Dieta Anti-Inflamatória, escrito pela nutricionista Lulu Cook e pela chef de cozinha Dorothy Calimeris, as autoras americanas explicam que a inflamação não é algo essencialmente ruim; pelo contrário, ela ajuda o corpo a se defender de infecções, ferimentos e demais lesões. Mas essa é uma reposta pontual e temporária. Quando esse fenômeno se instaura de forma crônica — seja pelo excesso de peso, seja por uma doença já instalada —, as células dos mais diversos tecidos ficam sob chamas, o que contribui para o desenvolvimento ou o agravamento de uma série de males.

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É aí que a alimentação pode entrar em cena. Ela não é uma terapia anti-inflamatória, como se prega nas redes sociais, mas colabora para modular o desequilíbrio imunológico. Ao priorizar alimentos in natura e minimamente processados, dietas como a mediterrânea e a flexitariana não só nutrem, como favorecem o controle de um mecanismo biológico capaz de aumentar o risco de problemas no fígado, no cérebro, no coração… Tudo que poda a longevidade. “Essas dietas diminuem o chamado colesterol ‘ruim’ e ajudam a manter níveis adequados do colesterol ‘bom’, um fator que reduz a exposição à inflamação nas artérias”, diz a nutricionista Nágila Damasceno, coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Ora, a combinação entre colesterol e substâncias inflamatórias dentro dos vasos sanguíneos é o que catapulta a probabilidade de placas de gordura se formarem — caminho para uma obstrução e, com isso, um infarto.
Mais do que alimentos isolados, o que os cardápios ancorados na ciência defendem são transformações nos hábitos de compra, preparo e desfrute da comida. Até o papel social das refeições conta para o envelhecimento. No planejamento alimentar, torna-se cada vez mais consensual que os ultraprocessados exigem cautela. Estudos encabeçados pela maior autoridade mundial sobre o tema, o epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, revelam que uma rotina abarrotada desses alimentos — que vão de salgadinhos e refrigerantes a bolos prontos e macarrão instantâneo — está ligada a pelo menos 32 problemas de saúde, incluindo agravos ao bem-estar mental. O desafio é que esses itens têm chegado cada vez mais cedo à mesa, e já se veem os resultados disso.

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HORA SAGRADA - Mais refeições em grupo, menos dietas radicais: fórmula de sucesso (Thomas Barwick/Getty Images)

De mãos dadas com o sedentarismo, o consumo corriqueiro de ultraprocessados é um dos motivos que explicam o contínuo crescimento da obesidade globalmente. De acordo com o novo Atlas da Federação Mundial da Obesidade, o excesso de peso deverá atingir 228 milhões de crianças e adolescentes até 2040. A consequência da gordura de sobra desde a infância é o aparecimento precoce das doenças que encurtam a vida, como hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer. “Só que esse padrão alimentar não é apenas uma questão de escolha, também se deve a uma necessidade de famílias de baixa renda que precisam comprar comida mais barata e disponível”, afirma o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).
Nesse cenário, nosso país vive uma espécie de paradoxo. De um lado, os ultraprocessados já respondem por quase 50% das compras de supermercado. Do outro, somos referência internacional por ter uma das diretrizes alimentares mais prestigiadas, o Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde. “O Guia se aproxima muito desses padrões alimentares que aparecem bem colocados nas pesquisas, além de valorizar a comida regional, o hábito de cozinhar e as refeições em família”, diz Natacci. Na prática, isso significa que não é preciso importar dietas muito menos modismos. A base do prato brasileiro — arroz, feijão, salada, legumes cozidos… — aloja boa parte dos nutrientes protetores. E, quanto às carnes, segue firme a recomendação de alternar e preferir os cortes mais magros. “A ingestão regular de pescados também é muito bem-vinda, porque oferece as gorduras de melhor qualidade”, diz Damasceno.

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Diversidade e bom senso também são uma excelente pedida. Apesar de dietas restritivas, como low carb, cetogênica ou mesmo o jejum intermitente, estarem em alta, os estudos apontam para a importância de olhar menos para grupos alimentares isolados e mais para a variedade do que vai ao prato. Uma das preocupações, segundo Natacci, é a tendência de simplificar e radicalizar, elegendo um único vilão (como o carboidrato) e buscando receitas de resultados rápidos. Isso não só não se sustenta como, ao eliminar um ou outro ingrediente, pode comprometer as doses de fibras, vitaminas e minerais de que precisamos, prejudicando a microbiota intestinal (cujo equilíbrio também está relacionado à prevenção de doenças) e levando a deficiências nutricionais por vezes ocultas.
Tal cuidado com a dieta deve ser observado especialmente por quem já trilha a maturidade. Com o avanço da idade, há um processo natural de diminuição da massa muscular e inclusive alterações esperadas na imunidade. Nesse contexto, planos restritivos só tendem a piorar as coisas. A despeito da idade, também é imprescindível que a alimentação seja acompanhada de outros ajustes no estilo de vida. “Dieta sozinha não vai promover a longevidade. Isso acontece quando ela é um dos componentes de uma rotina adequada, ao lado dos exercícios físicos, por exemplo”, afirma a médica Maysa Seabra Cendoroglo, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Outra furada é pensar que o uso de suplementos alimentares substitui um cardápio balanceado. Eles não só podem ser inócuos como, a depender da dosagem, expor o indivíduo a sobrecargas e riscos. Existem indicações certas, de preferência sob a tutela médica. Embora a genética também tenha lá seu peso no envelhecimento, está cada vez mais evidente que os hábitos podem mudar o saldo dos anos saudáveis que teremos pela frente — uma matemática que passa inevitavelmente pela mesa e, quem sabe, pode nos poupar de muito remédio.
Publicado em VEJA de 13 de março de 2026, edição nº 2986

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